A HIPOCRISIA

(MÉDIUM, SR. DIDIER FILHO)


Revista Espírita. Dezembro de 1860


Deveria haver na Terra dois campos bem distintos: o dos homens que fazem o bem abertamente e o dos que fazem o mal abertamente. Mas, não! O homem não é franco no tocante ao mal: afeta virtude. Hipocrisia! Hipocrisia! deusa poderosa, quantos tiranos criaste! quantos ídolos fizeste adorar! O coração do homem é realmente muito estranho, pois pode bater quando está morto, pois pode, em aparência, amar a honra, a virtude, a verdade, a caridade! Diariamente o homem se prostra ante estas virtudes e falta à sua palavra, desprezando o pobre e o Cristo. Diariamente é um tartufo e mente. Quantos homens parecem honestos porque a aparência muitas vezes engana! Cristo os chamava sepulcros caiados, isto é, a podridão interna, o mármore por fora, brilhando ao sol. Homem, na verdade pareces essa morada da morte; e, enquanto teu coração estiver morto, Jesus não te inspirará, Jesus, esta luz divina que não clareia o exterior, mas ilumina interiormente.


A hipocrisia — entendei bem — é o vicio da vossa época. E quereis fazer-vos grandes pela hipocrisia! Em nome da liberdade, vos engrandeceis; em nome da moral, vos embruteceis; em nome da verdade, mentis.


LAMENNAIS

sobre o aborto

A educação de um Espírito

Revista Espírita 12/1860

1.— Para que sejas mau assim, é preciso que sofras?

— Sim, sofro. E é isto que me faz ser mau.

2. — Jamais sentes remorso do mal que fazes ou procuras fazer?

— Não; jamais tenho remorso, e gozo o mal que faço, porque não posso ver os outros felizes sem sofrer.

3. — Não admites, então, que se possa ser feliz com a felicidade alheia, em vez de encontrar felicidade em sua desgraça? Jamais fizeste tais reflexões?

— Jamais as fiz, e acho que tens razão; mas não posso me... não posso fazer o bem; eu sou...

 

OBSERVAÇÃO: Essas reticências substituem as garatujas feitas pelo Espírito, quando não quer ou não pode escrever uma palavra.

 

4 — Mas, enfim, não queres escutar-me e experimentar os conselhos que poderia dar-te?

— Não sei, porque tudo quanto me dizes me faz sofrer ainda mais, e não tenho coragem de fazer o bem.

5. — Ora! prometes-me ao menos tentar?

— Oh! não; não posso, porque não cumpriria a promessa e por isso seria punido. Ainda é preciso pedires a Deus que me mude o coração.

6. — Então, oremos juntos. Pede comigo que Deus te melhore.

— Digo-te que não posso; sou muito mau e agrada-me fazer o mal.

7. — Mas, realmente, querias fazê-lo a mim? Eu não considero como mal real as tuas mistificações que, por certo, até aqui nos têm sido mais úteis que prejudiciais, pois serviram para a nossa instrução. Assim, como vês, perdes o tempo.

— Sim, eu fiz tanto quanto posso; e se não fiz mais foi por não poder.

8. — Que é o que to impede?

— O teu bom anjo da guarda e tua Maria, sem o que verias do que sou capaz.

 

OBSERVAÇÃO: Maria é o nome de uma jovem que evocam em vão, e que não se pode manifestar por causa desse Espírito. Vê-se, porém, pela resposta mesma do Espírito, que se ela não pode manifestar-se materialmente, não deixa de lá estar, como o anjo da guarda, velando por eles. O fato levanta um sério problema, o de saber como um mau Espírito pode impedir as comunicações de um bom. Ele só impede as comunicações materiais, mas não as espirituais. Não é o mau Espírito mais poderoso que o bom; é o médium que não é bastante forte para vencer a obstinação do mau, e que deve esforçar-se por vencê-lo pelo ascendente do bem, me lhorando-se mais e mais. Deus permite essas provas em nosso interesse.

 

9. — Então que me farias?

— Eu te faria mil coisas, umas mais desagradáveis que outras; eu te faria...

10. — Vejamos, pobre Espírito; jamais tens um gesto generoso? Jamais tens um só desejo de fazer algum bem, ainda que fosse um vago desejo?

— Sim, um desejo vago de fazer o mal; não posso ter outro. E preciso que ores a Deus, para que eu seja tocado. Do contrário, continuarei mau. E certo.

