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Aos cuidados de Maria Carolina Gurgacz.

QUALQUER PESSOA PODE...

O Evangelho segundo o Espiritismo.

Autoridade da doutrina espírita

Qualquer que fosse a classe a que pertencesse, tal intérprete houvera sido objeto das prevenções de muita gente e nem todas as nações o teriam aceitado, ao passo que os Espíritos, comunicando-se em todos os pontos da Terra, a todos os povos, a todas as seitas, a todos os partidos, são aceitos por todos. O Espiritismo não tem nacionalidade e não faz parte de nenhum culto existente; nenhuma classe social o impõe, visto que qualquer pessoa pode receber instruções de seus parentes e amigos de além-túmulo.



O ESPIRITISMO APENAS PEDE SEJA CONHECIDO

Revista Espírita. Setembro, 1866.

É um fato constatado que desde que a crítica visou o Espiritismo, mostrou a mais completa ignorância de seus princípios, ainda os mais elementares. Ela o provou superabundantemente, fazendo-o dizer precisamente o contrário do que ele diz, atribuindo-lhe idéias diametralmente opostas às que ele professa. Para ela, sendo o Espiritismo uma fantasia, disse de si para si: "Ele deve dizer e pensar tal coisa." Numa palavra, julgou pelo que imaginou pudesse ele ser, e não pelo que é realmente. Sem dúvida, fácil lhe era esclarecer-se. Mas para isto era preciso ler, estudar, aprofundar uma doutrina puramente filosófica, analisar o pensamento, sondar o alcance das palavras. Ora, isto é um trabalho sério, não do gosto de todo o mundo e até fatigante para alguns. A maior parte dos escritores, encontrando nos escritos de alguns de seus confrades um julgamento acabado, de acordo com suas idéias cépticas, aceitara o fundo sem mais exame, limitando-se a lhes bordar algumas variantes na forma. Foi assim que as mais falsas idéias se propagaram, como ecos da Presse e daí numa parte do público.

Isto, entretanto, não poderia ter senão um tempo. A Doutrina Espírita, que nada tem de oculto, que é clara, precisa, sem alegoria, nem ambigüidades, sem fórmulas abstratas, deveria acabar sendo melhor conhecida. A mesma violência, com a qual era atacada, devia provocar o seu exame. Foi o que aconteceu e provoca a reação que hoje se nota. Não quer isto dizer que todos os que a estudam, mesmo seriamente, devam tornar-se seus apóstolos. Certo que não.
Mas é impossível que um estudo atento, feito sem idéia preconcebida, ao menos não atenue a prevenção que se tinha concebido, se não a dissipar completamente. Era evidente que a hostilidade de que era objeto o Espiritismo, deveria conduzir a este resultado. E por isto que jamais tivemos preocupações a respeito.

Porque o Espiritismo faz menos ruído neste momento, algumas pessoas imaginam que há uma estagnação em sua marcha progressiva. Mas então não vale nada a reviravolta que se opera na opinião? Será uma conquista insignificante ser visto com maus olhos? Desde o princípio o Espiritismo ligou a si todos aqueles em quem essas idéias estavam, por assim dizer, no estado de intuição. Bastou mostrar-se para ser aceito com entusiasmo. E o que explica seu rápido crescimento numérico. Hoje que colheu o que estava maduro, age sobre a massa refratária. O trabalho é mais demorado, os meios de ação são diferentes e apropriados à natureza das dificuldades. Mas, pelas flutuações da opinião sente-se que essa massa se abala ao machado dos Espíritos que a ferem incessantemente de mil maneiras. Por ser menos aparente, o progresso não é menos real: é como o de uma construção que sobe com rapidez e que parece parar quando se trabalha no interior.

Quanto aos Espíritas, o primeiro momento foi de entusiasmo. Mas um estado de superexcitação não pode ser permanente: ao movimento expansivo exterior, sucedeu um estado mais calmo; a fé também é viva, posto mais fria, mais racional e, por isto mesmo, mais sólida. A efervescência deu lugar a uma satisfação íntima mais suave, dia a dia melhor apreciada, pela serenidade que proporciona a inabalável confiança no futuro.

Hoje, pois, o Espiritismo começa a ser julgado de outro ponto de vista, Não o acham mais tão estranho e tão ridículo, porque o conhecem melhor; os Espíritas não mais são apontados a dedo, como animais curiosos; se muitas pessoas ainda repetem o fato das manifestações, que não podem conciliar com a idéia que fazem do mundo invisível, não mais contestam o alcance filosófico da doutrina. Quer seja a moral velha ou nova, nem por isso deixa de ser uma doutrina moral, que não pode senão excitar ao bem os que a professam. E o que reconhece quem quer que julgue com conhecimento de causa. Agora, tudo quanto censuram aos Espíritas é crer na comunicação dos Espíritos; mas lhes desculpam essa pequena fraqueza em favor do resto. Sobre este ponto os Espíritos encarregam-se de mostrar se existem.

OS MÁRTIRES DO ESPIRITISMO

Revista Espírita. Abril, 1862.

A propósito dos milagres do Espiritismo, que nos haviam proposto e de que tratamos no último número, também nos propuseram esta pergunta: os mártires selaram com sangue a verdade do cristianismo; o Espiritismo tem mártires?

Tendes mesmo muito interesse em ver os Espíritos sobre a fogueira ou lançados às feras! Isso leva a supor que não vos falta boa vontade, caso isso ainda fosse possível. Quereis à fina força pôr o Espiritismo no nível de uma religião! Notai, porém, que ele jamais pretendeu isso; jamais se arvorou em rival do Cristianismo, do qual se declara filho. Ele combate os seus mais cruéis inimigos: o ateísmo e o materialismo, Mais uma vez, é uma filosofia que repousa sobre as bases fundamentais de toda religião e sobre a moral do Cristo. Se renegasse o Cristianismo, ele se desmentiria, suicidar-se-ia. São os seus inimigos que o mostram como uma nova seita, que lhe deram sacerdotes e alto clero. Estes gritarão tantas e tantas vezes que é uma religião, que a gente acabaria acreditando. Será necessário ser uma religião para ter mártires? As ciências, as artes, o gênio, o trabalho em todos os tempos não têm tido os seus mártires, tanto quanto as idéias novas?

Não ajudam a fazer mártires os que apontam os espíritas como condenados, como párias a cujo contato se deve fugir; que açulam contra eles a população ignorante, e chegam, até, a lhes roubar os recursos do trabalho, esperando vencê-los pela fome, em falta de bons argumentos? Bela vitória, se triunfassem! Mas a semente está lançada e germina em toda a parte. Se é cortada num lugar, brota em cem outros. Tentai então ceifar toda a Terra!

RESULTADO DA LEITURA DAS OBRAS ESPÍRITAS

Revista Espírita. Abril, 1863.

