Resposta à Ana sobre imortalidade e reencarnação

Olá!


 

Você perguntou sobre a reencarnação e a imortalidade da alma.

Vale a pena um histórico bem resumido.

No século XIX aconteceram, em diversas partes do mundo, fenômenos estranhos batizados de "raps", nos Estados Unidos e "mesas girantes", ou "mesas falantes" na Europa.

Eram sons sem causas físicas aparentes (nos EUA) e movimentos de mesas e objetos sem causas físicas aparentes (na Europa).

Algum tempo, e muita pesquisa depois, se chegou à conclusão de que se tratava de fenômenos causados por Espíritos, ou seja, por almas dos homens e mulheres que habitaram a Terra e agora estavam mortos. Aliás, vivos... bem vivos. E eles mesmos disseram isso, através das batidas que, por convenção, representavam letras e palavras (tiptologia).

Seria a imortalidade uma novidade? Não. Todas as religiões defendem isso, e algumas filosofias também.

A questão é que Allan Kardec chega ao cenário destes fenômenos, em Paris, dando a eles tempo e cuidado científico.

Desta forma, o que antes era propriedade da Religião e da Filosofia passa ao domínio da ciência. Ciência não aceita pelo mundo acadêmico, obviamente, pois coisas ligadas à sobrevivência da alma após a morte são encaradas como superstição. Mas ciência séria e profunda: a ciência espírita.

Então podemos dizer que no século XIX, com o método criado por Allan Kardec, se comprova a imortalidade da alma.

Aí partimos pro segundo ponto da sua pergunta: a reencarnação.

A reencarnação não foi comprovada pelo Espiritismo, mas através dele se obteve essa informação por parte dos Espíritos.

Via mediunidade, os Espíritos disseram que a reencarnação é uma realidade. É através dela que vivemos diversas experiências... crescemos, acertamos, erramos...

Diante das duas possibilidades "unicidade da existência" (vivemos uma só vez) e "pluralidade das existências" (vivemos múltiplas reencarnações), Allan Kardec julga mais coerente, com o corpo de informações que estava obtendo com as experiências e com os próprios Espíritos, a segunda opção.

É claro que essa exposição breve não soluciona muitas questões.

Então as aguardo, as questões, para conversarmos mais.

Abraço!


 


 


 


 


 


 

Conceitos: Alma, Espírito, Perispírito, Homem

"14 - A união da alma, do perispírito e do corpo material constitui o homem; a alma e o perispírito separados do corpo constituem o ser chamado Espírito.

Nota - A alma é, assim, um ser simples; o Espírito um ser duplo e o homem um ser triplo. Seria, pois, mais exato reservar a palavra alma para designar o princípio inteligente, e a palavra Espírito para o ser semi-material formado desse princípio e do corpo fluídico. Mas, como não se pode conceber o princípio inteligente isolado de toda matéria, nem o perispírito sem estar animado pelo princípio inteligente, as palavras alma e Espírito são, usualmente, empregadas indiferentemente uma pela outra; é a aparência que consiste pelo todo, da mesma forma que se diz de uma vila que ela é povoada por tantas em tomar a parte almas, um povoado de tantas casas; mas, filosoficamente, é essencial diferenciá-las."


O que é o Espiritismo

RESUMO DA LEI DOS FENÔMENOS ESPÍRITAS

Dos Espíritos


 

1. O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, compreende todas as conseqüências morais que decorrem dessas relações.

2. Os Espíritos não são, como freqüentemente se imagina, seres à parte na criação; são as almas daqueles que viveram sobre a Terra ou em outros mundos. As almas ou Espíritos são, pois, uma única e mesma coisa; de onde se segue que quem crê na existência da alma crê, por isso mesmo, na dos Espíritos. Negar os Espíritos seria negar a alma.

3. Geralmente, se faz uma idéia muito falsa do estado dos Espíritos; eles não são, como alguns o crêem, seres vagos e indefinidos, nem chamas como os fogos fátuos, nem fantasmas como nos contos de assombração. São seres semelhantes a nós, tendo um corpo igual ao nosso, mas fluídico e invisível no estado normal.

4. Quando a alma está unida ao corpo, durante a vida, ela tem duplo envoltório: um pesado, grosseiro e destrutível, que é o corpo; outro fluídico, leve e indestrutível, chamado perispírito. O perispírito é o laço que une a alma e o corpo; é por seu intermédio que a alma faz o corpo agir, e percebe as sensações experimentadas pelo corpo. A união da alma, do perispírito e do corpo material constitui o homem; a alma e o perispírito separados do corpo constituem o ser chamado Espírito.

5. A morte é a destruição do envoltório corporal; a alma abandona esse envoltório como troca a roupa usada, ou como a borboleta deixa sua crisálida; mas conserva seu corpo fluídico ou perispírito. A morte do corpo livra o Espírito do envoltório que o prendia à Terra e o fazia sofrer; uma vez livre desse fardo, não tem senão seu corpo etéreo que lhe permite percorrer o espaço e vencer as distâncias com a rapidez do pensamento.

6. Os Espíritos povoam o espaço; eles constituem o mundo invisível que nos rodeia, no meio do qual vivemos, e com o qual estamos, sem cessar, em contato.

7. Os Espíritos têm todas as percepções que tinham na Terra, mas num mais alto grau, porque suas faculdades não estão mais amortecidas pela matéria; têm sensações que nos são desconhecidas; vêem e ouvem coisas que nossos sentidos limitados não nos permitem nem ver e nem ouvir. Para eles não há obscuridade, salvo para aqueles cuja punição é estar temporariamente nas trevas. Todos os nossos pensamentos repercutem neles, que os lêem como em um livro aberto; de sorte que aquilo que podemos ocultar a alguém vivo, não poderemos mais desde que seja um Espírito.

8. Os Espíritos conservam as afeições sérias que tiveram na Terra; eles se comprazem em voltar para junto daqueles que amaram, sobretudo, quando são atraídos por pensamentos e sentimentos afetuosos que lhes dirigem, ao passo que são indiferentes para com aqueles que não lhes têm senão a indiferença.

9. Uma idéia quase geral entre as pessoas que não conhecem o Espiritismo é crer que os Espíritos, somente porque estão livres da matéria, tudo devem saber e possuírem a soberana sabedoria. Aí está um erro grave.

Os Espíritos, não sendo senão as almas dos homens, não adquirem a perfeição deixando seu envoltório terrestre. O progresso do Espírito não se realiza senão com o tempo, e não é senão sucessivamente que ele se despoja de suas imperfeições, que adquire os conhecimentos que lhe faltam. Seria tão ilógico admitir que o Espírito de um selvagem

ou de um criminoso se torne, de repente, sábio e virtuoso, quanto seria contrário à justiça de Deus pensar que ele permanecesse perpetuamente na inferioridade.


 

Como há homens de todos os graus de saber e de ignorância, de bondade e de maldade, ocorre o mesmo com os Espíritos. Há os que são apenas levianos e traquinas, outros são mentirosos, trapaceiros, hipócritas, maus, vingativos; outros, ao contrário, possuem as mais sublimes virtudes e o saber num grau desconhecido na Terra. Essa diversidade

na qualidade dos Espíritos é um dos pontos mais importantes a se considerar, porque explica a natureza boa ou má das comunicações que se recebem; é em distingui-las que é preciso, sobretudo, se aplicar.

(O Livros dos Espíritos, nº 100, Escala Espírita. - O Livro dos Médiuns, cap. XXIV.)


 

"...somente a fé que se baseia na verdade garante o futuro, porque nada tem a temer do progresso das luzes, dado que o que é verdadeiro na obscuridade, também o é à luz meridiana. Cada religião pretende ter a posse exclusiva da verdade; preconizar alguém a fé cega sobre um ponto de crença é confessar-se impotente para demonstrar que está com a razão."
Allan Kardec

BEM-AVENTURADOS OS QUE TEM OS OLHOS FECHADOS

Revista Espírita 07/1863

(SOCIEDADE ESPÍRITA DE PARIS, 19 DE JUNHO DE 1863. MÉDIUM: SR. VÉZY)

NOTA:    Esta comunicação foi dada a propósito de uma senhora cega, presente à sessão.