11. — Então crês em Deus?

— Não posso deixar de crer, já que me faz sofrer.

12. — Então! já que acreditas em Deus, deves ter confiança em sua perfeição e em sua bondade. Deves compreender que ele não fez suas criaturas para votá-las à desgraça; que se são infelizes, é por sua própria culpa e não pela dele; mas que elas sempre têm meios de melhorar e, conseqüentemente, chegar à felicidade; que Deus não fez suas criaturas inteligentes sem objetivo e que esse objetivo é fazer que todas concorram para a harmonia universal: a caridade, o amor do próximo; que a criatura que se afasta de tal objetivo perturba a harmonia e ela própria é a primeira vitima a sofrer os efeitos dessa perturbação que causa. Olha em torno de ti e acima de ti: não vês Espíritos felizes? Não tens o desejo de ser como eles, já que dizes que sofres? Deus não os criou mais perfeitos do que tu; como tu, talvez tenham sofrido, mas se arrependeram e Deus lhes perdoou; tu podes fazer como eles.

— Começo a ver e a compreender que Deus é justo; eu ainda não tinha visto. Es tu que me vens abrir os olhos.

13. — Então! já não sentes o desejo de melhorar?

— Ainda não.

14. — Espera, que Ele virá. Eu o espero. Disseste à minha mulher que ela te torturava, enquanto te invocava. Crês que procuremos torturar-te?

— Não; bem vejo que não, Mas não é menos verdade que sofro mais que nunca e vós sois a causa disto.

 

OBSERVAÇÃO: Interrogado quanto à causa de tal sofrimento, um Espírito superior respondeu: A causa está no combate que Ele trava consigo mesmo; malgrado seu, sente algo que o arrasta para um melhor caminho, mas resiste; é essa luta que o faz sofrer. — Quem vencerá nele: o bem ou o mal? — O bem; mas a luta será longa e difícil. É preciso ter muita perseverança e devotamento.

 

15. — Que poderemos fazer para que não sofras mais?

—E preciso que ores a Deus para que me perd... (ele risca as duas últimas palavras) que tenha piedade de mim.

16.— Então! ora conosco.

— Não posso.

17. — Disseste que tens de crer em Deus, pois que ele te faz sofrer. Mas como sabes que é Deus quem te faz sofrer?

—           Ele me faz sofrer porque sou mau.

18. — Se é verdade que julgas ser Deus quem te faz sofrer, deves reconhecer nisso o motivo e não podes imaginar que Deus seja injusto?

— Sim, creio na justiça de Deus.

19. — Disseste que nós te abrimos os olhos. Verdade ou não, o certo é que não podes dissimular a verdade do que te dizemos. Ora, quer tais verdades te sejam conhecidas antes de nós, ou por nós, o essencial é que as conheças. Hoje, o grande negócio para ti é tirar partido delas. Dize, pois, francamente, se a satisfação que experimentas em fazer o mal não te deixa nada a desejar.

— Desejo que meus sofrimentos acabem; eis tudo. E eles não acabarão nunca.

20. — Compreendes que depende de ti que eles acabem?

—Compreendo.

21. — Em tua última existência corpórea te entregaste sem reservas às más inclinações, como parece que fazes agora?

— Convém saberes que sou mais imundo que uma fera, sou um miserável que fez tudo até...

22. — Eu e minha mulher te fizemos algum mal? Tiveste que te lamentar de nós numa outra existência?

— Não; eu não...

23. — Então, dize por que encontras mais prazer em te encar niçares contra gente inofensiva como nós, que te queremos bem, em vez de contra gente má, que talvez seja, ou tenha sido tua inimiga? — Ele não me causam inveja.

 

OBSERVAÇÃO: Esta resposta é característica: pinta o ódio do mau contra os homens que sabe serem melhores que ele. É a inveja que cega e por vezes impele a atos mais contrários aos seus interesses. Há-os também aqui na Terra, onde muitas vezes os maiores erros de um homem, aos olhos de certas pessoas, têm o seu mérito. Aristides é um exemplo.

24. — Eras mais feliz na Terra, do que agora?

— Oh! sim. Eu era rico e de nada me privava. Cometi baixezas de toda sorte e fiz todo o mal que se pode, quando se tem dinheiro e miseráveis à disposição.

25. — Por que me pedias outro dia que te deixasse tranqüilo?

