O ZUAVO DE MAGENTA








 

NOTICIAS DA GUERRA


 

O    governo permitiu que os jornais apolíticos dessem notícias da guerra. Como, porém, são abundantes os relatos sob todas as formas, seria pelo menos inútil aqui os repetir. A maior novidade para os nossos leitores é uma história do outro mundo.

Embora não seja extraída da fonte oficial do Moniteur, nem por isso oferece menos interesse do ponto de vista dos nossos estudos. Assim, pensamos em interrogar algumas das gloriosas vitimas da vitória, presumindo que nos pudessem ministrar algumas indicações úteis. Tais motivos de observação e, principalmente, de atualidade, não se apresentam a cada passo. Não conhecendo nenhum dos participantes da última batalha, rogamos aos Espíritos que nos assistem que nos enviassem alguém. Chegamos a pensar até que a presença de um estranho seria preferível à de inimigos ou de parentes, dominados pela emoção.

Dada uma resposta afirmativa, obtivemos as seguintes palestras.


 

O ZUAVO DE MAGENTA


 

PRIMEIRA PALESTRA, NA SOCIEDADE, A 10 DE JUNHO DE 1859.


 1.    — Rogamos a Deus Todo Poderoso permita ao Espírito de um militar, morto na batalha de Magenta, vir comunicar-se conosco.

— Que quereis saber?

2.    — Onde vos encontráveis quando vos chamamos?

—    Não saberei dizer.

3. — Quem vos preveniu que desejávamos conversar convosco?

—    Alguém mais sagaz do que eu. 

4. — Quando em vida duvidáveis que os mortos pudessem vir conversar com os vivos?

— Oh! isso não. 

5. — Que sensação experimentais por estardes aqui?

—    Isto me causa prazer. Segundo me dizem, tendes que fazer grandes coisas. 

6. — A que corpo do exército pertencíeis? [Alguém diz a meia-voz: Pela linguagem parece um zuzu (1).]

— Ah! bem o dizes!

7. — Qual era o vosso posto?

—    O de todo o mundo. 

8. — Como vos chamáveis?

—    Joseph Midard. 

9. — Como morrestes?

—    Quereis saber tudo sem pagar nada? 

10.    — Ainda bem! não perdestes a jovialidade. Dizei, dizei; nós pagaremos depois. Como morrestes?

—    De uma ameixa que recebi (2) 

11. — Ficastes contrariado com a morte?

—    Palavra que não! Estou bem aqui. 

12. — No momento da morte percebestes o que houve?

—    Não: eu estava tão atordoado que não poderia acreditar. 

NOTA:    Isto concorda com o que temos observado nos casos de morte violenta. Não se dando conta imediatamente da sua situação, o Espírito não se julga morto. Este fenômeno se explica muito facilmente: é análogo ao doe sonâmbulos que não acreditam que estejam dormindo. Realmente, para o sonâmbulo a idéia de sono é sinônima de suspensão das faculdades intelectuais. Ora, como ele pensa, não acredita que dorme: só mais tarde se convence, quando familiarizado com o sentido ligado a este vocábulo. Dá-se o mesmo com um Espírito surpreendido por morte súbita. quando nada havia preparado para a separação do corpo. Para ele a morte é sinônimo de destruição, de aniquilamento. Ora, desde que vive. dizer que o Espiritismo é a luz que esclarecerá diversos mistérios, a chave de numerosos problemas.

13.    — No momento de vossa morte a batalha não tinha terminado. Seguistes as suas peripécias?

— Sim; pois, como vos disse, não me julgava morto: eu sempre queria martelar os outros cães (3)

14. — Que sensação experimentastes então? 

— Eu estava encantado, pois me sentia muito leve. 

15. — Víeis os Espíritos dos vossos camaradas deixando os corpos?

— Eu nem pensava nisso, pois não me acreditava morto. 

16. — Em que se tornavam esses Espíritos que deixavam a vida em multidão, no tumulto da batalha? 

— Creio que faziam o mesmo que eu. 

17. — Encontrando-se reunidos nesse mundo dos Espíritos, que pensavam Aqueles que se batiam mais encarniçadamente? Ainda se atiravam uns contra os outros?