Carta de Michel de Lyon

Eu fui, sucessivamente, católico fervoroso, fatalista, materialista, filósofo resignado. Mas dou graças a Deus por não ter sido ateu. Eu praguejava contra a Providência, sem contudo negar a Deus.

Para mim, de há muito, as chamas do inferno estavam extintas; mas, contudo, meu Espírito não estava tranqüilo quanto ao futuro. Os prazeres celestes preconizados pela Igreja não tinham atrativos suficientes para exortarem à virtude, entretanto, raramente a consciência aprovava a minha conduta. Estava em continua dúvida. Apropriando-me do pensamento de um filósofo de que "a consciência foi dada ao homem para o vexar", eu tinha chegado à conclusão de que o homem deve evitar tudo quanto o possa embrulhar com a consciência. Assim, teria evitado cometer uma grande falta porque minha consciência a isso se opunha; teria praticado algumas boas obras para experimentar a satisfação que elas provocavam. Mas nada via além. A natureza me havia tirado do nada; a morte devia levar-me ao nada. este pensamento por vezes me mergulhava numa profunda tristeza. Mas, por mais que consultasse, que buscasse, nada me dava a palavra do enigma. As disposições sociais me chocavam; muitas vezes indagava por que havia nascido no sopé da escada, onde me achava tão mal colocado. Não podendo dar a resposta, dizia: o acaso!

Uma consideração de outro gênero me fazia sentir horror do nada! De que valia instruir-se? Para brilhar num salão?... é preciso fortuna. Para se tornar um poeta, um grande escritor?... é preciso um talento natural. Mas para mim, simples artesão, talvez destinado a morrer sobre o banco de trabalho, ao qual me liguei por necessidade de ganhar o pão diário... para que instruir-me? Eu não sabia quase nada e isso já era muito, pois nada me servia em vida e devia apagar-se com a morte. Tal pensamento apresentava-se muitas vezes em meu Espírito. Eu tinha chegado a maldizer essa instrução dada gratuita ao filho do operário. Posto que muito exígua, muito incompleta, essa instrução me parecia supérflua e não só nociva à felicidade do pobre, mas incompatível com as exigências de sua condição. Em minha opinião era uma calamidade a mais para o pobre, pois lhe dava a compreender a importância do mal sem lhe indicar o remédio. É fácil explicar os sofrimentos morais de um homem, que, sentindo bater no peito um coração nobre, é obrigado a curvar. a sua inteligência à vontade de um Individuo do qual um punhado de escudos, por vezes mal adquiridos, constitui todo o mérito e todo o saber.

E então que se precisa apelar à filosofia. E olhando o topo da escada, a gente diz: o dinheiro não faz a felicidade. Depois, olhando para baixo, vêem-se criaturas numa posição inferior à sua e se acrescenta: Tenhamos paciência; há outras a lamentar mais que nós. Mas se, por vezes, essa filosofia dá resignação, jamais produz a felicidade.

Eu estava nessa situação quando o Espiritismo veio tirar-me do atoleiro de provas e de incertezas, onde me afundava cada vez mais, a despeito dos esforços para sair.

Durante dois anos ouvi falar do Espiritismo sem lhe dar atenção séria. Julgava, como diziam seus adversários, tratar-se de mais uma palhaçada. Mas, enfim, fatigado de ouvir falar de uma coisa da qual apenas sabia o nome, resolvi instruir-me. Adquiri O livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns. Li, ou melhor, devorei essas duas obras com uma avidez e uma satisfação impossível de definir. Qual não foi minha surpresa, lançando os olhos sobre as primeiras páginas, ao ver que se tratava de filosofia moral e religiosa, quando eu esperava ler um tratado de magia acompanhado de histórias maravilhosas! Logo a surpresa deu lugar à convicção e ao reconhecimento. Quando terminei a leitura, percebi com felicidade que era Espírita há muito tempo. Agradeci a Deus que me concedia este insigne favor De agora em diante poderei orar sem temer que minhas preces se percam no espaço e suportarei com alegria as tribulações desta curta existência, sabendo que a minha miséria atual não passa de justa conseqüência de um passado culposo ou um período de prova para alcançar um futuro melhor. Não mais a dúvida. A justiça e a lógica nos desvendam a verdade. E nós aclamamos com felicidade esta benfeitora humanidade.

A INGRATIDÃO (Sócrates)

Revista Espírita. Março de 1861.

(ENVIADA PELO SR. PICHON, MÉDIUM DE SENS)

É preciso sempre ajudar aos fracos e aos que desejam fazer o bem, embora saibam de antemão que não se será recompensado por aqueles a quem o fazemos, porque aquele que se recusa a vos ser grato pela assistência que lhe destes, nem sempre é tão ingrato quanto o imaginais; muitas vezes age segundo o ponto de vista determinado por Deus; mas os seus pontos de vista não são, e muitas vezes não podem ser apreciados por vós. Baste-vos saber que é necessário fazer o bem por dever e por amor de Deus, pois disse Jesus: "Aquele que faz o bem por interesse já recebeu sua recompensa". Sabei que se aquele a quem prestais serviço esquece o benefício, Deus vo-lo terá mais em conta do que se já tivésseis sido recompensado pela gratidão do vosso favorecido.


 

SÓCRATES

EGOÍSMO E ORGULHO (Pascal)

Revista Espírita. Outubro de 1861.

(SOCIEDADE ESPÍRITA DE SENS)

Se os homens se amassem com amor comum, a caridade seria melhor praticada. Mas seria necessário que vos esforçásseis para vos desembaraçardes desta couraça que cobre os vossos corações a fim de serdes mais sensíveis aos corações que sofrem. A rijeza mata os bons sentimentos; o Cristo não desanimava; aquele que a ele se dirigisse, fosse quem fosse, não era repelido: a mulher adúltera e o criminoso eram por ele socorridos; jamais temia que sua própria reputação sofresse por isso. Quando, pois, o tomareis por modelo de todas as vossas ações? Se a caridade reinasse na Terra, o mau não teria domínio; fugiria envergonhado; ocultar-se-ia, porque em toda parte sentir-se-ia deslocado. Então o mal desapareceria da face da Terra: convencei-vos disto. Começai por dar exemplo, vós mesmos; sede caridosos para com todos, indistintamente; esforçai-vos por tomar o hábito de não mais notar os que vos olham com desdém; crede sempre que eles merecem vossa simpatia e deixai a Deus o cuidado de toda justiça, porque a cada dia, em seu reino, ele separa o joio do trigo. O egoísmo é a negação da caridade. Ora, sem caridade não há repouso na sociedade. Digo mais: nem segurança; com o egoísmo e o orgulho, que se dão as mãos, será sempre uma corrida ao mais ágil, uma luta de interesses, onde são calcadas aos pés as mais santas afeições, onde nem mesmo os laços sagrados da família são respeitados.