— Porque não queria responder às perguntas que me dirigias. Mas estou à vontade por me evocares e queria sempre escrever, porque o tédio me mata. Oh! não sabes o que é estar continuamente em presença das faltas e dos crimes, como estou!

26. — Que impressão experimentas à vista de uma ação generosa?

— Experimento despeito. Gostaria de aniquilá-la.

27. — Durante tua última existência corpórea jamais fizeste uma boa ação, fosse qual fosse o móvel?

— Fi-la por ambição e orgulho; jamais por bondade. Por isso, não me foi levada em conta.

FENÔMENO DE LINGÜÍSTICA

O    Quatterly journal of Psychological Medícine publica um relatório muito curioso sobre uma menina que substituiu a língua falada em seu redor por uma série de nomes e verbos, formando todo um idioma, do qual se serve e não se pode desabituar.

"A criança tem agora quase cinco anos. Até a idade de três anos ficou sem falar e não sabia pronunciar senão as palavras "papa" e "maman." Quando se aproximou dos quatro anos, a língua se desatou de repente, e hoje fala com toda a facilidade e a volubilidade de sua idade. Mas de tudo quanto diz, só as duas palavras "papa" e "maman", que aprendeu a princípio, foram tiradas da língua inglesa. Todas as outras nasceram de seu cérebro e em seus labiosinhos, e não tem mesmo nenhuma relação com essa corruptela de palavras de que se servem as crianças que com ela brincam habitualmente.

"Em seu dicionário, Gaan significa Deus; migno-migno, água; odo, mandar ou retirar, conforme é colocada; gar, cavalo.

"Um dia, diz o Dr. Hun, começou a chover. Fizeram a menina entrar e lhe proibiram de sair antes que a chuva cessasse. Ela postou-se à janela e disse:

"– Gaan odo migno-migno, feu odo. (Deus retire a chuva; traga o fogo do sol).

"A palavra feu aplicada no mesmo sentido que na língua a que pertenço me chocou. Soube que a criança jamais tinha ouvido falar francês, coisa muito singular, e que seria interessante constatar bem, porque a criança havia tomado diversas palavras à língua francesa, tais como "fout", "moi", e a negação "nepos."

"A menina tem um irmão mais velho cerca de dezoito meses. Ela lhe ensinou a sua língua, sem tomar nenhuma das palavras de que se serve ele.

"Seus pais estão muito desolados com esse pequeno fenômeno. Muitas vezes tentaram ensinar-lhe inglês, dar-lhe o nome inglês das coisas que ela designa de outro modo em seu idioma. A isso recusou-se terminantemente. Tentaram afastá-la das crianças de sua idade e de a pôr em contato com gente idosa, falando inglês e nada conhecendo do seu patuá. Era de esperar que uma criança que se mostrava tão ávida por comunicar seus pensamentos quanto por inventar uma língua nova, procurasse aprender o inglês quando se achasse entre pessoas que falassem esta língua. Mas não deu resultado.

"Logo que se acha com pessoas que não têm o hábito de ver, põe-se a lhes ensinar a sua língua e, ao menos momentaneamente, os pais renunciaram a desabituá-la."

Tendo sido o fato discutido na Sociedade Espírita de Paris, um Espírito deu a sua explicação na comunicação seguinte:


 

(SOCIEDADE DE PARIS, 9 DE OUTUBRO DE 1868 - MÉDIUM: SR. NIVARD)

O fenômeno da pequena inglesa, falando uma língua desconhecida para os que a rodeiam e se recusando a servir-se da deles, é o fato mais extraordinário que se produziu desde muitos séculos.


 

Fatos surpreendentes ocorreram em todos os tempos, em todas as épocas, que causaram admiração aos homens, mas tinham similares ou parecidos. Isto certamente não os explicava, mas eram vistos com menos surpresa. Este de que se trata é, talvez, único no seu gênero. A explicação que se pode dar nem é mais fácil, nem mais difícil que as outras, mas sua singularidade é chocante: eis o essencial.