— Sim. Durante algum tempo e conforme o seu caráter.

18.    — Reconhecei-vos melhor agora?

—    Sem isto não me teriam mandado aqui. 

19.    — Poderíeis dizer-nos se entre os Espíritos de mortos há muito tempo se encontram alguns interessados no resultado da batalha? (Rogamos a São Luís que o ajudasse nas respostas, a fim de que, para bem de nossa instrução, elas fossem tão explícitas quanto possível).

—    Em grande quantidade. E bom saber que esses combates e suas conseqüências são preparados com muita antecedência e que os nossos adversários não se manchariam nos crimes, como se mancharam, se a isto não fossem empurrados, em vista das conseqüências futuras, que não tardareis a conhecer.

20.    — Deveria haver quem se interessasse pelos sucessos dos Austríacos. Haveria, então, dois campos entre eles?

—    Evidente. 

OBSERVAÇÃO:    Não parece que estamos vendo aqui os deuses de Homero tomando partido, uns pelos Gregos, outros pelos Troianos? Na verdade, quem eram esses deuses do paganismo, senão os Espíritos que os Antigos haviam transformado em divindade? Não temos razão para dizer que o Espiritismo é a luz que esclarecerá diversos mistérios, a chave de numerosos problemas? 

21.    — Eles exerciam alguma influência sobre os combatentes?

—    Muito considerável.

22.    — Pode descrever-nos a maneira por que tal influência era exercida?

— Da mesma maneira por que todas as influências dos Espíritos se exercem sobre os homens. 

23.    — Que esperais fazer agora?

— Estudar mais do que o fiz em minha última etapa.

24.    — Ides voltar como espectador aos combates que ainda se travam?

—    Ainda não sei. Tenho afeições que me prendem no momento. Contudo, espero de vez em quando dar uma fugida, para me divertir com as surras subseqüentes.

25. — Que gênero de afeição vos retém ainda?

—    Uma velha mãe doente e sofredora, que chora por mim.

26.    — Peço que me desculpe o mau pensamento que me atravessou o Espírito, relativamente à afeição que o retém.

—    Não tem importância. Digo bobagens para vos fazer rir um pouco. E natural que me tomeis por um tolo, em relação ao honrado corpo a que pertenço. Ficai quietos, eu só me engajei por causa dessa minha pobre mãe. Mereço um pouco que me tenham mandado a vós.

27.    — Quando vos encontrastes entre os Espíritos ouvíeis o rumor da batalha? Víeis as coisas tão claramente como em vida?

—    A princípio eu a perdi de vista; mas depois de algum tempo via muito melhor, porque via todos os cordéis.

28.    — Pergunto se escutáveis o troar do canhão.

—    Sim.

29. — No momento da ação pensáveis na morte e naquilo em que vos tomaríeis, caso fosseis morto?

—Eu pensava no que seria de minha mãe.

30.    — Era a primeira vez que entráveis em fogo?

—Não, não. E a África?

31. — Vistes a entrada dos franceses em Milão?

—    Não. 

32.    — Aqui sois o único dos que morreram na Itália? 

—    Sim. 

33.    — Pensais que a guerra durará muito tempo?

—    Não. E fácil e, aliás, de pouco valor essa predição. 

34.    — Quando entre os Espíritos vedes um de vossos chefes, ainda o reconheceis como superior?

—    Se ele o for, sim; se não, não. 

OBSERVAÇÃO:    Na sua simplicidade e no seu laconismo, esta resposta é eminentemente profunda e filosófica. No mundo espírita a superioridade moral é a única reconhecível. Quem não a teve na Terra, fosse qual fosse a posição, não terá nenhuma superioridade. Que lição para o nosso orgulho! 

35.    — Pensais na justiça de Deus e vos inquietais por isso?

—    Quem não pensará? Felizmente não tenho muito que temer. Eu resgatei, por algumas ações que Deus considerou boas, algumas escapadas que cometi como zuzu, conforme dizia.

36. — Assistindo a um combate, poderíeis proteger um de nossos companheiros e desviar-lhe um golpe fatal?