 

PASCAL


 


 

DO PROJETO DE CAIXA GERAL DE SOCORRO E OUTRAS INSTITUIÇÕES PARA OS ESPÍRITAS

Revista Espírita. Julho de 1866.

Num dos grupos espíritas de Paris um médium recebeu ultimamente a comunicação que segue, do Espírito de sua avó:

"Meu caro filho, vou falar-te um instante das questões de caridade, que te preocupavam esta manhã, a caminho do trabalho.

"As crianças que são entregues a amas mercenárias; as mulheres pobres que são forçadas, com desprezo do pudor que lhes é caro, a servir nos hospitais de material experimental aos médicos e aos estudantes de medicina, são duas grandes chagas que todos os bons corações devem aplicar-se em curar. e isto não é impossível. Que os Espíritas façam como os católicos: que se imponham um tanto por semana e capitalizem esses recursos: chegarão a fundações sérias, grandes e realmente eficazes. A caridade que alivia um mal presente é uma caridade santa, que encorajo com todas as minhas forças; mas a caridade que se perpetua em fundações imortais como as misérias que é destinada a aliviar, é a caridade inteligente e que me tornaria feliz ao vê-la posta em prática.

"Gostaria que um trabalho fosse elaborado com o fito de criar, de inicio um primeiro estabelecimento de proporções restritas, Quando se tivesse visto o bom resultado dessa primeira criação, passar-se-ia a outra, que seria aumentada pouco a pouco, como Deus quer que seja aumentada, porque o progresso se realiza por uma marcha lenta, sábia, calculada. Repito que o que proponho não é difícil; não haverá um único espírita verdadeiro que ousasse faltar ao apelo para o alívio de seus semelhantes, e os Espíritas são bastante numerosos para formar, pelo acúmulo de um tanto por semana, um capital suficiente para um primeiro estabelecimento ao serviço das mulheres doentes, que seriam cuidadas por mulheres e que cessariam então de ocultar seus sofrimentos para salvar o seu pudor.

"Entrego estas reflexões à meditação das pessoas benevolentes que assistem à sessão e estou convicta que elas darão bons frutos. Os grupos de província ligar-se-iam prontamente a uma idéia tão bela e, ao mesmo tempo, tão útil e paternal. Aliás seria um monumento do valor moral do espiritismo tão caluniado e que o será ainda por muito tempo encarniçadamente.

"Eu disse que a caridade local é boa: aproveita a um indivíduo, mais não eleva o espírito das massas como uma obra duradoura. Não seria dado que se pudesse repelir a calúnias dizendo aos caluniadores:

"Eis o que nós fizemos. A árvore se reconhece pelo fruto; a árvore má não dá bons frutos, e a boa árvore não os dá maus."

"Pensai também nas pobres crianças que saem dos hospitais e que vão morrer em mãos mercenárias, dois crimes simultâneos: o de entregar a criança desarmada e fraca e o crime do que a sacrificou sem piedade. Que todos os corações elevem seus pensamentos para as tristes vítimas da sociedade improvidente, e que procurem encontrar uma boa solução para as salvar de suas misérias. Deus quer que se tente, e dá os meios de o alcançar; é preciso agir. Triunfa-se quando se tem fé e a fé transporta montanhas. Que o Sr. Kardec trate a questão, em seu jornal e vereis, como será aclamada com dedicação e entusiasmo.

"Eu disse que em preciso um monumento material, que atestasse a fé dos Espíritas, como as pirâmides do Egito atestam a vaidade dos Faraós; mas, em vez de fazer loucuras, fazei obras que levam o cunho do próprio Deus. Todo o mundo deve compreender-me; não insisto.

"Retiro-me, meu caro filho, Tua boa avó, como o vês ama sempre os seus netos, como te amava quando eras criancinha. Que tu os ames como eu, e que penses em encontrar uma boa organização. Poderás se o quiseres e, se necessário, nos te ajudaremos. Eu te abençôo."

MARIEG

A idéia de uma caixa central e geral de socorro, formada entre os Espíritas já foi concebida e emitida por homens animados de excelentes intenções, mas não basta que uma idéia seja grande, bela e generosa antes de tudo seja praticável. Certamente demos mostras suficientes de nosso devotamento à causa do Espiritismo, para não ser suspeito de indiferença a respeito. Ora, é precisamente por força de nossa mesma solicitude, que buscamos por em guarda contra o entusiasmo que cega.

Antes de empreender uma coisa, é preciso friamente calcular-lhe o pró e o contra, a fim de evitar choques sempre desagradáveis, que não deixariam de ser explorados por nossos adversários, O Espiritismo só deve marchar com passo firme e quando põe o pé num lugar, deve estar seguro de pisar terreno firme. Nem sempre a vitória é do mais apressado, mas muito mais seguramente do que sabe aguardar o momento propício.
Há resultados que não podem ser senão obra do tempo e da infiltração da idéia no espírito das massas. Saibamos, pois, esperar que a árvore esteja formada, antes de lhe pedir uma colheita abundante.

Desde muito tempo nós vos propúnhamos tratar a fundo da questão em tela, para a colocar no seu verdadeiro terreno e premunir contra as ilusões de projetos mais generosos do que refletidos, e cujo abortamento teria conseqüências lamentáveis. A comunicação relatada acima, e sobre a qual tiveram a bondade de pedir nossa opinião, não oferece uma ocasião muito natural. Examinaremos, pois, tanto o projeto de centralização de recursos, quanto o de algumas outras instituições e estabelecimentos especiais para o Espiritismo.

Antes de tudo convém dar-se conta do estado real das coisas. Sem dúvida os Espíritas são muito numerosos e seu número cresce incessantemente. Sob esse ponto oferece um espetáculo único, o de uma propagação incrível na história das doutrinas filosofias porque não há uma só, sem excetuar o cristianismo, que tenha ligado tantos partidários em tão curto número de anos. isto é um fato notório, que confunde os próprios antagonistas. E o que não é menos característico, é que essa propagação, em vez de fazer-se num centro único, opera-se simultaneamente em toda a superfície do globo e em milhares de centros. Disso resulta que os adeptos, posto sejam muito numerosos ainda não formam, em parte alguma, uma aglomeração compacta.

Esta dispersão, que à primeira vista parece uma causa de fraqueza, é, ao contrário, um elemento de força com mil Espíritas disseminados num país fazem mais pela propagação da idéia do que se estivessem amontoados numa cidade. Cada individualidade é um foco de ação, um germe que produz brotos; por sua vez, cada broto produz mais ou menos e os ramos se reúnem pouco a pouco e cobrem a região mais prontamente do que se a ação partisse de um ponto único: é absolutamente como se um punhado de grãos tivesse sido atirado ao vento, em vez de serem postas todas juntas no mesmo buraco. por esta quantidade de pequenos centros a doutrina ainda é menos vulnerável do que se tivesse um só, contra o qual os inimigos poderiam dirigir toda a sua força. Um exército primitivamente compacto, que se dispersou pela força ou por outra causa, é um exército perdido. Aqui o caso é diferente: a disseminação dos Espíritas não é um caso de dispersão; é o estado primitivo tendendo à concentração, para formar uma vasta unidade. A primeira está no fim; a segunda no seu nascimento.