Eu disse chocante: é bem, não a causa, mas a razão do fenômeno. Ele choca de espanto: por isto se produziu. Hoje que o progresso faz um certo caminho, não se contentarão em falar o fato, como se fala da chuva e do bom tempo; querem procurar-lhe a causa. Os médicos nada têm a, ver com isto; a fisiologia é estranha a essa singularidade; se a menina fosse muda, ou não pudesse senão dificilmente articular algumas palavras, que não seriam compreendidas devido à insuficiência de seus órgãos vocais, os cientistas diriam que isto se deve às mas disposições fisiológicas e que fazendo desaparecerem essas más disposições, deixariam à criança o livre uso da palavra. Mas tal não é o caso. Ao contrário, a menina é loquaz, tagarela; fala facilmente, chama as coisas à sua maneira, exprime-as à maneira que lhe convém e vai mais longe: ensina sua língua às suas camaradas, quando está provado que não lhe podem ensinar a língua materna e que não quer mesmo sujeitar-se.

A psicologia é, pois, a única ciência na qual se deve buscar a explicação deste fato. A razão, o fim especial, acabo de dizer: era preciso chocar os espíritos e solicitar as suas pesquisas. Quanto à causa, vou tentar vo-la dizer.

O Espírito encarnado no corpo dessa menina conheceu a língua, ou antes, as línguas que fala, pois faz uma mistura. Não obstante a mistura é feita conscientemente e constitui uma língua, cujas diversas expressões são tomadas das que esse Espírito conheceu em outras encarnações, Em sua última existência ele tinha tido a idéia de criar uma língua universal, a fim de permitir aos homens de todas as nações entender-se e assim aumentar a facilidade das relações e o progresso humano. Para esse efeito ele tinha começado a compor essa língua, que constituía de fragmentos de várias que conhecia e mais gostava. A língua inglesa lhe era desconhecida; tinha ouvido ingleses falar, mas achava sua língua desagradável e a detestava. Uma vez na erraticidade, o objetivo que se tinha proposto em vida aí continou; pôs-se à tarefa e compôs um vocabulário que lhe é particular. Encarnou-se entre os ingleses, com o desprezo que tinha por sua língua, e com a determinação bem firme de não a falar. Tomou posse de um corpo, cujo organismo flexível lhe permite manter a palavra. Os laços que o prendem a esse corpo são bastante elásticos, para o manter num estado de semi-desprendimento, que lhe deixa a lembrança bastante distinta de seu passado, e o mantém em sua resolução. Por outro lado, é ajudado por seu guia espiritual, que vela para que o fenômeno tenha lugar com regularidade e perseverança, a fim de chamar a atenção dos homens. Aliás, o Espírito encarnado estava consentindo na produção do fato. Ao mesmo tempo que demonstra o desprezo pela língua inglesa, cumpre a missão de provocar as pesquisas psicológicas.

  1. NIVARD, Pai

OBSERVAÇÃO: Se a explicação não pode ser demonstrada, ao menos tem por si a racionalidade e a probabilidade. Um inglês que não admite o princípio da pluralidade das existências e que não tinha conhecimento da comunicação acima, arrastado pela lógica irresistível, disse, falando desse caso, que ele não se poderia explicar senão pela reencarnação, se fosse certo a gente poder reviver na Terra.

Eis, pois, um fenômeno que, por sua mesma estranheza, cativando a atenção, provoca a idéia da reencarnação, como a única razão plausível que se lhe possa dar. Antes que este princípio estivesse na ordem do dia, ter-se-ia simplesmente achado o caso bizarro e, sem dúvida, em tempos ainda mais remotos, teriam olhado essa menina como enfeitiçada. Nós nem mesmo diríamos que hoje não fosse esta a opinião de certas pessoas. O que não e menos digno de nota é que este fato se produz precisamente num país ainda refratário à idéia da reencarnação, mas à qual será arrastado pela força das coisas.

RESULTADO DA LEITURA DAS OBRAS ESPÍRITAS

CARTAS DOS SRS. MICHEL, DE LYON E D..., D'ALBI

Como resposta à opinião do Dr. Constant relativa ao efeito produzido pela leitura das obras espíritas, publicamos a seguir duas cartas, entre mimares da mesma natureza, que nos são enviadas. Como vimos no artigo precedente, sua opinião é que esse efeito deve ser inevitavelmente de fazer pronta Justiça da pretensa ciência espírita, e é a esse titulo que lhe recomenda a leitura. Ora, há mais de seis anos que
lêem essas obras e, lamentável para a sua perspicácia, a justiça ainda não foi feliz!