— Não. Não está em nossas forças; a hora da morte é marcada por Deus. Se a gente deve passar, nada o impedirá; do mesmo modo ninguém poderia atingi-la, se sua hora não tivesse soado.

37.    — Vedes o General Espinasse? 

—    Não o vi ainda. Mas espero vê-lo em breve.

 (1)    Termo familiar significando zuavo, soldado das colônias francesas na África do Norte e que ostentava uniforme pitoresco de várias cores, especialmente culote vermelho bastante largo no alto.

(2)    linguagem vulgar dando a entender que havia levado um tiro.

(3) Aqui o Espírito faz um trocadilho: les Autrichiens, os Austríacos, e les autres chiens, os outros cães, têm mais ou menos a mesma pronúncia. (N. do T.) 



 SEGUNDA PALESTRA


(17 DE JUNHO DE 1859)

 

38.    — (Evocação).

— Presente! Firme! em frente!

39.    — Lembrai-vos de ter vindo aqui há oito dias?

—    Ora! 

40.    — Dissestes-nos que ainda não tínheis visto o General Espinasse. Como o poderíeis reconhecer. se ele não tivesse envergado o seu uniforme de general?

—    Não; mas eu o conheço de vista; ademais. temos uma porção de amigos junto a nós, prontos a nos dar a senha. Aqui não é como no quartel: a gente não tem medo de dar uma ajuda e eu vos digo que só os maus ficam sozinhos. 

41.    — Sob que aparência aqui vos encontrais?

—    Zuavo. 

42.    — Se vos pudéssemos ver, como veríamos?

—    De turbante e culote. 

43.    — Então! supunha que nos aparecêsseis de turbante e culote. Mas onde arranjastes estas roupas, se as vossas ficaram no campo de batalha?

— Ora, ora! Não sei como é isto mas lenho um alfaiate que mas arranja. 

44. — De que são feitos o turbante e o culote que usais? Não tendes idéia?

—    Não; isto é lá com o trapeiro. 

OBSERVAÇÃO:    Esta questão da vestimenta dos Espíritos, como várias outras não menos interessantes, ligadas ao mesmo princípio, silo completamente elucidadas por novas observações feitas no seio da Sociedade. Daremos conta disso no próximo número. Nosso bom zuavo não estava suficientemente adiantado para resolver: foi-nos preciso o concurso de circunstâncias apresentadas fortuitamente e que nos puseram no caminho certo.

 45.    — Sabeis a razão por que nos vedes, aô passo que não vos vemos?

—    Penso que compreendo: vossas lunetas são muito fracas. 

46.    — Não seria por essa mesma razão que não vedes o general em seu uniforme?

—    Sim: mas ele não o veste todos os dias. 

47.    — Em que dias o veste? 

—    Ora essa! quando o chamam ao palácio.

48. — Por que estais aqui vestido de zuavo quando não vos podemos ver?

— Muito naturalmente porque ainda sou zuavo, isso há cerca de oito anos e porque entre os Espíritos conservamos a forma durante muito tempo. Mas isso entre nós. Compreendeis que quando vamos a um mundo diferente, como a Lua ou Júpiter, não nos damos ao trabalho de fazer toalete.

40. — Falais da Lua e de Júpiter. Porventura já lá estivestes depois de morto?

— Não. Não me compreendeis. Depois da morte nos informamos de muitas coisas. Não nos explicaram uma porção de problemas da nossa Terra? Não conhecemos Deus e os outros seres muito melhor do que há quinze dias? Com a morte, o Espírito sofre uma metamorfose que não podeis compreender. 

—    Sim: ele não está bonito. 

51.    — Que impressão vos deixou essa vista?

—    De tristeza. 

52.    — Tendes conhecimento de vossa existência anterior?

—    Sim: mas não é bastante gloriosa para que possa me pavonear. 

53.    — Dizei-nos apenas o gênero de vida que tínheis.

—    Simples mercador de peles selvagens. 

54.—    Nós vos agradecemos a bondade de ter vindo pela segunda vez.

—    Até breve. Isto me diverte e me instrui; desde que me toleram bem aqui, voltarei de boa vontade.