Meus amigos, não venho muito ao vosso meio; mas hoje eis-me aqui. Por isso dou graças a Deus e aos bons Espíritos que vos vêm ajudar a marchar pelo novo caminho. Porque me chamastes? Para impor as mãos sobre a pobre sofredora que aqui está e a curar? E que sofrimento, meu Deus! Ela perdeu a visão e as trevas se fizeram para ela!... Pobre filha! que ore e espere! não sei fazer milagres sem a vontade do bom Deus. Todas as curas que pude obter, e que vos foram relatadas, só as atribuais àquele que é pai de todos. Nas vossas aflições olhai sempre para o céu e dizei do fundo do coração:

"Meu pai, curai-me, mas fazei que minh'alma seja curada antes das enfermidades do corpo. Que minha carne seja castigada, se preciso, para que minh'alma se eleve para vós com a alvura que tinha quando a criastes!" Depois desta prece, meus boníssimos amigos, que o bom Deus ouvirá sempre, a força e a coragem vos serão dadas e, talvez, também esta cura, que pedistes timidamente, em recompensa de vossa abnegação carnal.

Mas, já que aqui estou, numa assembléia onde se trata, antes de tudo, de estudar, dir-vos-ei que os privados da visão deveriam considerar-se como bem-aventurados da expiação. Lembrai-vos que o Cristo disse ser preciso arrancar o vosso Olho, se fosse mau e que mais valia lançá-lo ao fogo do que ser causa de vossa danação. Então! quantos há em vossa terra que, um dia, nas trevas, maldirão terem visto a luz! Oh! sim: como são felizes os que são feridos na expiação pela visão! Seu Olho não lhes será motivo de escândalo e de queda; podem viver inteiramente a vida da alma; podem ver mais que vós que vedes claro... Quando Deus me permite ir abrir as pálpebras de alguns desses pobres sofredores e lhes dar a vossa luz, eu me digo: "Querida mãe, por que não conheces todas as delícias do Espírito que vive de contemplação e de amor? ela não pediria para ver imagens menos puras e menos suaves que as que lhe é dado ver em sua cegueira."

Oh! sim, bem-aventurado o cego que quer viver com Deus! mais feliz que vós que aqui estais, ele sente a felicidade e a toca; ele vê as almas e com elas pode 'lançar-se nas esferas espíritas, que nem os predestinados de vossa terra podem ver.

O Olho aberto está sempre pronto a fazer a alma falir; o olho fechado, ao contrário, está sempre pronto a fazê-la subir para Deus. Crede-me, meus bons e caros amigos, a cegueira dos olhos é, muitas vezes, a verdadeira luz do coração, ao passo que a visão é, por vezes, o anjo tenebroso, que conduz à morte.

E agora, algumas palavras a ti, minha pobre sofredora. Espera e coragem! Se eu te dissesse: "Minha filha, teus olhos se vão abrir", como ficarias contente! E quem sabe se esta alegria não te perderia? Tem confiança no bom Deus, que fez a felicidade e permite a tristeza. Farei tudo quanto me for permitido por ti; mas, por tua vez, ora e, sobretudo, pensa em tudo quanto acabo de dizer.

Antes de me afastar, vós que aqui estais, recebei minha bênção, meus bons amigos: eu a dou a todos, aos loucos, aos sábios, aos crentes e aos infiéis desta assembléia; e que ela sirva a cada um de vós,

VIANNEY, cura d'Ars.

OBSERVAÇÃO:    Perguntamos se esta é a linguagem do demônio e se se ofende ao cura d'Ars atribuindo-lhe tais pensamentos. Uma camponesa sem instrução, sonâmbula natural, que vê os Espíritos muito bem, tinha vindo à sessão e estava em sonambulismo. Não conhecia o cura d'Ars, nem mesmo de nome e, entretanto, o viu ao lado do médium e lhe fez o retrato perfeitamente exato.

A HIPOCRISIA

(MÉDIUM, SR. DIDIER FILHO)


Revista Espírita. Dezembro de 1860


Deveria haver na Terra dois campos bem distintos: o dos homens que fazem o bem abertamente e o dos que fazem o mal abertamente. Mas, não! O homem não é franco no tocante ao mal: afeta virtude. Hipocrisia! Hipocrisia! deusa poderosa, quantos tiranos criaste! quantos ídolos fizeste adorar! O coração do homem é realmente muito estranho, pois pode bater quando está morto, pois pode, em aparência, amar a honra, a virtude, a verdade, a caridade! Diariamente o homem se prostra ante estas virtudes e falta à sua palavra, desprezando o pobre e o Cristo. Diariamente é um tartufo e mente. Quantos homens parecem honestos porque a aparência muitas vezes engana! Cristo os chamava sepulcros caiados, isto é, a podridão interna, o mármore por fora, brilhando ao sol. Homem, na verdade pareces essa morada da morte; e, enquanto teu coração estiver morto, Jesus não te inspirará, Jesus, esta luz divina que não clareia o exterior, mas ilumina interiormente.


A hipocrisia — entendei bem — é o vicio da vossa época. E quereis fazer-vos grandes pela hipocrisia! Em nome da liberdade, vos engrandeceis; em nome da moral, vos embruteceis; em nome da verdade, mentis.


LAMENNAIS

sobre o aborto

A educação de um Espírito

Revista Espírita 12/1860

1.— Para que sejas mau assim, é preciso que sofras?

— Sim, sofro. E é isto que me faz ser mau.

2. — Jamais sentes remorso do mal que fazes ou procuras fazer?

— Não; jamais tenho remorso, e gozo o mal que faço, porque não posso ver os outros felizes sem sofrer.

3. — Não admites, então, que se possa ser feliz com a felicidade alheia, em vez de encontrar felicidade em sua desgraça? Jamais fizeste tais reflexões?

— Jamais as fiz, e acho que tens razão; mas não posso me... não posso fazer o bem; eu sou...

 

OBSERVAÇÃO: Essas reticências substituem as garatujas feitas pelo Espírito, quando não quer ou não pode escrever uma palavra.

 

4 — Mas, enfim, não queres escutar-me e experimentar os conselhos que poderia dar-te?

— Não sei, porque tudo quanto me dizes me faz sofrer ainda mais, e não tenho coragem de fazer o bem.

5. — Ora! prometes-me ao menos tentar?

— Oh! não; não posso, porque não cumpriria a promessa e por isso seria punido. Ainda é preciso pedires a Deus que me mude o coração.

6. — Então, oremos juntos. Pede comigo que Deus te melhore.

— Digo-te que não posso; sou muito mau e agrada-me fazer o mal.

7. — Mas, realmente, querias fazê-lo a mim? Eu não considero como mal real as tuas mistificações que, por certo, até aqui nos têm sido mais úteis que prejudiciais, pois serviram para a nossa instrução. Assim, como vês, perdes o tempo.

— Sim, eu fiz tanto quanto posso; e se não fiz mais foi por não poder.

8. — Que é o que to impede?

— O teu bom anjo da guarda e tua Maria, sem o que verias do que sou capaz.

 

OBSERVAÇÃO: Maria é o nome de uma jovem que evocam em vão, e que não se pode manifestar por causa desse Espírito. Vê-se, porém, pela resposta mesma do Espírito, que se ela não pode manifestar-se materialmente, não deixa de lá estar, como o anjo da guarda, velando por eles. O fato levanta um sério problema, o de saber como um mau Espírito pode impedir as comunicações de um bom. Ele só impede as comunicações materiais, mas não as espirituais. Não é o mau Espírito mais poderoso que o bom; é o médium que não é bastante forte para vencer a obstinação do mau, e que deve esforçar-se por vencê-lo pelo ascendente do bem, me lhorando-se mais e mais. Deus permite essas provas em nosso interesse.

 

9. — Então que me farias?

— Eu te faria mil coisas, umas mais desagradáveis que outras; eu te faria...

10. — Vejamos, pobre Espírito; jamais tens um gesto generoso? Jamais tens um só desejo de fazer algum bem, ainda que fosse um vago desejo?

— Sim, um desejo vago de fazer o mal; não posso ter outro. E preciso que ores a Deus, para que eu seja tocado. Do contrário, continuarei mau. E certo.

11. — Então crês em Deus?

— Não posso deixar de crer, já que me faz sofrer.