Aqueles, pois, que se lamentam do seu isolamento numa localidade, respondemos: Agradecei ao céu, ao contrário, por vos haver escolhido para ai lançar as primeiras sementes. Talvez não germinem imediatamente; talvez não recolheis os frutos; talvez mesmo tenhais que sofrer em vosso trabalho, mas pensei que não se prepara uma terra sem trabalho e tende a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, o que tiverdes semeado frutificará. Quanto mais ingrata for a tarefa, mais méritos tereis, ainda quando apenas rasgásseis o caminho aos que vierem depois de vós.

Sem duvida se os Espíritas devessem ficar sempre no estado de isolamento, seria uma causa permanente de fraqueza; mas a experiência prova a que ponto a doutrina é vivaz; e sabe-se que para ramo abatido há dez que renascem. Sua generalização é, pois, uma questão de tempo. Ora, por mais rápida que seja a sua marcha, ainda é preciso tempo suficiente e, enquanto se trabalha a obra, é preciso saber esperar que o fruto esteja maduro antes de colher.

Em disseminação momentânea dos Espíritas, essencialmente favorável à propagação da doutrina, é um obstáculo à execução de obras coletivas de certa importância, pela dificuldade, se não mesmo pela impossibilidade, de reunir num mesmo ponto elementos bastante numerosos.

Dirão que é precisamente para obviar esse inconveniente, para apertar os laços de confraternidade entre os membros isolados da grande família espírita, que se propõe a criação de uma caixa central de socorro. Certo aqui está um pensamento grande e generoso, que seduz à primeira vista. Mas já se refletiu nas dificuldades de execução?

Uma primeira questão apresenta-se. Até onde estender-se-ia a ação dessa caixa? Limitar-se-ia à França, ou compreenderia os outros países? Há Espíritas em todo o globo. Os de todos os países de todas as castas, de todos os cultos não são nossos irmãos? Se, pois, a caixa recebesse contribuições de Espíritas estrangeiros, o que aconteceria infalivelmente, teria o direito de limitar sua assistência a uma única nacionalidade? Poderia conscienciosamente e caridosamente perguntar ao que sofre se é russo, polonês, alemão, espanhol, italiano ou francês? A menos que faltasse ao seu título, ao seu objetivo, ao seu dever, deveria estender a sua ação do Peru à China. Basta pensar na complicação das engrenagens de uma tal empresa para ver quanto ela é quimérica.

Suponhamo-la circunscrita à França e não seria menos uma administração colossal, um verdadeiro ministério. Quem quereria assumir a responsabilidade de um tal manejo de fundos? Para uma gestão dessa natureza não bastariam integridade e devotamento: seria necessária uma alta capacidade administrativa. Admitamos, entretanto, vencidas as primeiras dificuldades: como exercer um controle eficaz sobre a extensão e a realidade das necessidades, sobre a sinceridade da qualidade de Espírita? Uma semelhante instituição em breve veria surgirem adeptos ou que tais se dizem, aos milhões; mas não seriam estes que iriam alimentar a caixa. Do momento em que esta existisse, julgá-la-iam inesgotável e em breve ela se veria impossibilitada de satisfazer a todas as exigências de seu mandato. Fundada em tão vasta escala consideramo-la como impraticável e por nossa conta pessoal não lhe daríamos a mão.

Por outro lado, não teria ela que temer oposição à sua constituição? O Espiritismo apenas nasce e ainda não está, por toda a parte, em odor de santidade, para que se julgue ao abrigo de suposições malévolas. Não poderiam enganar-se quanto às suas intenções numa operação de tal gênero? Não podiam supor que, sob uma capa, oculte ele outro objetivo? Numa palavra, fazer assimilações, de que seus adversários alegariam exceção de justiça para excitar a desconfiança contra si? Por sua natureza, o Espiritismo nem pode ser uma filiação, nem uma congregação. Deve, pois, no seu próprio interesse, evitar tudo quanto lhe desse aquela aparência.

Então é preciso que, por medo, o Espiritismo fique estacionário? Não é agindo, perguntarão, que ele mostrará o que é, que dissipava as desconfianças e vencerá a calúnia? Sem nenhuma dúvida; mas não se deve pedir à criança o que exige as forças da idade viril. Longe de servir ao Espiritismo, seria comprometê-lo e expô-lo aos golpes e à chacota dos adversários, misturar o seu nome a coisas quiméricas. Certo que ele deve agir, mas no limite do possível. Deixemo-lo, pois, tempo de adquirir as forças necessárias e então dará mais do que se pensa. Nem mesmo está completamente constituído em teoria. Como querem que dê o que só pode ser resultado do complemento de doutrina?

Aliás há outras considerações que importa levar em conta.

O Espiritismo é uma crença filosófica e basta simpatizar com os princípios Fundamentais da doutrina para ser Espírita. Falamos dos Espíritas convictos e não dos que afivelam a máscara, por motivos de interesses ou outros também pouco confessáveis. Esses não fazem número; neles não há nenhuma convicção. Dizem-se Espíritas hoje na esperança de ai encontrar vantagens; serão adversários amanhã, se não encontrarem o que buscam; ou então far-se-ão vitimas de sua dedicação fictícia, e acusarão os Espíritas de ingratidão por não os sustentar. Não seriam os últimos a explorar a caixa geral, para se compensar de abortadas ou reparar desastres causados por sua incúria ou sua imprevidência e a lhe atirar a pedra, se ela não os satisfaz. Não é para admirar, pois todas as crenças contam com semelhantes auxiliares e vêem a representação de semelhantes comédias.

Há também a massa considerável dos Espíritas de intuição; os que não pela tendência e pela predisposição de idéias, sem estudo prévio; os indecisos, que ainda flutuam, a espera dos elementos de convicção, que lhes são necessários. Sem exagero, podem ser avaliados em um quarto da população. E a grande pepineira, onde se recrutam os adeptos, mas ainda não contam no número.

Entre os Espíritas reais, os que constituem o verdadeiro corpo dos aderentes, há certas distinções a fazer. Em primeira linha há que colocar os adeptos de coração, animados de fé sincera, que compreendem o objetivo e o alcance da doutrina e lhe aceitam todas as conseqüências para si mesmos; seu devotamento é a toda prova e sem segunda intenção; os interesses da causa que são os da humanidade, lhes não sagrados e jamais os sacrificarão a uma questão de amor-próprio ou de interesse pessoal. Para eles o lado moral não é simples teoria: esforçam-se por pregar pelo exemplo: não só têm a coragem de sua opinião; consideram-na uma glória e, conforme a necessidade, sabem pagar com sua pessoa.