BENVENUTO CELLINI

Benvenuto Cellini


 

SESSÃO DA SOCIEDADE PARISIENSE DE ESTUDOS ESPÍRITA


 

EM 11 DE MARCO DE 1859.


 

1. — (Evocação).

—    Interrogai: estou pronto. Podeis vos demorar como quiserdes, pois tenho tempo para vos dar.

2.    — Lembrai-vos da existência que passastes na Terra, no século XVI, entre 1500 e 1570?

—    Sim, sim.

3.    — Atualmente, qual a vossa situação como Espírito?

—    Vivi em vários outros mundos e estou muito satisfeito com a posição que hoje ocupo: não é um cimo, mas estou progredindo.

4.    — Tivestes outras existências corporais na Terra, depois daquela que conhecemos?

—    Corporais, sim; na Terra, não.

5.    — Quanto tempo ficastes errante?

—    Não posso calcular: alguns anos.

6. — Quais as vossas ocupações nesse estado errante?

—    Trabalhava pelo meu aperfeiçoamento.

7.    — Voltastes algumas vezes à Terra?

—    Poucas.

8. — Assististes ao drama em que figurais? Que pensais dele?

—    Fui vê-lo várias vezes. Fiquei satisfeito como Cellini; mas pouco como Espírito que havia progredido.

9.    — Antes da existência que conhecemos, tivestes outras na Terra?

— Não, nenhuma.

10.    — Poderíeis dizer o que éreis em vossa precedente existência?

—    Minhas ocupações eram muito diferentes da que tive na Terra.

11.    — Que mundo habitais?

—    Não o conheceis e não o vedes.

12.    — Poderíeis dar-nos a sua descrição do ponto de vista físico e do moral?

—    Sim, facilmente.

— Meus caros amigos, do ponto de vista físico satisfez-me a sua beleza plástica: ali nada choca a vista; todas as linhas se harmonizam perfeitamente; a mímica é o meio de expressão permanente; os perfumes nos rodeiam e não temos nada a desejar para o nosso bem-estar físico, porque as necessidades pouco numerosas a que estamos sujeitos logo são satisfeitas.

Do ponto de vista moral, a perfeição é menor, pois ali ainda podem ver-se consciências perturbadas e Espíritos dedicados ao mal. Não será a perfeição, longe disso; mas, como já disse, é o seu caminho. E todos esperamos um dia alcançá-la.

13.    — Quais as vossas ocupações no mundo que habitais?

—    Trabalhamos as artes. Sou artista.

14.    — Em vossas memórias contais uma cena de feitiçaria e de endemoninhamento, que se teria passado no Coliseu, em Roma, e na qual teríeis tomado parte, recordai-vos?

—    Sem muita clareza.

15.    — Se a lêssemos, a leitura avivaria a vossa lembrança?

—    Sim: dar-me-ia noção.

Fez-se então a leitura do seguinte trecho:

"Em meio a essa vida estranha, eu me liguei a um sacerdote siliciano, de espírito muito fino e profundamente versado nas letras gregas e latinas. Um dia nossa conversa caiu sobre necromancia e eu lhe disse que durante toda a minha vida tinha desejado ardentemente ver e aprender algo dessa arte. Para abordar semelhante empresa é necessário ter una alma firme e intrépida, respondeu o sacerdote.

"Uma noite, entretanto, o padre fez os seus preparativos e me disse que procurasse um ou dois companheiros. Convidou um homem de Pistola, que também se ocupava de necromancia e dirigimo-nos ao Coliseu. Aí o padre vestiu-se à maneira dos necromantes, depois começou a riscar círculos no chão, acompanhando isto com as mais belas cerimônias que se possam imaginar.

Havia trazido perfumes preciosos, drogas fétidas e fogo. Quando tudo estava em ordem Ele fez urna abertura no circulo e ali nos introduziu, um a um, levando-nos pela mão. Depois distribuiu os papéis. Pôs o talismã nas mãos de seu amigo necromante, encarregou os outros da vigilância do fogo e dos perfumes, depois do que começou as conjurações. Esta cerimônia durou mais de hora e meia. O Coliseu encheu-se de legiões de Espíritos infernais, Quando o padre viu que eram bastante numerosos, voltou-se para mim, que cuidava dos perfumes, e disse:

—    "Benvenuto, pede-lhes alguma coisa.