12. — Então! já que acreditas em Deus, deves ter confiança em sua perfeição e em sua bondade. Deves compreender que ele não fez suas criaturas para votá-las à desgraça; que se são infelizes, é por sua própria culpa e não pela dele; mas que elas sempre têm meios de melhorar e, conseqüentemente, chegar à felicidade; que Deus não fez suas criaturas inteligentes sem objetivo e que esse objetivo é fazer que todas concorram para a harmonia universal: a caridade, o amor do próximo; que a criatura que se afasta de tal objetivo perturba a harmonia e ela própria é a primeira vitima a sofrer os efeitos dessa perturbação que causa. Olha em torno de ti e acima de ti: não vês Espíritos felizes? Não tens o desejo de ser como eles, já que dizes que sofres? Deus não os criou mais perfeitos do que tu; como tu, talvez tenham sofrido, mas se arrependeram e Deus lhes perdoou; tu podes fazer como eles.

— Começo a ver e a compreender que Deus é justo; eu ainda não tinha visto. Es tu que me vens abrir os olhos.

13. — Então! já não sentes o desejo de melhorar?

— Ainda não.

14. — Espera, que Ele virá. Eu o espero. Disseste à minha mulher que ela te torturava, enquanto te invocava. Crês que procuremos torturar-te?

— Não; bem vejo que não, Mas não é menos verdade que sofro mais que nunca e vós sois a causa disto.

 

OBSERVAÇÃO: Interrogado quanto à causa de tal sofrimento, um Espírito superior respondeu: A causa está no combate que Ele trava consigo mesmo; malgrado seu, sente algo que o arrasta para um melhor caminho, mas resiste; é essa luta que o faz sofrer. — Quem vencerá nele: o bem ou o mal? — O bem; mas a luta será longa e difícil. É preciso ter muita perseverança e devotamento.

 

15. — Que poderemos fazer para que não sofras mais?

—E preciso que ores a Deus para que me perd... (ele risca as duas últimas palavras) que tenha piedade de mim.

16.— Então! ora conosco.

— Não posso.

17. — Disseste que tens de crer em Deus, pois que ele te faz sofrer. Mas como sabes que é Deus quem te faz sofrer?

—           Ele me faz sofrer porque sou mau.

18. — Se é verdade que julgas ser Deus quem te faz sofrer, deves reconhecer nisso o motivo e não podes imaginar que Deus seja injusto?

— Sim, creio na justiça de Deus.

19. — Disseste que nós te abrimos os olhos. Verdade ou não, o certo é que não podes dissimular a verdade do que te dizemos. Ora, quer tais verdades te sejam conhecidas antes de nós, ou por nós, o essencial é que as conheças. Hoje, o grande negócio para ti é tirar partido delas. Dize, pois, francamente, se a satisfação que experimentas em fazer o mal não te deixa nada a desejar.

— Desejo que meus sofrimentos acabem; eis tudo. E eles não acabarão nunca.

20. — Compreendes que depende de ti que eles acabem?

—Compreendo.

21. — Em tua última existência corpórea te entregaste sem reservas às más inclinações, como parece que fazes agora?

— Convém saberes que sou mais imundo que uma fera, sou um miserável que fez tudo até...

22. — Eu e minha mulher te fizemos algum mal? Tiveste que te lamentar de nós numa outra existência?

— Não; eu não...

23. — Então, dize por que encontras mais prazer em te encar niçares contra gente inofensiva como nós, que te queremos bem, em vez de contra gente má, que talvez seja, ou tenha sido tua inimiga? — Ele não me causam inveja.

 

OBSERVAÇÃO: Esta resposta é característica: pinta o ódio do mau contra os homens que sabe serem melhores que ele. É a inveja que cega e por vezes impele a atos mais contrários aos seus interesses. Há-os também aqui na Terra, onde muitas vezes os maiores erros de um homem, aos olhos de certas pessoas, têm o seu mérito. Aristides é um exemplo.

24. — Eras mais feliz na Terra, do que agora?

— Oh! sim. Eu era rico e de nada me privava. Cometi baixezas de toda sorte e fiz todo o mal que se pode, quando se tem dinheiro e miseráveis à disposição.

25. — Por que me pedias outro dia que te deixasse tranqüilo?

— Porque não queria responder às perguntas que me dirigias. Mas estou à vontade por me evocares e queria sempre escrever, porque o tédio me mata. Oh! não sabes o que é estar continuamente em presença das faltas e dos crimes, como estou!

26. — Que impressão experimentas à vista de uma ação generosa?

— Experimento despeito. Gostaria de aniquilá-la.

27. — Durante tua última existência corpórea jamais fizeste uma boa ação, fosse qual fosse o móvel?

— Fi-la por ambição e orgulho; jamais por bondade. Por isso, não me foi levada em conta.

FENÔMENO DE LINGÜÍSTICA

O    Quatterly journal of Psychological Medícine publica um relatório muito curioso sobre uma menina que substituiu a língua falada em seu redor por uma série de nomes e verbos, formando todo um idioma, do qual se serve e não se pode desabituar.

"A criança tem agora quase cinco anos. Até a idade de três anos ficou sem falar e não sabia pronunciar senão as palavras "papa" e "maman." Quando se aproximou dos quatro anos, a língua se desatou de repente, e hoje fala com toda a facilidade e a volubilidade de sua idade. Mas de tudo quanto diz, só as duas palavras "papa" e "maman", que aprendeu a princípio, foram tiradas da língua inglesa. Todas as outras nasceram de seu cérebro e em seus labiosinhos, e não tem mesmo nenhuma relação com essa corruptela de palavras de que se servem as crianças que com ela brincam habitualmente.

"Em seu dicionário, Gaan significa Deus; migno-migno, água; odo, mandar ou retirar, conforme é colocada; gar, cavalo.

"Um dia, diz o Dr. Hun, começou a chover. Fizeram a menina entrar e lhe proibiram de sair antes que a chuva cessasse. Ela postou-se à janela e disse:

"– Gaan odo migno-migno, feu odo. (Deus retire a chuva; traga o fogo do sol).

"A palavra feu aplicada no mesmo sentido que na língua a que pertenço me chocou. Soube que a criança jamais tinha ouvido falar francês, coisa muito singular, e que seria interessante constatar bem, porque a criança havia tomado diversas palavras à língua francesa, tais como "fout", "moi", e a negação "nepos."

"A menina tem um irmão mais velho cerca de dezoito meses. Ela lhe ensinou a sua língua, sem tomar nenhuma das palavras de que se serve ele.

"Seus pais estão muito desolados com esse pequeno fenômeno. Muitas vezes tentaram ensinar-lhe inglês, dar-lhe o nome inglês das coisas que ela designa de outro modo em seu idioma. A isso recusou-se terminantemente. Tentaram afastá-la das crianças de sua idade e de a pôr em contato com gente idosa, falando inglês e nada conhecendo do seu patuá. Era de esperar que uma criança que se mostrava tão ávida por comunicar seus pensamentos quanto por inventar uma língua nova, procurasse aprender o inglês quando se achasse entre pessoas que falassem esta língua. Mas não deu resultado.

"Logo que se acha com pessoas que não têm o hábito de ver, põe-se a lhes ensinar a sua língua e, ao menos momentaneamente, os pais renunciaram a desabituá-la."

Tendo sido o fato discutido na Sociedade Espírita de Paris, um Espírito deu a sua explicação na comunicação seguinte:


 

(SOCIEDADE DE PARIS, 9 DE OUTUBRO DE 1868 - MÉDIUM: SR. NIVARD)

O fenômeno da pequena inglesa, falando uma língua desconhecida para os que a rodeiam e se recusando a servir-se da deles, é o fato mais extraordinário que se produziu desde muitos séculos.


 

Fatos surpreendentes ocorreram em todos os tempos, em todas as épocas, que causaram admiração aos homens, mas tinham similares ou parecidos. Isto certamente não os explicava, mas eram vistos com menos surpresa. Este de que se trata é, talvez, único no seu gênero. A explicação que se pode dar nem é mais fácil, nem mais difícil que as outras, mas sua singularidade é chocante: eis o essencial.