Vêm a seguir os que aceitam a idéia como filosofia, porque lhes satisfaz a visão, mas cuja fibra moral não é suficientemente tocada. Para compreender as obrigações que a doutrina impõe aos que a assimilam. O homem velho está sempre lá e a reforma de si mesmo lhes parece tarefa muito pesada. Mas como não estão menos firmemente convencidos, entre eles encontram-se propagadores e zelosos defensores.

Depois há pessoas levianas, para quem o espiritismo está todo inteiro nas manifestações. Para estes é um fato e nada mais. O lado filosófico passa inapercebido, O atrativo de curiosidade é para eles o móvel principal. Extasiam-se ante o fenômeno e ficam frios ante uma conseqüência moral.

Enfim, há o número ainda muito grande dos Espíritas mais ou menos sérios, que não puderam colocar-se acima dos preconceitos e do que dirão, retidos pelo medo do ridículo; aqueles que consideramos pessoais ou de família, e interesses por vezes respeitáveis a defender, de certo modo forçam a manter-se afastadas. Todos esses, numa palavra, que por uma ou por outra causa, boa ou má, não se põem em evidencia. A maioria não desejava mais do que confessar-se; umas não ousam ou não o podem. Isto virá mais tarde, à medida que virem outros fazê-los e que não há perigo. Serão os Espíritas de amanha como outros são os da véspera. Contudo, não se pode querer muito deles, porque é preciso uma força de caráter, que não é dada a todos, para enfrentar a opinião em certos casos. E necessário, pois, dar lugar à fraqueza humana. O Espiritismo não tem o privilégio de transformar subitamente a humanidade e se a gente pode admirar-se de uma coisa é do número de reformas que ele já operou em tão pouco tempo. Ao passo que nuns, onde ele encontra o terreno preparado, entra, por assim dizer, de uma vez, noutros só penetra gota a gota, conforme a resistência que encontra no caráter e nos hábitos.

Todos esses adeptos se incluem no número, e por mais imperfeitos que sejam, são sempre úteis, posto que em limites restritos. Até nova ordem, se não servissem senão para diminuir as fileiras da oposição já seria alguma ciosa. E por isso que não se deve desdenhar nenhuma adesão sincera, mesmo parcial.

Mas quando se trata de uma obra coletiva importante, onde cada um deve trazer seu contingente de ação, como seria a de uma caixa geral, por exemplo, convém fazer entrarem essas considerações em linha de conta, porque a eficácia do concurso que se pode esperar está na razão da categoria a que pertencem os adeptos. E bem evidente que não se pode contar muito com os que não levam a sério o lado moral da doutrina e, ainda menos, com os que não ousam mostrar-se.

Restam, pois, os adeptos de primeira categoria. Certo, destes tudo se pode esperar; são soldados de vanguarda e que o mais das vezes só esperam a chamada, quando se trata de dar prova de abnegação e de devotamento, mas numa cooperativa financeira, cada um contribui conforme os seus recursos e o pobre não pode dar senão o seu óbolo. Aos olhos de Deus este tem um grande valor, mas para as necessidades materiais tem apenas o seu valor intrínseco. Desfalcando todos aqueles cujos meios de subsistência são limitados, aqueles próprios que vivem ao Deus dará, o número dos que poderiam contribuir um pouco largamente e de maneira eficaz é relativamente restrito.

Uma observação ao mesmo tempo interessante e instrutiva é a da proporção dos adeptos segundo as categorias. Essa proporção variou sensivelmente e se modifica em razão de progresso da doutrina. Mas neste momento pode ser avaliada, aproximadamente, da maneira seguinte: 1ª
categoria, Espíritas completos, de coração e devotamento, 10%; 2ª
categoria, Espíritas incompletos, buscando mais o lado científico que o lado moral, 25%;3ª
categoria, Espíritas levianos, só interessados nos fatos materiais 30%, (esta proporção era inversa há dez anos); 4ª
categoria, Espíritas não confessos ou que se ocultam, 60%.

Relativamente à posição social, podem fazer-se duas classes gerais: de um lado, aqueles cuja fortuna é independente; do outro, os que vivem do trabalho. Em 100 Espíritas da 1ª
categoria, há em média 5 ricos para 95 trabalhadores; na 2ª,
70 ricos para 30 trabalhadores; na 3ª,
80 ricos para 20 trabalhadores; e na 4ª,
99 ricos para l trabalhador.

Seria ilusão pensar que em tais condições uma caixa geral pudesse satisfazer a todas as necessidades quando a do mais rico banqueiro não bastaria. Não seriam milhares de francos necessários anualmente, mas alguns milhões.

De onde essa diferença na proporção entre os que são ricos e os que não o são? A razão é muito simples: os aflitos acham no Espiritismo uma imensa consolação, que os ajuda a suportar o fardo das misérias da vida; dá-lhes a razão dessas misérias e a certeza de uma compensação. Assim, não é surpreendente que, gozando mais beneficio, o apreciem mais e o tomem mais a sério do que os felizes do mundo.

Admiraram-se de que, quando semelhantes projetos vieram a público, nós não tivéssemos apressado em os apoiar e os patrocinar. E que, antes de tudo pegamo-nos a idéias positivas e práticas; o Espiritismo é para nós uma coisa muito séria, para o empenhar prematuramente em vias onde pudesse encontrar decepções. De nossa parte, não há nisso nem despreocupação nem pusilanimidade, mas prudência e sempre que estiver maduro para ir à frente não ficaremos na retaguarda.

Não é que nos atribuamos mais perspicácia do que aos outros; mas a nossa posição, permitindo-nos a visão de conjunto, permite-nos julgar o forte e o fraco talvez melhor do que os que se acham num círculo mais restrito. Aliás damos a nossa opinião e não pretendemos impô-la a ninguém.

O    que acaba de ser dito a respeito da criação de uma caixa geral e central de socorro, aplica-se naturalmente aos projetos de fundações de estabelecimentos hospitalares e outros. Ora, aqui a utopia é ainda mais evidente, Se é fácil lançar um projeto sobre o papel, não é o mesmo quando se chega às vias e meios de execução. Construir um edifício ad hoc já é enorme; é quando estivesse pronto, seria preciso prove-lo de pessoal suficiente e capaz, depois assegurar a sua manutenção, porque tais estabelecimentos custam muito e nada rendem.
Não são apenas grandes capitais que se requerem, mas grandes rendimentos. Admitamos, entretanto, que à força de perseverança e de sacrifícios chegue-se a criar, como o dizem, um pequeno modelo; quão pequenas não seriam as necessidades a que poderia satisfazer em relação a massa e a disseminação dos necessitados em uma vasta região! Seria uma gota d'água num riacho; e, se há tantas dificuldades para um só, mesmo em pequena escala, muito pior seria se se tratasse de os multiplicar. O dinheiro assim empregado não aproveitaria, pois, na realidade, senão, a alguns indivíduos, ao passo que, judiciosamente repartidos, ajudaria a viver um grande número de infelizes.