"Respondi desejar que Eles me reunissem à minha siciliana Angélica.

"Não obstante nenhuma resposta tivéssemos naquela noite, fiquei encantado com o que tinha visto."

"O necromante me disse que era necessário voltar uma segunda vez e que eu obteria tudo quanto quisesse, desde que trouxesse um rapazinho a inda virgem.

"Escolhi um dos meus aprendizes e trouxe ainda dois dos meus amigos.

"Ele pôs-me nas mãos o talismã, mandando que o voltasse para a direção que me fosse indicada. Meu aprendiz ficou colocado debaixo do talismã. O necromante começou suas terríveis evocações, chamou pelo nome uma porção de chefes de legiões infernais e lhes deu ordens em hebraico, em grego e em latim, em nome do Deus incriado, vivo e eterno. Em breve o Coliseu encheu-se de uma quantidade de demônios cem vezes maior que da primeira vez. A conselho do necromante pedi novamente para me encontrar com Angélica. Ele voltou-se para mim e me disse:

"Não os ouviste anunciar que em um mês estarias com ela?" E pediu-me que tivesse firmeza, porque havia ainda mil legiões que não tinham sido chamadas, acrescentando que estas eram mais perigosas e que, de vez que haviam respondido ao meu pedido, era necessário tratá-las com brandura e despedi-las tranqüilamente. Por outro lado o menino exclamava com espanto que percebia milhares de homens terríveis que nos ameaçavam, e quatro enormes gigantes, armados dos pés à cabeça, que pareciam querer penetrar em nosso círculo. Entrementes, a tremer de medo, o necromante tentava conjurá-los, ensaiando a mais doce entonação de voz. O menino mergulhava a cabeça entre os joelhos e gritava:

—    "Eu quero morrer Assim! Estamos mortos!

"Então eu lhe disse:

"Estas criaturas estão todas abaixo de nós: aquilo que vês não passa de fumo e sombra. Levanta, pois, os teus olhos."

"Apenas me havia obedecido, exclamou:

"Todo o Coliseu está em chamas e o fogo vem sobre nós."

"O necromante mandou que fosse queimada assa-fétida. Agnolo, encarregado dos perfumes, estava semi-morto de pavor.

"O ruído e o mau cheiro fizeram o menino levantar a cabeça. Ouvindo o meu riso, animou-se um pouco e disse que os demônios começavam a retirada. Ficamos Assim até o momento em que soaram as matinas. Disse-nos o menino que apenas avistava alguns demônios e a grande distância. Por fim. quando o necromante concluiu o cerimonial e tirou os paramentos, saímos do círculo.

"Enquanto marchávamos para casa, pela Via dei Banchi, Ele garantia que dois demônios faziam piruetas à nossa frente, ora correndo sobre os telhados, ora pelo chão.

"O necromante jurava que desde que havia posto o pé num círculo mágico jamais lhe havia acontecido algo tão extraordinário. Depois tentou convencer-me a me dedicar com ele a um livro que nos deveria produzir riquezas incalculáveis e nos dar os meios de obrigar os demônios a indicar-nos os lugares onde estão ocultos os tesouros que a terra guarda em seu selo...

Depois de diferentes relatos mais ou menos ligados ao que precede, conta Benvenuto como, ao cabo de trinta dias, ou seja no prazo fixado pelos demônios, Ele encontrou sua Angélica.

16.    — Poderíeis dizer o que existe de verídico nesta cena?

—    O necromante era um charlatão; eu era um romancista e Angélica era a minha amante.

17.    — Revistes o vosso protetor Francisco 1?

—    Certamente; Ele reviu muitos outros que não foram seus protegidos.

18.    — Como o julgáveis em vida e como o julgais agora?

— Direi como o julgava: como um príncipe e, como tal, enceguecido por sua educação e pelos que o cercavam.

19.    — E agora, que dizeis?

—    Ele progrediu.

20.    — Ele protegia os artistas por um sincero amor às artes?