ALBI, 6 DE MARÇO DE 1863

Sr. Allan Kardec,

... Sei que não devo abusar do vosso tempo precioso. Também me privo da felicidade do entreter-me longamente Convosco. Direi que lamento amargamente não ter conhecido mais cedo vossa admirável doutrina, pois sinto que teria sido um outro homem; contudo, não sou médium, nem procuro sê-lo, pois tenho graves aborrecimentos que me obsidiam. Tenho uma deplorável desconfiança; cheguei aos quarenta e nove anos sem saber uma prece. Depois que vos li, oro sempre à noite, às vezes pela manhã e, sobretudo, pelos inimigos. Vossa doutrina me salvou de muitas coisas e me faz suportar os revezes com resignação.

Quanto seria reconhecido, caro senhor, se orásseis algumas vezes por mim!

Recebei, etc.

D...

LYON, 9 MARCO DE 1863

Meu caro mestre,

Devo começar pedindo um duplo perdão, primeiro, por haver retardado muito o cumprimento de um dever desta natureza; segundo, pela liberdade que tomo, sem ter a honra de ser conhecido, de tratar de coisas que me são, de certo modo, inteiramente pessoais.

Esta consideração me obriga a ser tão breve quanto possível, para não abusar de vossa bondade, nem vos fazer perder comigo um tempo que podereis empregar utilmente no bem geral.

Há seis meses que tenho a felicidade de ser iniciado na doutrina espírita; senti nascer em mim um vivo sentimento de reconhecimento. Aliás, tal sentimento não passa de conseqüência muito natural da crença no Espiritismo. E, desde que tem sua razão de ser, deve igualmente manifestar-se. Em minha opinião, deve dividir-se em três partes, da qual a primeira a Deus, a quem diariamente cada Espírita deve agradecer esta nova prova de sua Infinita misericórdia; a segunda pertence de direito ao próprio Espiritismo, isto é, aos bons Espíritos e seus sublimes ensinamentos; enfim a terceira àquele que nos guia em nossa nova estrada e que nos sentimos felizes ao reconhecê-lo como nosso mestre venerado.

Assim compreendido o reconhecimento espírita, três deveres distintos se impõem: para com Deus, para com os bons Espíritos e para com o propagador de seus ensinamentos. Tenho esperança de me desobrigar para com Deus, pedindo-lhe perdão de meus erros passados e continuando a orar diariamente; tentarei pagar minha divida ao Espiritismo, espalhando em meu redor, tanto quanto esteja em minha pouca força, os benefícios da instrução espírita. E o fim desta .carta é vos testemunhar, senhor, o vivo desejo que sentia de me desobrigar para convosco, o que me acuso de fazer tardiamente. Apelo, pois, à vossa caridade e vos peço aceiteis esta sincera homenagem de um reconhecimento sem limites.

Associando-me de coração aos que me precederam, venho dizer-vos: Obrigado a vós que me haveis tirado do erro, fazendo radiar sobre nós o facho da verdade; obrigado a vós que destes a conhecer os meios de chegar à. verdadeira felicidade pela prática do bem; obrigado a vós que não temestes ser dos primeiros a entrar na luta.

O surgimento do Espiritismo no século dezenove, numa época em que o egoísmo e o materialismo parecem dividir o domínio do mundo, é um fato muito importante e muito extraordinário para não provocar a admiração e o espanto das pessoas sérias e dos Espíritos observadores. Tal fato é completamente inexplicável para os que recusam reconhecer a intervenção divina na marcha dos grandes acontecimentos que se realizam entre nós e, muitas vezes, mau grado nosso.

Mas um fato não menos surpreendente é que se tenha encontrado nesta mesma época de incredulidade um homem bastante crente, bastante corajoso, para sair da multidão, abandonar a corrente e anunciar uma doutrina que devia pô-lo em desacordo com o maior número pois seu objetivo é combater e derrubar os preconceitos, os abusos e os erros da massa, e, enfim, pregar a fé aos materialistas, a caridade aos egoístas, a moderação aos fanáticos, a verdade a todos.

Este fato está hoje realizado. Assim, não era impossível. Mas para realizá-lo era necessária uma coragem que só a fé pode dar. Eis o que causa a nossa admiração.

Semelhante devotamento, meu caro mestre, não podia ficar infrutífero. Assim, desde já, podeis começar a receber a recompensa de vosso labor, contemplando o triunfo da doutrina que ensinastes.