Seria um modelo, um exemplo. Seja. Mas porque aplicar-se em criar quimeras, quando as coisas existem prontas, montadas, organizadas, com meios poderosos que jamais disporão os particulares?
Esses estabelecimentos deixam desejar; há abusos; não correspondem a todas as necessidades, isto é evidente e, contudo, e se os compara ao que eram há menos de um século, constata-se uma imensa diferença e com progresso constante; cada dia vê-se a introdução de um melhoramento. Não se poderia pois duvidar que com o tempo novos progressos fossem realizados pela força das coisas. As idéias espíritas devem, infalivelmente, apressar a reforma de todos os abusos, porque, melhor que outras, penetram os homens com o sentimento de seus deveres, por toda a parte onde penetram, os abusos caem e o progresso se realiza. E necessário empenhar-se, pois, em as espalhar: ai está a coisa possível e pratica, a verdadeira alavanca, alavanca irresistível quando se tiver adquirido a força suficiente pelo desenvolvimento completo dos princípios e pelo número dos aderentes sérios. A julgar do futuro pelo presente, pode se afirmar que o Espiritismo terá levado à reforma de muitas coisas muito antes que os Espíritas tenham podido acabar o primeiro estabelecimento do gênero desse de que falamos, se algum dia o empreenderem, mesmo que tivessem de dar um cêntimo por semana. Porque, então, gastar energias em esforços supérfluos, em vez de as concentrar num ponto acessível e que seguramente deve conduzir ao objetivo? Mil adeptos ganhos para causa e espalhados em mil lugares diversos apressarão mais a marcha do progresso do que um edifício.

Diz o Espírito que ditou a comunicação acima que o Espiritismo deve se afirmar e mostrar o que é por um monumento durável, elevado a caridade, Mas de que serviria um monumento à caridade, se esta não estiver no coração?
Ele eleva um mais durável que um monumento de pedra: é a doutrina e suas conseqüências para o bem da humanidade. E nisto que cada um deve trabalhar com todas as suas forças porque este durará mais que as pirâmides do Egito.

Pelo fato de que esse Espírito se engana, segundo nós sobre tal ponto, isto nada lhe tira de suas qualidades: incontestavelmente está animado de excelentes sentimentos, Mas um Espírito pode ser muito bom, sem ser um apreciador infalível de todas as coisas; nem todo bom soldado é necessariamente um bom general.

Um projeto de realização menos quimérica é o da formação de sociedades de socorros mútuos entre os Espíritas de uma mesma localidade. Mas, ainda aqui, não se pode escapar a algumas das dificuldades que assinalamos: a falta de aglomeração e a cifra ainda pequena daqueles com os quais se pode contar para um concurso efetivo. Uma outra dificuldade vem da que assinalamos: que fazem dos Espíritas e de certas classes de indivíduos. Cada profissão apresenta uma delimitação claramente marcada. Pode facilmente estabelecer-se uma sociedade de socorros mútuos entre gente de uma mesma profissão, entre os de um culto, porque se distinguem por algo de característico, e por uma posição de certo modo oficial e reconhecida. Assim não se dá com os Espíritas, que não são registrados como tais em parte alguma e cuja crença é constatada por nenhuma caderneta. Há-os de todas as classes sociais, em todas as profissões, em todos os cultos, e em parte alguma se constituem em classe distinta. Sendo o Espiritismo uma crença fundada numa convicção íntima, da qual se devem contas a ninguém, quase que só se conhecem os que se põem em evidência ou freqüentem os grupos e não o número considerável dos que, sem se ocultar, não fazem parte de nenhuma reunião regular.

Eis por que, a despeito da certeza em que se esta de que os adeptos são numerosos, é difícil chegar a uma, cifra bastante, quando se trata de uma operação coletiva.

A respeito das sociedades de socorros mútuos, apresenta-se uma outra consideração. O espiritismo não forma, nem deve formar classe distinta pois se dirige a todos; por seu princípio mesmo deve estender sua caridade indistintamente, sem inquirir da crença, porque todos os homens são irmãos. Se fundar instituições de caridade exclusivas para os seus adeptos, é forçado a perguntar ao que reclama assistência: "Sois dos nossos? Que prova nos dais? Assim, nada podemos fazer por vos."Assim mereceria uma censura de intolerância, que dirige dos outro. Não, para fazer o bem, o Espiritismo não deve sondar a consciência e a opinião e, mesmo que tivesse diante de si um inimigo de sua fé, mas infeliz, deve vir em seu auxílio nos limites de suas faculdades. E agindo assim que o Espiritismo mostrará o que é e provará que vale mais que o que lhe opõem.

As sociedades de socorros mútuos se multiplicam por todos os lados e em todas as classes de trabalhadores. E uma excelente instituição, prelúdio do reino da fraternidade e da "solidariedade, de que se sente necessidade. Aproveitam aos Espíritas que delas participam, como a todo o mundo. Porque as fundar só para eles, com exclusão dos outros? Que ajudem a propagá-las, porque são úteis; que, para as tornar melhores nelas façam penetrar o elemento espírita, nelas penetrando eles próprios o que lhes seria mais proveitoso e para a doutrina. Em nome da caridade evangélica, inscrita em sua bandeira, em nome, dos interesse do Espiritismo, nós os concitamos a evitar tudo quanto pudesse estabelecer uma barreira entre eles e a sociedade. Agora que o progresso moral tende a destruir as que dividem os povos, o Espiritismo não as deve erguer; sua essência é de penetrar em toda a parte; sua missão, melhor tudo o que existe; ele falharia se se isolasse.

Deve a beneficência ficar individual e, neste caso sua ação não será mais limitada do que se for coletiva? A beneficência coletiva tem vantagens incontestáveis e, muito longe de a censurar, nós a, encorajamos. Nada mais fácil do que a praticar em grupos, recolhendo por meio de cotizações regulares ou de donativos facultativos os elementos de um fundo de socorro. Mas então, agindo num círculo restrito, o controle das verdadeiras necessidades é fácil; o conhecimento que delas se pode ter permite uma distribuição mais justa e mais proveitosa. Com uma módica quantia, bem distribuída e dada de propósito, podem ser prestados mais serviços reais que com uma grande soma dada sem conhecimento de causa e, por assim dizer ao acaso. E, pois, necessário se dar conta de certos detalhes, se não quiser gastar seus recursos sem proveito. Ora, compreende-se que tais cuidados seriam impossíveis se se operasse em vasta escala. Aqui nada de dédalo administrativo nada de pessoal burocrático. Algumas pessoas de boa-vontade, e eis tudo.