—    Sim; mas também por prazer e por vaidade.

21.    — Onde se acha Ele atualmente?

—    Vive.

22. — Na Terra?

—    Não.

23.    — Se o evocássemos agora Ele poderia vir e conversar conosco?

—    Sim. Mas não forceis os Espíritos dessa maneira. Vossas evocações devem ser preparadas com muita antecedência. Então, pouco tereis que perguntar aos Espíritos. Deste modo vos arriscais muito menos a serdes enganados, porque às vezes isto se dá. (São Luís).

24.    — (A São Luís): Poderíeis fazer com que dois Espíritos viessem conversar?

—    Sim.

—    Neste caso seria útil ter dois médiuns?

- Sim; é necessário.

NOTA:    o diálogo em questão foi mantido em outra sessão. Publicá-lo-emos no próximo número.

25.    — (A Cellinb: Qual a origem da vossa vocação para a arte; seria devido a um especial desenvolvimento anterior?

—    Sim: durante muito tempo fui atraído pela poesia e pela beleza da linguagem. Na Terra prendi-me à beleza como reprodução; hoje me ocupo da beleza como invenção.

26.    — Tínheis também habilidade militar, pois o Papa Clemente VII vos confiou a defesa do Castelo de Santo Ângelo. Entretanto, o vosso talento de artista não vos devia dar muita aptidão para a guerra.

—    Tinha talento e sabia aplicá-lo. Em tudo é necessário discernimento; sobretudo na arte militar de então.

27.    — Poderíeis dar alguns conselhos aos artistas que buscam seguir as vossas pegadas?

—    Sim. Dir-lhes-ei apenas que, mais do que o fazem e mais do que fiz, busquem a pureza e a verdadeira beleza. Eles me compreenderão.

28.    — A beleza não é relativa e convencional? O europeu julga-se mais belo que o negro e este mais belo que o branco. Se há uma beleza absoluta, qual o tipo? Podeis dar a vossa opinião a respeito?

— Com prazer. Não quis aludir a uma beleza convencional; ao contrário, a beleza está em toda parte, como um reflexo do Espírito sobre o corpo e não apenas como a forma corpórea. Como dissestes, um negro pode ser belo, de uma beleza apreciada por seus semelhantes, é verdade. Do mesmo modo vossa beleza terrena é deformidade para o Céu, Assim como para vós, brancos, o belo negro quase que se vos afigura disforme. Para o artista o belo é a vida, o sentimento que sabe dar à obra. Com isto dará beleza às coisas mais vulgares.

29.    — Poderíeis guiar um médium na execução de modelagens, Assim como Bernard de Palissy em relação aos desenhos?

— Sim.

30.    — Poderíeis levar o médium de quem vos servis no momento a fazer alguma coisa?

—    Como os outros, mas preferiria um artista, que conhecesse os truques da arte.


 

OBSERVAÇÃO:     Prova a experiência que a aptidão de um médium para tal ou qual gênero de produção depende da flexibilidade que apresenta ao Espírito, abstração feita do seu talento. O conhecimento do ofício e os meios materiais de execução fio constituem o talento, mas é compreensível que, dirigindo o médium, neste encontre o Espírito menos dificuldade mecânica a vencer. Entretanto, voem-se médiuns que fazem coisas admiráveis, embora lhes faltem as primeiras noções, como no caso dos desenhos, da poesia, das gravuras, da música, etc.; mas então é que existe neles uma aptidão inata, sem dúvida devida a um desenvolvimento anterior, do qual apenas conservavam a intuição.


 

31.    — Poderíeis dirigir a senhora A. 5., aqui presente, e que é artista, mas que jamais conseguiu produzir algo como médium?

—    Se ela tiver vontade, experimentarei.

32.    — (A Sra. A. S.): Quando queres começar?

Quando o quiseres, a partir de amanhã.

33.    — Como, porém, saberei que a inspiração virá de ti?

— A convicção vem com as provas. Deixai-a vir lentamente.

34.    — Porque não tenho tido êxito até este momento?

—    Pouca persistência e falta de boa vontade por parte do Espírito a quem solicitas.