Eu disse chocante: é bem, não a causa, mas a razão do fenômeno. Ele choca de espanto: por isto se produziu. Hoje que o progresso faz um certo caminho, não se contentarão em falar o fato, como se fala da chuva e do bom tempo; querem procurar-lhe a causa. Os médicos nada têm a, ver com isto; a fisiologia é estranha a essa singularidade; se a menina fosse muda, ou não pudesse senão dificilmente articular algumas palavras, que não seriam compreendidas devido à insuficiência de seus órgãos vocais, os cientistas diriam que isto se deve às mas disposições fisiológicas e que fazendo desaparecerem essas más disposições, deixariam à criança o livre uso da palavra. Mas tal não é o caso. Ao contrário, a menina é loquaz, tagarela; fala facilmente, chama as coisas à sua maneira, exprime-as à maneira que lhe convém e vai mais longe: ensina sua língua às suas camaradas, quando está provado que não lhe podem ensinar a língua materna e que não quer mesmo sujeitar-se.

A psicologia é, pois, a única ciência na qual se deve buscar a explicação deste fato. A razão, o fim especial, acabo de dizer: era preciso chocar os espíritos e solicitar as suas pesquisas. Quanto à causa, vou tentar vo-la dizer.

O Espírito encarnado no corpo dessa menina conheceu a língua, ou antes, as línguas que fala, pois faz uma mistura. Não obstante a mistura é feita conscientemente e constitui uma língua, cujas diversas expressões são tomadas das que esse Espírito conheceu em outras encarnações, Em sua última existência ele tinha tido a idéia de criar uma língua universal, a fim de permitir aos homens de todas as nações entender-se e assim aumentar a facilidade das relações e o progresso humano. Para esse efeito ele tinha começado a compor essa língua, que constituía de fragmentos de várias que conhecia e mais gostava. A língua inglesa lhe era desconhecida; tinha ouvido ingleses falar, mas achava sua língua desagradável e a detestava. Uma vez na erraticidade, o objetivo que se tinha proposto em vida aí continou; pôs-se à tarefa e compôs um vocabulário que lhe é particular. Encarnou-se entre os ingleses, com o desprezo que tinha por sua língua, e com a determinação bem firme de não a falar. Tomou posse de um corpo, cujo organismo flexível lhe permite manter a palavra. Os laços que o prendem a esse corpo são bastante elásticos, para o manter num estado de semi-desprendimento, que lhe deixa a lembrança bastante distinta de seu passado, e o mantém em sua resolução. Por outro lado, é ajudado por seu guia espiritual, que vela para que o fenômeno tenha lugar com regularidade e perseverança, a fim de chamar a atenção dos homens. Aliás, o Espírito encarnado estava consentindo na produção do fato. Ao mesmo tempo que demonstra o desprezo pela língua inglesa, cumpre a missão de provocar as pesquisas psicológicas.

  1. NIVARD, Pai

OBSERVAÇÃO: Se a explicação não pode ser demonstrada, ao menos tem por si a racionalidade e a probabilidade. Um inglês que não admite o princípio da pluralidade das existências e que não tinha conhecimento da comunicação acima, arrastado pela lógica irresistível, disse, falando desse caso, que ele não se poderia explicar senão pela reencarnação, se fosse certo a gente poder reviver na Terra.

Eis, pois, um fenômeno que, por sua mesma estranheza, cativando a atenção, provoca a idéia da reencarnação, como a única razão plausível que se lhe possa dar. Antes que este princípio estivesse na ordem do dia, ter-se-ia simplesmente achado o caso bizarro e, sem dúvida, em tempos ainda mais remotos, teriam olhado essa menina como enfeitiçada. Nós nem mesmo diríamos que hoje não fosse esta a opinião de certas pessoas. O que não e menos digno de nota é que este fato se produz precisamente num país ainda refratário à idéia da reencarnação, mas à qual será arrastado pela força das coisas.

RESULTADO DA LEITURA DAS OBRAS ESPÍRITAS

CARTAS DOS SRS. MICHEL, DE LYON E D..., D'ALBI

Como resposta à opinião do Dr. Constant relativa ao efeito produzido pela leitura das obras espíritas, publicamos a seguir duas cartas, entre mimares da mesma natureza, que nos são enviadas. Como vimos no artigo precedente, sua opinião é que esse efeito deve ser inevitavelmente de fazer pronta Justiça da pretensa ciência espírita, e é a esse titulo que lhe recomenda a leitura. Ora, há mais de seis anos que
lêem essas obras e, lamentável para a sua perspicácia, a justiça ainda não foi feliz!

ALBI, 6 DE MARÇO DE 1863

Sr. Allan Kardec,

... Sei que não devo abusar do vosso tempo precioso. Também me privo da felicidade do entreter-me longamente Convosco. Direi que lamento amargamente não ter conhecido mais cedo vossa admirável doutrina, pois sinto que teria sido um outro homem; contudo, não sou médium, nem procuro sê-lo, pois tenho graves aborrecimentos que me obsidiam. Tenho uma deplorável desconfiança; cheguei aos quarenta e nove anos sem saber uma prece. Depois que vos li, oro sempre à noite, às vezes pela manhã e, sobretudo, pelos inimigos. Vossa doutrina me salvou de muitas coisas e me faz suportar os revezes com resignação.

Quanto seria reconhecido, caro senhor, se orásseis algumas vezes por mim!

Recebei, etc.

D...

LYON, 9 MARCO DE 1863

Meu caro mestre,

Devo começar pedindo um duplo perdão, primeiro, por haver retardado muito o cumprimento de um dever desta natureza; segundo, pela liberdade que tomo, sem ter a honra de ser conhecido, de tratar de coisas que me são, de certo modo, inteiramente pessoais.

Esta consideração me obriga a ser tão breve quanto possível, para não abusar de vossa bondade, nem vos fazer perder comigo um tempo que podereis empregar utilmente no bem geral.

Há seis meses que tenho a felicidade de ser iniciado na doutrina espírita; senti nascer em mim um vivo sentimento de reconhecimento. Aliás, tal sentimento não passa de conseqüência muito natural da crença no Espiritismo. E, desde que tem sua razão de ser, deve igualmente manifestar-se. Em minha opinião, deve dividir-se em três partes, da qual a primeira a Deus, a quem diariamente cada Espírita deve agradecer esta nova prova de sua Infinita misericórdia; a segunda pertence de direito ao próprio Espiritismo, isto é, aos bons Espíritos e seus sublimes ensinamentos; enfim a terceira àquele que nos guia em nossa nova estrada e que nos sentimos felizes ao reconhecê-lo como nosso mestre venerado.

Assim compreendido o reconhecimento espírita, três deveres distintos se impõem: para com Deus, para com os bons Espíritos e para com o propagador de seus ensinamentos. Tenho esperança de me desobrigar para com Deus, pedindo-lhe perdão de meus erros passados e continuando a orar diariamente; tentarei pagar minha divida ao Espiritismo, espalhando em meu redor, tanto quanto esteja em minha pouca força, os benefícios da instrução espírita. E o fim desta .carta é vos testemunhar, senhor, o vivo desejo que sentia de me desobrigar para convosco, o que me acuso de fazer tardiamente. Apelo, pois, à vossa caridade e vos peço aceiteis esta sincera homenagem de um reconhecimento sem limites.

Associando-me de coração aos que me precederam, venho dizer-vos: Obrigado a vós que me haveis tirado do erro, fazendo radiar sobre nós o facho da verdade; obrigado a vós que destes a conhecer os meios de chegar à. verdadeira felicidade pela prática do bem; obrigado a vós que não temestes ser dos primeiros a entrar na luta.

O surgimento do Espiritismo no século dezenove, numa época em que o egoísmo e o materialismo parecem dividir o domínio do mundo, é um fato muito importante e muito extraordinário para não provocar a admiração e o espanto das pessoas sérias e dos Espíritos observadores. Tal fato é completamente inexplicável para os que recusam reconhecer a intervenção divina na marcha dos grandes acontecimentos que se realizam entre nós e, muitas vezes, mau grado nosso.

Mas um fato não menos surpreendente é que se tenha encontrado nesta mesma época de incredulidade um homem bastante crente, bastante corajoso, para sair da multidão, abandonar a corrente e anunciar uma doutrina que devia pô-lo em desacordo com o maior número pois seu objetivo é combater e derrubar os preconceitos, os abusos e os erros da massa, e, enfim, pregar a fé aos materialistas, a caridade aos egoístas, a moderação aos fanáticos, a verdade a todos.

Este fato está hoje realizado. Assim, não era impossível. Mas para realizá-lo era necessária uma coragem que só a fé pode dar. Eis o que causa a nossa admiração.