Não podemos senão encorajar com todas as forças a beneficência coletiva nos grupos espíritas. Nós a conhecemos em Paris, nas Províncias e no Estrangeiro, que são fundadas, senão exclusivamente, ao menos principalmente com esse objetivo, e cuja organização nada deixa a desejar. Lá, membros dedicados vão a domicílio inquirir dos sofrimentos e levar o que às vezes vale mais do que os socorros materiais: as consolações e o encorajamento. Honra a eles, porque bem merecem do Espiritismo! Que cada grupo assim haja em sua esfera de atividade e todos juntos realizarão maior soma de bens do que uma caixa central quatro vezes mais rica.

O LAR DE UMA FAMÍLIA ESPÍRITA

Revista Espírita. Setembro, 1859.

Há três anos a Sra. a... ficou viúva, com quatro crianças. O filho mais velho é um rapaz amável, de dezessete anos, e a filha mais moça uma encantadora menina de seis. Desde muito tempo essa família se dedica ao Espiritismo, e antes mesmo que esta crença se tivesse tornado tão popular como hoje, marido e mulher tinham uma espécie de intuição, que diversas circunstâncias haviam desenvolvido. O pai do Sr. G... lhe tinha aparecido várias vezes na mocidade, sempre para o prevenir de coisas importantes ou para lhe dar conselhos úteis. Fatos semelhantes também se haviam passado entre os seus amigos; de sorte que, para eles, a existência de além-túmulo não era objeto da menor dúvida, assim como não o era a possibilidade de nos comunicarmos com os seres que nos são caros.

Quando o Espiritismo surgiu, foi apenas a confirmação de uma idéia bem assentada e santificada pelo sentimento de uma religião esclarecida, pois aquela família é um modelo de piedade e de caridade evangélica. Na nova ciência aprenderam os meios mais diretos de comunicação. A mãe e um dos filhos tornaram-se excelentes médiuns. Mas, longe de empregar essa faculdade em questões fúteis, todos a consideravam como precioso dom da Providência, do qual não era permitido servir-se senso para coisas sérias. Assim, jamais a praticavam sem recolhimento e respeito, e longe das vistas dos importunos e curiosos.

Neste meio tempo o pai adoeceu e, pressentindo seu fim próximo, reuniu os filhos e lhes disse: "Meus caros filhos e minha amada mulher: Deus me chama para Ele; sinto que vou deixar-vos daqui a pouco; mas também sinto que por vossa fé na imortalidade encontrareis a força para suportar esta separação com coragem, assim como eu levo o consolo de que poderei sempre estar entre vós e vos ajudar com os meus conselhos. Assim, chamai-me quando eu não estiver mais na Terra. Virei sentar-me ao vosso lado, conversar convosco, como o fazem os nossos antepassados. Porque, na verdade, estaremos menos separados do que se eu partisse para uma terra distante. Minha cara esposa, deixo-te uma grande tarefa; mas, quanto mais pesada for, mais gloriosa será; tenho a certeza de que os nossos filhos te ajudarão a suportá-la. Não é, meus filhos? Auxiliareis a vossa mãe; evitareis tudo quanto possa fazê-la sofrer; sereis sempre bons e benevolentes para com todos; estendereis a mão aos vossos irmãos infelizes, porque não haveis de querer estendê-la um dia pedindo em vão para vós. Que a paz, a concórdia e a união reinem entre vós; que jamais o interesse vos separe, porque o interesse material é a maior barreira entre a Terra e o Céu. Pensai que estarei sempre junto a vós que vos verei como vos vejo neste momento, e ainda melhor, pois verei o vosso pensamento. Não queirais, assim, entristecer-me depois da morte, do mesmo modo que não o fizestes em minha vida".

E um espetáculo realmente edificante a vida dessa piedosa família. Alimentadas nas idéias espíritas, estas crianças não se consideram separadas do pai. Para elas, ele está presente; temem praticar a menor ação que o possa desagradar. Uma noite por semana, e às vezes mais, é consagrada a conversar com ele. Existem, porém, as necessidades da vida, que devem ser providas, pois a família não é rica. E por isso que um dia certo é marcado para essas conversas piedosas e sempre esperadas com impaciência. Muitas vezes pergunta a pequenina: "E hoje que papai vem"? Nesse dia realizam conversas familiares e recebem instruções proporcionadas à inteligência, por vezes infantis, por vezes graves e sublimes; são conselhos dados a propósito de pequenas travessuras que ele assinala, Se faz elogios, também não falta a critica, e o culpado baixa os olhos, como se o pai estivesse à sua frente; pede-lhe perdão e este por vezes só é concedido depois de algumas semanas de prova: sua sentença é esperada com febril ansiedade. Então, que alegria, quando o pai diz: "Estou contente contigo!" Entretanto, a mais terrível ameaça é dizer: "Não virei na próxima semana

A festa anual não é esquecida. E sempre um dia solene, para o qual convidam os avós e demais mortos da família, sem esquecer um irmãozinho, falecido há alguns anos. Os retratos são enfeitados de flores; cada criança prepara um pequeno trabalho, por vezes mesmo uma saudação tradicional; o mais velho faz uma dissertação sobre assunto grave; uma das meninas toca um trecho de música; a menor recita uma fábula. É o dia das grandes comunicações, e cada convidado recebe uma lembrança dos amigos que deixou na Terra.

Como são belas essas reuniões, na sua tocante simplicidade! Como tudo, ali, fala ao coração! Como é possível sair delas sem estar impregnado do amor do bem? Nenhum olhar de mofa, nenhum sorriso cético vem perturbar o piedoso recolhimento:

alguns amigos partilham das mesmas convicções e, devotados à religião da família, são os únicos admitidos a participar desse banquete do sentimento.

Ride quanto quiserdes, vós que zombais das coisas mais santas. Por mais soberbos e endurecidos que sejais, não vos faço a injúria de acreditar que o vosso orgulho possa ficar impassível e frio ante um tal espetáculo.

Um dia, entretanto, foi de luto para a família, dia de verdadeiro pesar: o pai havia anunciado que durante algum tempo, longo tempo mesmo, não poderia vir. Uma grande e importante missão o chamava longe da Terra. A festa anual não deixou de ser celebrada. Mas foi triste, pois o pai lá não estava. Partindo, havia dito: "Meus filhos, que em minha volta eu encontre todos dignos de mim", e cada um se esforça por tornar-se digno dele. Eles ainda esperam.

MEDIUNIDADE DE VIDÊNCIA NAS CRIANÇAS

Revista Espírita. Setembro de 1866.