35.    — Agradeço-te pela assistência que me prometes.

—    Adeus. Até à vista, companheira de trabalho.

NOTA:    A sra. A. S. pôs-se à obra, mas ainda ignoramos quais os resultados.

PRIMEIRAS LIÇÕES DE MORAL DA INFÂNCIA

Revista Espírita. Fevereiro de 1864

    De todas as chagas morais da sociedade, parece que o egoísmo é a mais difícil de desarraigar. Com efeito, ela o é tanto mais quanto mais é alimentada pelos mesmos hábitos da educação. Parece que se toma a tarefa de, desde o berço, excitar certas paixões que, mais tarde tornam-se uma segunda natureza. E admiram-se dos vícios da sociedade, quando as crianças os sugam com o leite. Eis um exemplo que, como cada um pode julgar, pertence mais à regra do que à exceção.

    Numa família de nosso conhecimento, há uma menina de quatro a cinco anos, de uma inteligência rara, mas que tem os pequenos defeitos das crianças mimadas. Isto é, é um pouco caprichosa, chorona, teimosa, e nem sempre agradece quando lhe dão qualquer coisa, o que os pais cuidam bem de corrigir porque, fora destes defeitos, segundo eles, ela tem um coração de ouro, expressão consagrada. Vejamos como eles se conduzem para lhe tirar essas pequenas manchas e conservar o ouro em sua pureza.

    Um dia trouxeram um doce à criança e, como de costume, lhe disseram: "Tu o comerás se fores boazinha". Primeira lição de gulodice. Quantas vezes, à mesa, não dizem a uma criança que não comerá tal petisco se chorar. "Faze isto, ou faze aquilo", dizem, "e terás creme" ou qualquer outra coisa que lhe apeteça; e a criança é constrangida, não pela razão, mas em vista de satisfazer um desejo sensual que aguilhoa. E ainda muito pior, quando lhe dizem o que não é menos freqüente, que darão o seu pedaço a uma outra. Aqui já não é só a gulodice que está em jogo, é a inveja. A criança fará o que lhe dizem, não só para ter, mas para que a outra não tenha. Querem dar-lhe uma lição de generosidade? Dizem-lhe: "Dá esta fruta ou este brinquedo a fulaninho". Se ela recusa, não deixam de acrescentar, para nela estimular um bom sentimento: "Eu te darei um outro." De modo que a criança não se decide a ser generosa senão quando está certa de nada perder.

    Certo dia, testemunhamos um fato bem característico deste gênero. Era uma criança de cerca de dois anos e meio, a quem tinham feito semelhante ameaça, acrescentando: "Nós o daremos ao irmãozinho e tu não comerás. E para tornar a lição mais sensível, puseram o pedaço no prato deste; mas o irmãozinho, levando a coisa a sério, comeu a porção. A vista disto, o outro ficou um lacre e não era preciso ser o pai, nem a mãe, para não ver o relâmpago de cólera e de ódio que brilhou de seus olhos. A semente estava lançada: poderia produzir bom grão?

Voltemos à menina, da qual falamos. Como não se deu conta da ameaça, sabendo por experiência que raramente a executavam, desta vez foram mais firmes, pois compreenderam que era necessário dominar esse pequeno caráter, e não esperar que a idade lhe tivesse dado um mau hábito. Diziam que é preciso formar cedo as crianças, máxima muito sábia, e para pô-la em prática, eis o que fizeram: "Prometo-te," disse a mãe, " que se não obedeceres, amanhã cedo darei o teu bolo à primeira menina pobre que passar. " Dito e feito. Desta vez queriam o bem e dar-lhe uma boa lição. Assim, no dia seguinte de manhã, avistada uma pequena mendiga na rua, fizeram-na entrar, obrigaram a filha a tomá-la pela mão e ela mesma lhe dar o bolo. Então elogiaram a sua docilidade. Moralidade: a filha disse: "É mesmo, se eu soubesse teria tido pressa em comer o bolo ontem." E todos aplaudiram esta resposta espirituosa. Com efeito, a criança tinha recebido uma forte lição, mas de puro egoísmo, da qual não deixará de aproveitar-se uma outra vez, pois agora sabe o que custa a generosidade forçada. Resta saber que frutos darão mais tarde esta semente quando, com mais idade, a criança fizer aplicação dessa moral em coisas mais sérias que um bolo.