Semelhante devotamento, meu caro mestre, não podia ficar infrutífero. Assim, desde já, podeis começar a receber a recompensa de vosso labor, contemplando o triunfo da doutrina que ensinastes.

Sem vos preocupar com o número e a força dos vossos adversários, descestes só, à arena e vos opusestes às facécias injuriosas com uma serenidade Inalterável; aos ataques e calúnias, com a moderação; assim, em pouco tempo o Espiritismo propagou-Se por todas as partes do mundo; hoje seus adeptos se contam aos milhões e, o que é mais satisfatório, se recrutam em todos os graus da escala social. Ricos e pobres, ignorantes e letrados, livres pensadores e puritanos, todos responderam ao apelo do Espiritismo e cada classe empenhou-se em fornecer seu contingente nesta grande cruzada da inteligência... Luta sublimei onde o vencido tem orgulho de proclamar sua derrota e, mais orgulhoso ainda, de combater sob a bandeira dos vencedores.

Esta vitória não só honra aquele que a conquista, mas atesta a justeza da causa, isto é, a superioridade da doutrina espírita sobre todas as que A\ precederam e, consequentemente, sua origem divina. Para o adepto fervoroso o fato não pode ser posto em dúvida e o Espiritismo não pode ser obra de alguns cérebros dementes, como seus detratores tentaram demonstrar. É impossível que o Espiritismo seja uma obra humana. Deve ser e é, com efeito, uma revelação divina. Se assim não fosse, já teria sucumbido e seria impotente perante a indiferença e o materialismo.

Toda ciência humana é sistemática em sua essência e, por Isso mesmo, sujeita a erro. Eis por que não pode ser admitida senão por um pequeno número de indivíduos que, por ignorância ou por cálculo, lhes propagam as crenças errôneas, que caem por si, depois de algum tempo de prova, o tempo e a razão sempre têm feito justiça às doutrinas abusivas e despidas de fundamento. Nenhuma ciência, nenhuma doutrina pode pretender estabilidade se não possuir, no seu conjunto, como nos menores detalhes, essa emanação pura e divina que chamamos verdade. Porque só a verdade é Imutável como o Criador, que é a sua fonte.

Disto encontramos um exemplo muito consolador nas divinas palavras do Cristo, que o santo Evangelho, a despeito de sua longa e aventurosa peregrinação, nos transmitiu tão suaves, tão puras quanto ao caírem da boca do divino Renovador.

Depois de dezoito séculos de existência, a doutrina do Cristo nos parece tão luminosa quanto no momento de seu nascimento. Mau grado as falsas interpretações de uns, as perseguições de outros; posto que pouco praticada em nossos dias, nem por isso ficou menos enraizada na lembrança dos homens. Â doutrina do Cristo é pois, uma base indestrutível, contra a qual se vêm quebrar incessantemente as paixões humanas. Com a vaga impotente se arrebenta contra o rochedo, as' tempestades do erro se esgotam em vãos esforços contra o farol da verdade. Sendo o Espiritismo a confirmação e o complemento dessa doutrina, pois tem Deus como principio e a verdade como base.

Assim como nos sentimos felizes predizendo seu longo destino, entrevemos com felicidade o momento em que será crença universal. Esse momento não estará muito distante, porque os homens não tardarão a compreender que aqui em baixo não há felicidade possível sem fraternidade. Compreenderão, também, que a palavra virtude não deve apenas errar sobre os lábios, mas gravar-se profundamente nos corações. Compreenderão, enfim, que aquele que toma a tarefa de pregar a moral deve, antes de tudo e sobretudo, pregá-la pelo exemplo.

Paro, meu caro mestre, pois a grandeza do assunto arrasta-me para alturas onde não me posso manter. Mãos mais hábeis que as minhas já pintaram com vivas cores o quadro tocante, que em vão minha pena ignorante tenta esboçar. Peço-vos me perdoeis de vos haver distraído tanto tempo com meus próprios sentimentos. Mas eu sentia um desejo invencível de me expandir no seio daquele que havia dado calma a minh'alma, substituindo a dúvida que a torturava há quinze anos por uma consoladora certeza!

Eu fui, sucessivamente, católico fervoroso, fatalista, materialista, filósofo resignado. Mas dou graças a Deus por não ter sido ateu. Eu praguejava contra a Providência, sem contudo negar a Deus.

Para mim, de há muito, as chamas do inferno estavam extintas; mas, contudo, meu Espírito não estava tranqüilo quanto ao futuro. Os prazeres celestes preconizados pela Igreja não tinham atrativos suficientes para exortarem à virtude, entretanto, raramente a consciência aprovava a minha conduta. Estava em continua dúvida. Apropriando-me do pensamento de um filósofo de que "a consciência foi dada ao homem para o vexar", eu tinha chegado à conclusão de que o homem deve evitar tudo quanto o possa embrulhar com a consciência. Assim, teria evitado cometer uma grande falta porque minha consciência a isso se opunha; teria praticado algumas boas obras para experimentar a satisfação que elas provocavam. Mas nada via além. A natureza me havia tirado do nada; a morte devia levar-me ao nada. este pensamento por vezes me mergulhava numa profunda tristeza. Mas, por mais que consultasse, que buscasse, nada me dava a palavra do enigma. As disposições sociais me chocavam; muitas vezes indagava por que havia nascido no sopé da escada, onde me achava tão mal colocado. Não podendo dar a resposta, dizia: o acaso!

Uma consideração de outro gênero me fazia sentir horror do nada! De que valia instruir-se? Para brilhar num salão?... é preciso fortuna. Para se tornar um poeta, um grande escritor?... é preciso um talento natural. Mas para mim, simples artesão, talvez destinado a morrer sobre o banco de trabalho, ao qual me liguei por necessidade de ganhar o pão diário... para que instruir-me? Eu não sabia quase nada e isso já era muito, pois nada me servia em vida e devia apagar-se com a morte. Tal pensamento apresentava-se muitas vezes em meu Espírito. Eu tinha chegado a maldizer essa instrução dada gratuita ao filho do operário. Posto que muito exígua, muito incompleta, essa instrução me parecia supérflua e não só nociva à felicidade do pobre, mas incompatível com as exigências de sua condição. Em minha opinião era uma calamidade a mais para o pobre, pois lhe dava a compreender a importância do mal sem lhe indicar o remédio. É fácil explicar os sofrimentos morais de um homem, que, sentindo bater no peito um coração nobre, é obrigado a curvar. a sua inteligência à vontade de um Individuo do qual um punhado de escudos, por vezes mal adquiridos, constitui todo o mérito e todo o saber.

E então que se precisa apelar à filosofia. E olhando o topo da escada, a gente diz: o dinheiro não faz a felicidade. Depois, olhando para baixo, vêem-se criaturas numa posição inferior à sua e se acrescenta: Tenhamos paciência; há outras a lamentar mais que nós. Mas se, por vezes, essa filosofia dá resignação, jamais produz a felicidade.

Eu estava nessa situação quando o Espiritismo veio tirar-me do atoleiro de provas e de incertezas, onde me afundava cada vez mais, a despeito dos esforços para sair.

Durante dois anos ouvi falar do Espiritismo sem lhe dar atenção séria. Julgava, como diziam seus adversários, tratar-se de mais uma palhaçada. Mas, enfim, fatigado de ouvir falar de uma coisa da qual apenas sabia o nome, resolvi instruir-me. Adquiri O livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns. Li, ou melhor, devorei essas duas obras com uma avidez e uma satisfação impossível de definir. Qual não foi minha surpresa, lançando os olhos sobre as primeiras páginas, ao ver que se tratava de filosofia moral e religiosa, quando eu esperava ler um tratado de magia acompanhado de histórias maravilhosas! Logo a surpresa deu lugar à convicção e ao reconhecimento. Quando terminei a leitura, percebi com felicidade que era Espírita há muito tempo. Agradeci a Deus que me concedia este insigne favor De agora em diante poderei orar sem temer que minhas preces se percam no espaço e suportarei com alegria as tribulações desta curta existência, sabendo que a minha miséria atual não passa de justa conseqüência de um passado culposo ou um período de prova para alcançar um futuro melhor. Não mais a dúvida. A justiça e a lógica nos desvendam a verdade. E nós aclamamos com felicidade esta benfeitora humanidade.