Sem vos preocupar com o número e a força dos vossos adversários, descestes só, à arena e vos opusestes às facécias injuriosas com uma serenidade Inalterável; aos ataques e calúnias, com a moderação; assim, em pouco tempo o Espiritismo propagou-Se por todas as partes do mundo; hoje seus adeptos se contam aos milhões e, o que é mais satisfatório, se recrutam em todos os graus da escala social. Ricos e pobres, ignorantes e letrados, livres pensadores e puritanos, todos responderam ao apelo do Espiritismo e cada classe empenhou-se em fornecer seu contingente nesta grande cruzada da inteligência... Luta sublimei onde o vencido tem orgulho de proclamar sua derrota e, mais orgulhoso ainda, de combater sob a bandeira dos vencedores.

Esta vitória não só honra aquele que a conquista, mas atesta a justeza da causa, isto é, a superioridade da doutrina espírita sobre todas as que A\ precederam e, consequentemente, sua origem divina. Para o adepto fervoroso o fato não pode ser posto em dúvida e o Espiritismo não pode ser obra de alguns cérebros dementes, como seus detratores tentaram demonstrar. É impossível que o Espiritismo seja uma obra humana. Deve ser e é, com efeito, uma revelação divina. Se assim não fosse, já teria sucumbido e seria impotente perante a indiferença e o materialismo.

Toda ciência humana é sistemática em sua essência e, por Isso mesmo, sujeita a erro. Eis por que não pode ser admitida senão por um pequeno número de indivíduos que, por ignorância ou por cálculo, lhes propagam as crenças errôneas, que caem por si, depois de algum tempo de prova, o tempo e a razão sempre têm feito justiça às doutrinas abusivas e despidas de fundamento. Nenhuma ciência, nenhuma doutrina pode pretender estabilidade se não possuir, no seu conjunto, como nos menores detalhes, essa emanação pura e divina que chamamos verdade. Porque só a verdade é Imutável como o Criador, que é a sua fonte.

Disto encontramos um exemplo muito consolador nas divinas palavras do Cristo, que o santo Evangelho, a despeito de sua longa e aventurosa peregrinação, nos transmitiu tão suaves, tão puras quanto ao caírem da boca do divino Renovador.

Depois de dezoito séculos de existência, a doutrina do Cristo nos parece tão luminosa quanto no momento de seu nascimento. Mau grado as falsas interpretações de uns, as perseguições de outros; posto que pouco praticada em nossos dias, nem por isso ficou menos enraizada na lembrança dos homens. Â doutrina do Cristo é pois, uma base indestrutível, contra a qual se vêm quebrar incessantemente as paixões humanas. Com a vaga impotente se arrebenta contra o rochedo, as' tempestades do erro se esgotam em vãos esforços contra o farol da verdade. Sendo o Espiritismo a confirmação e o complemento dessa doutrina, pois tem Deus como principio e a verdade como base.

Assim como nos sentimos felizes predizendo seu longo destino, entrevemos com felicidade o momento em que será crença universal. Esse momento não estará muito distante, porque os homens não tardarão a compreender que aqui em baixo não há felicidade possível sem fraternidade. Compreenderão, também, que a palavra virtude não deve apenas errar sobre os lábios, mas gravar-se profundamente nos corações. Compreenderão, enfim, que aquele que toma a tarefa de pregar a moral deve, antes de tudo e sobretudo, pregá-la pelo exemplo.

Paro, meu caro mestre, pois a grandeza do assunto arrasta-me para alturas onde não me posso manter. Mãos mais hábeis que as minhas já pintaram com vivas cores o quadro tocante, que em vão minha pena ignorante tenta esboçar. Peço-vos me perdoeis de vos haver distraído tanto tempo com meus próprios sentimentos. Mas eu sentia um desejo invencível de me expandir no seio daquele que havia dado calma a minh'alma, substituindo a dúvida que a torturava há quinze anos por uma consoladora certeza!

Eu fui, sucessivamente, católico fervoroso, fatalista, materialista, filósofo resignado. Mas dou graças a Deus por não ter sido ateu. Eu praguejava contra a Providência, sem contudo negar a Deus.