    Sabe-se de todos os pensamentos que este cínico fato pode ter feito germinar nessa cabecinha? Depois disto, como querem que uma criança não seja egoísta quando, em vez de nela despertar o prazer de dar e de lhe representar a felicidade de quem recebe, impõem-lhe um sacrifício como punição? Não é inspirar aversão ao de dar àqueles que necessitam? Um outro hábito, igualmente freqüente é o de castigar a criança mandando-a comer na cozinha com os criados. A punição está menos na exclusão da mesa, do que na humilhação de ir para a mesa da gente de serviço. Assim se acha inoculado, desde a mais tenra idade, o vírus da sensualidade, do egoísmo, do orgulho, do desprezo aos inferiores, das paixões, numa palavra, que com razão são consideradas como as chagas da humanidade. É preciso ser dotado de uma natureza excepcionalmente boa para resistir a tais influências, produzidas na idade mais impressionável, e onde não podem encontrar o contrapeso nem da vontade, nem da experiência. Assim, por pouco que aí se ache o germe das más paixões, o que é o caso mais ordinário, dada a natureza dos Espíritos que, em maioria, se encarnam na terra, não podem senão desenvolver-se sob tais influências, ao passo que seria preciso observar-lhe os menores traços para os apagar.

    Esta falta, sem dúvida, é dos pais; mas, é bom dizer, muitas vezes estes pecam mais por ignorância do que por má vontade. Em muitos, há incontestavelmente, uma culposa despreocupação, mas em muitos outros a intenção é boa, é o remédio que nada vale, ou que é mal aplicado. Sendo os primeiros médicos da alma dos filhos, deveriam ser instruídos, não só de seus deveres, mas dos meios de cumpri-los. Não basta ao médico saber que deve procurar curar: é preciso saber como agir. Ora, para os pais, onde estão os meios de instruir-se nesta parte tão importante de sua tarefa? Hoje dá-se muita instrução à mulher; fazem-na passar por exames rigorosos; mas algum dia foi exigido da mãe que soubesse como fazer para formar o moral de seu filho? Ensinam-lhe receitas caseiras; mas lhe foi iniciada aos mil e um segredos de governar os jovens corações? Assim, os pais são abandonados, sem guia, à sua iniciativa; eis porque tantas vezes seguem caminhos errados; também recolhem, nos erros dos filhos já crescidos, o fruto amargo de sua inexperiência ou de uma ternura mal entendida, e a sociedade inteira lhes recebe o contragolpe.

    Desde que é reconhecido que o egoísmo e o orgulho são a fonte da maioria das misérias humanas; que enquanto reinarem na terra não se pode esperar nem a paz, nem a caridade, nem a fraternidade, então é preciso atacá-los no estado de embrião, sem esperar que fiquem vivazes.

    Pode o Espiritismo remediar esse mal? Sem nenhuma dúvida; e não hesitamos em dizer que é o único suficientemente poderoso para fazê-lo cessar. Por um novo ponto de vista, do qual faz observar a missão e a responsabilidade dos pais; fazendo conhecer a fonte das qualidades inatas, boas ou más; mostrando a ação que se pode exercer sobre os Espíritos encarnados e desencarnados; dando a fé inquebrantável, que sanciona os deveres; enfim, moralizando os próprios pais. Ele já prova sua eficácia pela maneira mais racional pela qual são educadas as crianças nas famílias verdadeiramente Espíritas. Os novos horizontes que abre o Espiritismo fazem ver as coisas de outra maneira. Sendo o seu objetivo o progresso moral da humanidade, forçosamente deverá iluminar o grave problema da educação moral, primeira fonte da moralização das massas. Um dia compreender-se-á que este ramo da educação tem seus princípios, suas regras, como a educação intelectual, numa palavra, que é uma verdadeira ciência. Talvez um dia, também, será imposta a toda mãe de família a obrigação de possuir esses conhecimentos, como se impõe ao advogado a de conhecer o Direito.