É quase inútil dizer-vos, meu caro mestre, quanto era grande o meu desejo de ser médium. Assim, estudei com grande perseverança. Após alguns dias de observação, reconheci que era médium intuitivo. Meu desejo se realizava a meio, pois desejava muito ser médium mecânico.

A mediunidade intuitiva deixa por muito tempo a dúvida no espírito de quem a possui. Para dissipar todos os escrúpulos a respeito, tive que assistir algumas sessões de Espiritismo, a fim de poder fazer uma comparação entre a minha mediunidade e a de outros. Foi então que compreendi a justeza de vossa recomendação que prescreve ler antes de ver, se se quiser ficar convencido. Porque, posso dizer-vos francamente, nada vi de convincente para um incrédulo. Eu daria tudo para ter sido colocado pela Providência sob a direção imediata de nosso bem amado chefe, porque pensava que as provas deviam ser mais palpáveis e freqüentes na sociedade que presidis. Não obstante, não fiquei lã: convidei alguns médiuns escreventes, videntes e desenhistas a se reunirem comigo para o trabalho comum. Foi então que tive a sorte de testemunhar fatos surpreendentes e as provas mais evidentes da bondade e virtude do Espiritismo. Pela segunda vez eu estava convencido!

Junto a esta, já bem longa, algumas das minhas comunicações. Serei feliz, meu caro mestre, se vos for possível dar-lhes uma olhada e julgar de seu valor. Do ponto de vista moral eu as julgo irreprocháveis; mas do ponto de vista literário... não estando apto para julgar, abstenho-me. Se, contra minha espectativa, encontrardes alguns fragmentos capazes de serem dados à publicidade, peço-vos deles dispor à vontade; ser-me-ia uma grande felicidade o haver contribuído com uma pedrinha para a construção do edifício.

Daria um grande valor a uma resposta do vosso próprio punho, meu caro mestre, mas não ouso solicitá-lo, pois sei da impossibilidade material em que vos achais de responder a todas as cartas que vos s&o dirigidas. Termino vos rogando perdoeis esta extrema liberdade, esperando creiais na sinceridade daquele que tem a honra de se dizer um dos vossos fervorosos admiradores e vosso muito humilde servo.

MICHEL

Rue Bouteille, 25, à Lyon

A COMÉDIA HUMANA

(PARIS, GRUPO DESLIENS, 29 DE NOVEMBRO DE 1866 —

MÉDIUM, SR. DESLIENS)

A vida do Espírito encarnado é como um romance, ou antes, como uma peça de teatro, da qual cada dia se percorre uma folha contendo uma cena. O autor é o homem; os personagens são as paixões, os vícios, as virtudes, a matéria e a inteligência, disputando a posse do herói, que é o Espírito. O público é o mundo em geral durante a encarnação, os Espíritos na erraticidade, e o censor que examina a peça para a julgar em última instância e proferir uma censura ou um louvor ao autor é Deus.

Fazei de modo que sejais aplaudido o maior número de vezes possível e que só raramente cheguem aos vossos ouvidos o barulho desagradável dos assovios. Que a intriga seja sempre simples, e não busqueis interesse senão nas situações naturais, que possam servir para fazer triunfar a virtude, desenvolver a inteligência e moralizar o público.

Durante a execução da peça, a cabala posta em movimento pela inveja, pode tentar criticar as melhores passagens e só incensar as que são medíocres ou más. Fechai os ouvidos a essas adulações, e lembrai-vos que a posteridade vos apreciará no vosso justo valor! Deixareis um nome obscuro ou ilustre, manchado de vergonha ou coberto de glórias, conforme o mundo. Mas quando a peça estiver terminada e a cortina, caída sobre a última cena, vos puser em presença do regente universal, do diretor infinitamente poderoso do teatro onde se passa a comédia humana, nem haverá aduladores, nem cortesãos, nem invejosos, nem ciumentos: estareis sós com o juiz supremo, imparcial, equitável e justo.

Que a vossa obra seja séria e moralizadora, porque é a única que tenha algum peso na balança do Todo-Poderoso.

É preciso que cada um de à sociedade ao menos o que dela recebe. Aquele que, tendo recebido a assistência corporal e espiritual, que lhe permite viver, se vai sem ao menos restituir o que gastou, é um ladrão, porque malbaratou uma parte do capital inteligente e nada produziu.

Nem todo o mundo pode ser homem de gênio, mas todos podem e devem ser honestos, bons cidadãos e devolver a sociedade aquilo que a sociedade lhes emprestou.

Para que o mundo esteja em progresso, é preciso que cada um deixe uma lembrança útil de sua personalidade, uma cena a mais nesse número infinito de cenas úteis que os membros da humanidade deixaram, desde que a vossa terra serve de lugar de habitação aos Espíritos.

Fazei, pois, que leiam com interesse cada página do vosso romance, e que não o percorram apenas com o olhar, para o fechar com tédio, antes de o ter lido pela metade.


 

 
 

EUGÈNE SUE.

 
 

CARTA DO SR. JOBARD

Bruxelles, 22 de junho de 1858.


 

Meu caro colega,

Me perguntais, com espirituosas perífrases, se ousaria confessar publicamente minha crença nos Espíritos e nos Perispíritos, em vos autorizando publicarem minhas cartas, e em aceitando o título de correspondente da Academia do Espiritismo que fundastes, o que seria ter, como se disse, a coragem de sua opinião.

Estou um pouco humilhado, vos confesso, por vos ver empregar, comigo, as mesmas fórmulas e os mesmos discursos que com os tolos, quando deveis saber que toda a minha vida foi consagrada em sustentar a verdade, e em testemunhar em seu favor todas as vezes que a encontrava, seja em física, seja em metafísica. Sei que o papel do adepto das idéias novas não é sempre sem inconveniente, mesmo neste século de luzes, e que se pode ser ridicularizado por dizer que é dia em pleno meio-dia, porque o menos que se arrisca é ser tratado de louco; mas como a Terra gira e que o pleno meio-dia brilhará para cada um, será bem preciso que os incrédulos se rendam à evidência. É tão natural ouvir negar a existência dos Espíritos por aqueles que não o têm, quanto a existência da luz por aqueles que ainda estão privados dos seus raios. Pode-se comunicar com eles? Aí está toda a questão. Vede e observai.

O tolo nega sempre o que não pode compreender, Para ele o maravilhoso é despido de atrativo; Não sabe nada, não quer nada aprender Tal é, do incrédulo, um fiel retrato. Eu me disse: O homem, evidentemente, é duplo, uma vez que a morte o desdobra; enquanto uma metade fica neste mundo, a outra vai para alguma parte conservando a sua individualidade; portanto, o Espiritismo está perfeitamente de acordo com a Escritura, com o dogma, com a religião que crê de tal modo nos Espíritos que exorciza os maus e evoca os bons: o Vade retro e o Veni Creator são as prova disso; portanto, a evocação é uma coisa séria e não uma obra diabólica, ou uma charlatanice, como pensam alguns.