Para mim, de há muito, as chamas do inferno estavam extintas; mas, contudo, meu Espírito não estava tranqüilo quanto ao futuro. Os prazeres celestes preconizados pela Igreja não tinham atrativos suficientes para exortarem à virtude, entretanto, raramente a consciência aprovava a minha conduta. Estava em continua dúvida. Apropriando-me do pensamento de um filósofo de que "a consciência foi dada ao homem para o vexar", eu tinha chegado à conclusão de que o homem deve evitar tudo quanto o possa embrulhar com a consciência. Assim, teria evitado cometer uma grande falta porque minha consciência a isso se opunha; teria praticado algumas boas obras para experimentar a satisfação que elas provocavam. Mas nada via além. A natureza me havia tirado do nada; a morte devia levar-me ao nada. este pensamento por vezes me mergulhava numa profunda tristeza. Mas, por mais que consultasse, que buscasse, nada me dava a palavra do enigma. As disposições sociais me chocavam; muitas vezes indagava por que havia nascido no sopé da escada, onde me achava tão mal colocado. Não podendo dar a resposta, dizia: o acaso!

Uma consideração de outro gênero me fazia sentir horror do nada! De que valia instruir-se? Para brilhar num salão?... é preciso fortuna. Para se tornar um poeta, um grande escritor?... é preciso um talento natural. Mas para mim, simples artesão, talvez destinado a morrer sobre o banco de trabalho, ao qual me liguei por necessidade de ganhar o pão diário... para que instruir-me? Eu não sabia quase nada e isso já era muito, pois nada me servia em vida e devia apagar-se com a morte. Tal pensamento apresentava-se muitas vezes em meu Espírito. Eu tinha chegado a maldizer essa instrução dada gratuita ao filho do operário. Posto que muito exígua, muito incompleta, essa instrução me parecia supérflua e não só nociva à felicidade do pobre, mas incompatível com as exigências de sua condição. Em minha opinião era uma calamidade a mais para o pobre, pois lhe dava a compreender a importância do mal sem lhe indicar o remédio. É fácil explicar os sofrimentos morais de um homem, que, sentindo bater no peito um coração nobre, é obrigado a curvar. a sua inteligência à vontade de um Individuo do qual um punhado de escudos, por vezes mal adquiridos, constitui todo o mérito e todo o saber.

E então que se precisa apelar à filosofia. E olhando o topo da escada, a gente diz: o dinheiro não faz a felicidade. Depois, olhando para baixo, vêem-se criaturas numa posição inferior à sua e se acrescenta: Tenhamos paciência; há outras a lamentar mais que nós. Mas se, por vezes, essa filosofia dá resignação, jamais produz a felicidade.

Eu estava nessa situação quando o Espiritismo veio tirar-me do atoleiro de provas e de incertezas, onde me afundava cada vez mais, a despeito dos esforços para sair.

Durante dois anos ouvi falar do Espiritismo sem lhe dar atenção séria. Julgava, como diziam seus adversários, tratar-se de mais uma palhaçada. Mas, enfim, fatigado de ouvir falar de uma coisa da qual apenas sabia o nome, resolvi instruir-me. Adquiri O livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns. Li, ou melhor, devorei essas duas obras com uma avidez e uma satisfação impossível de definir. Qual não foi minha surpresa, lançando os olhos sobre as primeiras páginas, ao ver que se tratava de filosofia moral e religiosa, quando eu esperava ler um tratado de magia acompanhado de histórias maravilhosas! Logo a surpresa deu lugar à convicção e ao reconhecimento. Quando terminei a leitura, percebi com felicidade que era Espírita há muito tempo. Agradeci a Deus que me concedia este insigne favor De agora em diante poderei orar sem temer que minhas preces se percam no espaço e suportarei com alegria as tribulações desta curta existência, sabendo que a minha miséria atual não passa de justa conseqüência de um passado culposo ou um período de prova para alcançar um futuro melhor. Não mais a dúvida. A justiça e a lógica nos desvendam a verdade. E nós aclamamos com felicidade esta benfeitora humanidade.

É quase inútil dizer-vos, meu caro mestre, quanto era grande o meu desejo de ser médium. Assim, estudei com grande perseverança. Após alguns dias de observação, reconheci que era médium intuitivo. Meu desejo se realizava a meio, pois desejava muito ser médium mecânico.