Sou curioso, não nego nada; mas quero ver. Nunca disse: Trazei-me o fenômeno, corri atrás dele, em lugar de esperá-lo em minha poltrona até que viesse, segundo um hábito ilógico. Fiz-me simplesmente este raciocínio, há mais de 40 anos, a propósito do Magnetismo: É impossível que homens muito respeitados escrevam milhares de volumes para me fazer crer na existência de uma coisa que não exista. Depois tentei muito tempo e em vão, enquanto não tinha a fé em obter o que procurava; mas fui bem recompensado pela minha perseverança, uma vez que cheguei a produzir todos os fenômenos dos quais ouvi falar, depois parei durante quinze anos. Tendo sobrevindo as mesas, quis vê-las de coração limpo; vem hoje o Espiritismo, e ajo do mesmo modo. Quando alguma coisa de nova aparecia, corria atrás dela com o mesmo ardor que me coloco para ir ao encontro das descobertas modernas de todos os gêneros; é a curiosidade que me arrasta, e lastimo os selvagens por não serem curiosos, o que faz que permaneçam selvagens: a curiosidade é mãe da instrução. Sei bem que esse ardor para aprender tem me prejudicado muito, e que se tivesse permanecido nessa respeitável mediocridade que conduz às honras e à fortuna, delas teria tido minha boa parte; mas, há muito tempo, eu me disse que não estava senão passando nesta má hospedaria onde não vale a pena fazer sua mala; o que me fez suportar, sem dor, os insultos, as injustiças, os roubos dos quais fui uma vítima privilegiada, foi essa idéia de que não há, neste mundo, uma felicidade nem uma infelicidade que valha a pena dela se alegrar ou dela se afligir. Trabalhei, trabalhei, trabalhei, o que me deu a força para fustigar meus adversários mais encarniçados, e manter o respeito dos outros, de modo que sou agora mais feliz e mais tranqüilo do que as pessoas que me furtaram uma herança de 20 milhões. Eu os lamento, porque não invejo seu lugar no mundo dos Espíritos. Se lamento essa fortuna, não é por mim: não tenho um estômago para comer 20 milhões, mas pelo bem que isso me impediu de fazer. Que alavanca nas mãos de um homem que soubesse empregá-la utilmente! Que estímulo poderia dar às ciências e ao progresso! Aqueles que têm a fortuna, freqüentemente, ignoram as verdadeiras alegrias que poderiam se proporcionar. Sabeis o que falta à ciência espírita para se propagar com rapidez? Falta um homem rico, que a ela consagrasse a sua fortuna, por puro devotamento, sem mistura com o orgulho e o egoísmo; que fizesse as coisas grandemente, sem parcimônia nem pequenez; um tal homem, faria a sociedade avançar meio século. Por que me tiraram os meios de fazê-lo? Ele será encontrado; alguma coisa mo diz; honra a ele!

Vi evocar uma pessoa viva; ela sentiu uma síncope até o retorno do seu Espírito. Evocai o meu, para ver o que vos direi. Evocai também o doutor Mure, falecido no Cairo no dia 4 de junho; era um grande espiritista e médico homeopata. Perguntai-lhe se crê ainda nos gnomos. Certamente, ele está em Júpiter, porque foi um grande Espírito, mesmo neste mundo, um verdadeiro profeta ensinando e meu melhor amigo. Estará contente com o artigo necrológico que lhe fiz?

Eis que está bem longo, me direis; mas não é tudo rosa o ter-me por correspondente. Vou ler vosso último livro, que recebi neste instante; ao primeiro olhar rápido, não duvido que faço muito bem destruindo uma multidão de prevenções, e que tendes mostrado o lado sério da coisa. - O assunto Badet está muito interessante; dele falaremos.

Todo vosso, JOBARD.


 

Qualquer comentário sobre essa carta seria supérfluo; cada um apreciará a sua importância e nela encontrará, sem dificuldade, essa profundidade e essa sagacidade que, unidas aos mais nobres pensamentos, conquistaram para o autor um lugar tão honroso entre os seus contemporâneos. Pode-se honrar-se por ser louco (a maneira pela qual o entendem nossos adversários), quando se tem tais companheiros de infortúnio.

A esta anotação do senhor Jobard: "Pode-se comunicar com os Espíritos? Aí está toda a questão; vede e observai", acrescentaremos: As comunicações com os seres do mundo invisível não são nem uma descoberta nem uma invenção do mundo moderno; elas foram praticadas desde a mais alta antigüidade, por homens que fo ram mestres em filosofia, dos quais se invoca, todos os dias, o nome como autoridade. Por que o que se passou então não poderia mais se produzir hoje?

Uma dúvida sobre a tiptologia

GEFE

O Espírito Puro pode produzir diretamente o ruído de batida no caso da tiptologia? Ou sempre precisa de um "batedor profissional"?

A dúvida surgiu a partir do estudo das seguintes passagens:

1ª.

Ao classificar os Espíritos, em fevereiro de 1858, Allan Kardec diz, quanto aos efeitos produzidos pelos batedores (então ainda inseridos na classe dos Levianos), que "todos os Espíritos podem produzir esses fenômenos, mas os Espíritos elevados os deixam, em geral, nas atribuições de Espíritos inferiores, mais aptos às coisas materiais do que às coisas inteligentes."

2ª.

Ao realizar questões a São Luis sobre as solidificações de Espíritos, em junho de 1858, temos esta seqüência:

"12. — São os Espíritos solidificados que levantam a mesa?

—Esta pergunta ainda não conduzirá ao ponto que desejais. Quando a mesa se move debaixo de vossas mãos, o Espírito evocado pelo vosso Espírito vai retirar do fluido universal aquilo com que há de animar essa mesa com uma vida factícia. Esses são SEMPRE produzidos por Espíritos inferiores, ainda não inteiramente desprendidos de seu fluido ou perispírito. Assim preparada à sua vontade, isto é, à vontade dos Espíritos batedores, o Espírito a atrai e a movimenta, sob a influência de seu próprio fluido, desprendido por sua vontade. Quando a massa que quer levantar ou mover lhe é demasiado pesada, ele chama em auxílio Espíritos que se acham em condições idênticas às dele. Penso que me expliquei com bastante clareza para ser compreendido.

13.— Os Espíritos chamados em seu auxílio são seus inferiores?

—Quase sempre são iguais. Freqüentemente vêm por si mesmos.

14.— Compreendemos que os Espíritos superiores não se ocupem de coisas que lhes são inferiores. Mas perguntamos se, pelo fato de serem desmaterializados, teriam o poder de o fazer, caso tivessem vontade?

—Têm a força moral, como os outros têm a força física, E quando necessitam desta, servem-se daqueles que a possuem. Não vos foi dito que eles se servem dos Espíritos inferiores como vos servis dos carregadores?"

Observação

Grifamos o SEMPRE, sabendo que São Luis está abordando o tema em um contexto específico, tratando de movimentação de mesas e não de "batidas", propriamente ditas. Mas aqui a dúvida se aprofundou no seguinte sentido: visto que são Espíritos batedores que movimentam a mesa, para as batidas, que são seu "ofício" também seriam SEMPRE eles?

3ª.

A seqüência citada acima reaparece em O Livro dos Médiuns com leves modificações (com cunho didático, acreditamos), no capítulo 4 da segunda parte. O capítulo trata Da Teoria das Manifestações Físicas, e no item XXII e XXIII lemos:

"Como faz o Espírito para bater? Serve-se de algum objeto material?

"Tanto quanto dos braços para levantar a mesa. Sabes perfeitamente que nenhum martelo tem o Espírito à sua disposição. Seu martelo é o fluido que, combinado, ele põe em ação, pela sua vontade, para mover ou bater. Quando move um objeto, a luz vos dá a percepção do movimento; quando bate, o ar vos traz o som."

Concebemos que seja assim, quando o Espírito bate num corpo duro; mas como pode fazer que se ouçam ruídos, ou sons articulados na massa instável do ar?

"Pois que é possível atuar sobre a matéria, tanto pode ele atuar sobre uma mesa, como sobre o ar. Quanto aos sons articulados, pode imitá-los, como o pode fazer com quaisquer outros ruídos."

4ª.

Revista Espírita, março de 1859:

"A faculdade de produzir efeitos físicos constitui uma categoria bem nítida, que raramente se alia às comunicações inteligentes, sobretudo às de elevado alcance. Sabese que os efeitos físicos são peculiares aos Espíritos de classes inferiores, Assim como entre nós a exibição de força aos trapezistas. Ora, os Espíritos batedores estão nessa classe inferior; agem o mais das vezes por conta própria, para divertirse ou vexar os outros, mas algumas vezes, POR ORDEM DOS ESPÍRITOS SUPERIORES, QUE DELES SE SERVEM, COMO NÓS DOS TRABALHADORES. Seria absurdo pensar que Espíritos superiores viessem divertirse em bater nas mesas ou fazêlas girar. ELES USAM TAIS MEIOS, DIZEMOS NÓS, ATRAVÉS DE INTERMEDIÁRIOS, QUER PARA CONVENCERNOS, QUER PARA COMUNICARSE CONOSCO, DESDE QUE NÃO DISPONHAMOS DE OUTROS MEIOS; mas os abandonam logo que possam agir de modo mais rápido, mais cômodo e mais direto, Assim como nós abandonamos o telégrafo aéreo desde que tivemos o telégrafo elétrico."


Revista Espírita, setembro de 1860:

"3.º — Carta do Dr. de Grand-Boulogne sobre as manifestações físicas como meio de convicção. Ele pensa que não seria certo considerar todos os Espíritos batedores como de uma ordem inferior, visto como ele próprio, através de batidas, obteve comunicações de ordem muito elevada.

O Sr. Allan Kardec responde que A TIPTOLOGIA É UM MEIO DE COMUNICAÇÃO COMO QUALQUER OUTRO E DO QUAL PODEM SERVIR-SE OS MAIS ELEVADOS ESPÍRITOS, quando não disponham de outro mais rápido. NEM TODOS OS ESPÍRITOS QUE SE COMUNICAM POR BATIDAS SÃO ESPÍRITOS BATEDORES E EM MAIORIA ELES REPUDIAM TAL CLASSIFICAÇÃO, QUE SÓ CONVÉM ÀQUELES QUE CHAMAMOS BATEDORES PROFISSIONAIS, ao bom senso repugna crer que Espíritos superiores venham passar o tempo divertindo uma reunião com exibição de habilidades."


Revista Espírita, fevereiro 1861:

"Aliás, não se deve confundir os Espíritos que se ocupam de efeitos físicos propriamente ditos, e que mais comumente são designados por Espíritos batedores, com aqueles que se comunicam POR MEIO DE BATIDAS. ESTE ÚLTIMO MEIO É UMA LINGUAGEM E PODE SER EMPREGADA COMO A ESCRITA POR ESPÍRITOS DE QUALQUER ORDEM."


Revista Espírita novembro 1862, FÁBULAS E POESIAS DIVERSAS POR UM ESPÍRITO BATEDOR:

"Posto que a tiptologia seja um meio muito lento de comunicação, com paciência é possível obter trabalhos de fôlego. O Sr. Joubert, de Carcassone, remeteu-nos uma coleção de fábulas e de poesias obtidas por ele através daquele processo. Se nem todas são obras-primas, com o que o Sr. Joubert não ficaria ofendido, pois que não entra no caso, algumas são admiráveis, de lado o interesse pela fonte de onde procedem.

Eis uma que, embora não participando da coleção, pode dar uma idéia do espírito daquele Espírito batedor. E dedicada à Sociedade Espírita de Bordeaux, pelo próprio Espírito.

O MONÓLOGO DO BURRICO

(...)

O MÉDIUM E O DR. IMBROGLIO

(...)

Uma observação sobre a qualificação dada ao Espírito que ditou as poesias a que nos referimos acima. Com razão OS ESPÍRITOS SÉRIOS REPELEM O QUALIFICATIVO DE BATEDORES: ESSE TÍTULO CONVÉM APENAS ÀQUELES QUE PODERIAM SER CHAMADOS BATEDORES PROFISSIONAIS: ESPÍRITOS LEVIANOS OU MALÉVOLOS, QUE SE SERVEM DE PANCADAS PARA DIVERTIR OU ATORMENTAR; as coisas sérias não os preocupam. MAS A TIPTOLOGIA É, COMO QUALQUER OUTRO, UM MEIO PARA COMUNICAÇÕES INTELIGENTES E DELA SE SERVEM OS ESPÍRITOS MAIS ADIANTADOS, em falta de outro meio, posto prefiram a escrita, porque responde melhor à rapidez do pensamento. É CERTO DIZER QUE, NESSE CASO, NÃO SÃO ELES QUE BATEM; LIMITAM-SE A TRANSMITIR IDÉIA, DEIXANDO A EXECUÇÃO MATERIAL A ESPÍRITOS SUBALTERNOS, como um estatuário deixa ao prático o trabalho de talhar o mármore."


Revista Espírita, junho de 1863:

"Sobre este capitulo faremos uma última observação. É sobre a qualificação de batedor, dada erradamente, em nossa opinião, ao Espírito que se comunica com o Sr. Jaubert. Tal qualificação não convém, como dissemos alhures, senão aos Espíritos que chamaríamos batedores de profissão e que pertenciam sempre, pela pouca elevação das idéias e conhecimentos, às categorias inferiores. Assim não seria com esse, que prova, ao mesmo tempo, a superioridade de suas qualidades morais e intelectuais. Para ele a tiptologia não é um divertimento: é um meio de transmissão do pensamento, do qual se serve por não ter encontrado no médium a faculdade necessária ao emprego de outro. Seu objetivo é sério, ao passo que o dos Espíritos batedores propriamente ditos é quase sempre fútil, quando não malévola. À QUALIFICAÇÃO DE ESPÍRITO BATEDOR, DESDE QUE PODE SER TOMADA EM MAU SENTIDO, PREFERIMOS A DE ESPÍRITO TIPTOR, TERMO QUE SE REFERE À LINGUAGEM TIPTOLÓGICA."

Parece-nos que,

O Espírito batedor usa da própria vontade para fazer ruídos.

O Espírito tiptor é um Espírito de ordem elevada que envia mensagens inteligentes por tiptologia.

Como o processo é demasiadamente material, Espíritos superiores servem-se de Espíritos batedores para as batidas propriamente ditas, pois estes são mais afeitos às manifestações materiais.

Quando Allan Kardec diz que "todos" podem usar da tiptologia, significa que os inferiores a utilizam diretamente e os superiores indiretamente.

Quando São Luis diz que "sempre" são Espíritos inferiores que realizam esses fenômenos, ele está se atendo ao aspecto material do processo, a cargo dos batedores e não aos que ditam as mensagens.

O caso do Sr. Jaubert apresenta um tiptor e um batedor, sendo o tiptor chamado de batedor por ser este termo mais usual.

Dito isso, vamos ao caso recolhido em Obras Póstumas, na segunda parte, quando trata das PREVISÕES REFERENTES AO ESPIRITISMO:

" 25 de março de 1856

(Em casa do Sr. Baudin; médium: Srta. Baudin)

MEU GUIA ESPIRITUAL

Morava eu, por essa época, na rua dos Mártires, nos 8, no segundo andar, ao fundo. Uma noite, estando no meu gabinete a trabalhar, pequenas pancadas se fizeram ouvir na parede que me separava do aposento vizinho. A princípio, nenhuma atenção lhes dei; como, porém, elas se repetissem mais fortes, mudando de lugar, procedi a uma exploração minuciosa dos dois lados da parede, escutei para verificar se provinham do outro pavimento e nada descobri.

O que havia de singular era que, de cada vez que eu me punha a investigar, o ruído cessava, para recomeçar logo que eu retomava o trabalho. Minha mulher entrou da rua por volta das dez horas; veio ao meu gabinete e, ouvindo as pancadas, me perguntou o que era. Não sei, respondi-lhe, há uma hora que isto dura. Investigamos juntos, sem melhor êxito. O ruído continuou até à meia-noite, quando fui deitar-me. No dia seguinte, como houvesse sessão em casa do Sr. Baudin, narrei o fato e pedi que mo explicassem.

Pergunta — Ouvistes, sem dúvida, o relato que acabo de fazer; poderíeis dizer-me QUAL A CAUSA DAQUELAS PANCADAS que se fizeram ouvir com tanta persistência?

Resposta — ERA o teu Espírito familiar.

P. — Com que fim FOI ELE BATER daquele modo?

R. — Queria comunicar-se contigo.

P. — Poderíeis dizer-me quem é ele?

R. — Podes perguntar-lhe a ele mesmo, pois que está aqui.

(...)

P. — Ontem, QUANDO BATESTE, estando eu a trabalhar, tinhas alguma coisa de particular a dizer-me?

(...)

Desde então, nenhuma outra manifestação do mesmo gênero das anteriores se produziu. Tendo-se tornado desnecessárias, por se acharem estabelecidas as minhas relações com o meu Espírito protetor, elas cessaram."

Segundo nossas anotações, o Espírito Verdade seria, nesse caso, um Espírito tiptor, (pois inegavelmente superior) utilizando-se de um Espírito batedor.

Os termos grifados apontam que ele era o responsável pelas batidas. No entanto o era por ordená-las, não por realizá-las materialmente.

E naquele ano talvez não fosse oportuno que o Verdade dissesse: "Na realidade não bati, mas ordenei que um Espírito (que mais tarde você classificará como batedor) o fizesse."

Toda a teoria sobre as manifestações físicas e a própria classificação dos Espíritos seriam construídas ao longo dos anos seguintes.

Desta forma reformulamos a questão:

NUNCA um Espírito puro pode ser responsável direto pelas batidas da tiptologia?