A mediunidade intuitiva deixa por muito tempo a dúvida no espírito de quem a possui. Para dissipar todos os escrúpulos a respeito, tive que assistir algumas sessões de Espiritismo, a fim de poder fazer uma comparação entre a minha mediunidade e a de outros. Foi então que compreendi a justeza de vossa recomendação que prescreve ler antes de ver, se se quiser ficar convencido. Porque, posso dizer-vos francamente, nada vi de convincente para um incrédulo. Eu daria tudo para ter sido colocado pela Providência sob a direção imediata de nosso bem amado chefe, porque pensava que as provas deviam ser mais palpáveis e freqüentes na sociedade que presidis. Não obstante, não fiquei lã: convidei alguns médiuns escreventes, videntes e desenhistas a se reunirem comigo para o trabalho comum. Foi então que tive a sorte de testemunhar fatos surpreendentes e as provas mais evidentes da bondade e virtude do Espiritismo. Pela segunda vez eu estava convencido!

Junto a esta, já bem longa, algumas das minhas comunicações. Serei feliz, meu caro mestre, se vos for possível dar-lhes uma olhada e julgar de seu valor. Do ponto de vista moral eu as julgo irreprocháveis; mas do ponto de vista literário... não estando apto para julgar, abstenho-me. Se, contra minha espectativa, encontrardes alguns fragmentos capazes de serem dados à publicidade, peço-vos deles dispor à vontade; ser-me-ia uma grande felicidade o haver contribuído com uma pedrinha para a construção do edifício.

Daria um grande valor a uma resposta do vosso próprio punho, meu caro mestre, mas não ouso solicitá-lo, pois sei da impossibilidade material em que vos achais de responder a todas as cartas que vos s&o dirigidas. Termino vos rogando perdoeis esta extrema liberdade, esperando creiais na sinceridade daquele que tem a honra de se dizer um dos vossos fervorosos admiradores e vosso muito humilde servo.

MICHEL

Rue Bouteille, 25, à Lyon

A COMÉDIA HUMANA

(PARIS, GRUPO DESLIENS, 29 DE NOVEMBRO DE 1866 —

MÉDIUM, SR. DESLIENS)

A vida do Espírito encarnado é como um romance, ou antes, como uma peça de teatro, da qual cada dia se percorre uma folha contendo uma cena. O autor é o homem; os personagens são as paixões, os vícios, as virtudes, a matéria e a inteligência, disputando a posse do herói, que é o Espírito. O público é o mundo em geral durante a encarnação, os Espíritos na erraticidade, e o censor que examina a peça para a julgar em última instância e proferir uma censura ou um louvor ao autor é Deus.

Fazei de modo que sejais aplaudido o maior número de vezes possível e que só raramente cheguem aos vossos ouvidos o barulho desagradável dos assovios. Que a intriga seja sempre simples, e não busqueis interesse senão nas situações naturais, que possam servir para fazer triunfar a virtude, desenvolver a inteligência e moralizar o público.

Durante a execução da peça, a cabala posta em movimento pela inveja, pode tentar criticar as melhores passagens e só incensar as que são medíocres ou más. Fechai os ouvidos a essas adulações, e lembrai-vos que a posteridade vos apreciará no vosso justo valor! Deixareis um nome obscuro ou ilustre, manchado de vergonha ou coberto de glórias, conforme o mundo. Mas quando a peça estiver terminada e a cortina, caída sobre a última cena, vos puser em presença do regente universal, do diretor infinitamente poderoso do teatro onde se passa a comédia humana, nem haverá aduladores, nem cortesãos, nem invejosos, nem ciumentos: estareis sós com o juiz supremo, imparcial, equitável e justo.

Que a vossa obra seja séria e moralizadora, porque é a única que tenha algum peso na balança do Todo-Poderoso.

É preciso que cada um de à sociedade ao menos o que dela recebe. Aquele que, tendo recebido a assistência corporal e espiritual, que lhe permite viver, se vai sem ao menos restituir o que gastou, é um ladrão, porque malbaratou uma parte do capital inteligente e nada produziu.

Nem todo o mundo pode ser homem de gênio, mas todos podem e devem ser honestos, bons cidadãos e devolver a sociedade aquilo que a sociedade lhes emprestou.

Para que o mundo esteja em progresso, é preciso que cada um deixe uma lembrança útil de sua personalidade, uma cena a mais nesse número infinito de cenas úteis que os membros da humanidade deixaram, desde que a vossa terra serve de lugar de habitação aos Espíritos.

Fazei, pois, que leiam com interesse cada página do vosso romance, e que não o percorram apenas com o olhar, para o fechar com tédio, antes de o ter lido pela metade.


 

 
 

EUGÈNE SUE.