De Caen escreve um dos nossos correspondentes:

"Ultimamente eu estava no hotel São Pedro, em Caen. Tomava um copo de cerveja, lendo um jornal. A filhinha da casa, creio de quatro anos, estava sentada à escadaria e comia cerejas. Não notava que eu a via e parecia entregue numa conversa com seres invisíveis, aos quais oferecia cerejas. Tudo o indicava: a fisionomia, os gestos, as inflexões da voz. Também se voltava bruscamente, dizendo: Tu, tu não as terás; não és boazinha. — Eis para ti, a uma outra. — Então que é o que me atiras? Perguntava a uma terceira. Dir-se-ia rodeada por outras meninas; ora se levantava, estendia as mãos, oferecendo o que tinha; ora os olhos seguiam objetos invisíveis para mim, e que a entristeciam ou faziam gargalhar. Esta cena durou mais de meia hora e a palestra só terminou quando a menina percebeu que eu a observava. Sei que muitas vezes crianças se divertem em apartes deste gênero, mas aqui era completamente diferente: o rosto e as maneiras refletiam impressões reais que não eram as de um brinquedo. Eu pensava que era, sem dúvida, um médium vidente nascente, e dizia, de mim para mim, que se todas as mães de famílias fossem iniciadas às leis do Espiritismo, aí colheriam numerosos casos de observação e se explicariam muitos fatos que passam inapercebidos, e cujo conhecimento lhes seria útil para a direção de seus filhos."

É lamentável que o nosso correspondente não tenha tido a idéia de interrogar essa menina quanto às pessoas com quem conversava. Teria podido assegurar-se se a conversa realmente tinha sido com seres invisíveis. E, neste caso, daí poderia ter saído uma instrução tanto mais importante quanto, sendo Espírita o nosso correspondente, e muito esclarecido, poderia dirigir utilmente as perguntas. Seja como for, muitos outros fatos provam que a mediunidade vidente é muito comum, se não mesmo geral, nas crianças, e isto é providencial. Ao sair da vida espiritual, os guias da criança acabam de a conduzir ao porto de desembarque para o mundo terreno, como vêm buscá-la em seu retomo. A elas se mostram nos primeiros tempos, para que não haja transição muito brusca; depois se apagam pouco a pouco, à medida que a criança cresce e pode agir em virtude de seu livre-arbítrio. Então a deixam às suas próprias forças, desaparecendo aos seus olhos, mas sem as perder de vista. A menina em questão, em vez de ser, como pensa o nosso correspondente, um médium vidente nascente, bem poderia estar em seu declínio, e não mais gozar desta faculdade para o resto da vida.

(Vide a Revista de fevereiro de 1865: Espíritos instrutores da infância).

UMA RECONCILIAÇÃO PELO ESPIRITISMO

Revista Espírita. Setembro, 1862.

Muitas vezes provou o Espiritismo sua benéfica influência restabelecendo a harmonia entre famílias e indivíduos. Disso temos numerosos exemplos, na maioria casos íntimos que nos foram confiados, por assim dizer, sob o selo da confissão e que, por isso, não podem ser revelados. Já não temos o mesmo escrúpulo para o que segue, de tocante interesse.

Um capitão da marinha mercante do Havre, nosso conhecido pessoal, é excelente espírita e bom médium. Havia iniciado ao Espiritismo vários homens de sua equipagem e só tinha motivos para se felicitar pela ordem, disciplina e bom comportamento. Tinha a bordo seu irmão de dezoito anos e um piloto de dezenove, ambos bons médiuns, animados de fé viva e que recebiam com fervor e reconhecimento os sábios conselhos dos Espíritos protetores. Uma noite, porém, discutiram. Das palavras foram a vias de fato. Assim, acertaram lugar e hora para se baterem a bordo, na manhã seguinte. Tomada a decisão, separaram-se. A noite sentiram vontade de escrever e, cada qual de seu lado, recebeu dos guias invisíveis, uma séria admoestação sobre a futilidade de sua discussão e conselhos sobre a felicidade da amizade, com um convite à reconciliação, sem preconceitos. Movidos pelo mesmo sentimento, os dois jovens deixaram simultaneamente seu lugar, e vieram chorando lançar-se nos braços um do outro. Desde então nenhuma nuvem turvou a sua mútua compreensão.

O próprio capitão nos fez o relato. Vimos o seu caderno de comunicações Espíritas, bem como os dos dois jovens, onde lemos aquela de que acabamos de falar.

O fato seguinte ocorreu ao mesmo capitão, numa de suas travessias. Temos o prazer de o transcrever, posto que alheio ao assunto.

Foi em alto mar, com o melhor tempo do mundo, quando ele recebeu a seguinte comunicação:

"Toma todas as precauções; amanhã às duas horas cairá uma borrasca e teu navio correrá grande perigo." Como nada deixava prever o mau tempo, o capitão logo pensou numa mistificação. Contudo, para nada ter a censurar-se, ao acaso tomou medidas. Foi bom: à hora certa desencadeou-se violenta tempestade e durante três dias o navio enfrentou os maiores perigos que jamais lhe ocorreram. Graças, porém, às precauções tomadas, safou-se sem acidentes.

O fato da reconciliação sugeriu-nos as seguintes reflexões.

Um dos resultados do Espiritismo bem compreendido — e insistimos na expressão bem compreendido — é o desenvolvimento do sentimento de caridade. Mas, como se sabe, a própria caridade tem um conceito muito elástico — desde a simples esmola até o amor aos inimigos, que é o sublime da caridade. Pode-se dizer que ela resume todos os nobres impulsos da alma para com o próximo. O verdadeiro espírita, como o verdadeiro cristão, pode ter inimigos. Não os teve o Cristo? Mas não é o inimigo pessoal, pois está sempre apto a perdoar e a pagar o mal com o bem. Se dois espíritas tiverem tido outrora motivos para recíproca animosidade, sua reconciliação será fácil, porque o ofendido esquece a ofensa e o ofensor reconhece a sua sem-razão. Desde então não mais querelas, porque serão reciprocamente indulgentes e farão mútuas concessões. Nenhum deles procurará impor ao outro um perdão humilhante, que irrita e fere mais do que acalma.

Se, em tais condições, duas criaturas podem viver em boa harmonia, o maior número também o pode. E, então, serão tão felizes quanto é possível sê-lo na Terra, porque a maior parte de nossas atribulações surge do contato com os maus. Suponhamos uma nação inteira imbuída de tais princípios: não será a mais feliz do mundo? Aquilo que apenas é possível para os indivíduos — dirão uns — é utopia para as massas, a menos que se dê um milagre. Ora! Tal milagre fá-lo o Espiritismo muitas vezes, em pequena escala, nas famílias desunidas, onde restabelece a paz e a concórdia. O futuro provará que o pode fazer em larga escala.

O ESPIRITISMO SEM OS ESPÍRITOS

Revista Espírita. Maio de 1866.

Ultimamente vimos uma seita tentar se formar, arvorando como bandeira: A negação da prece. Acolhida de começo por um sentimento geral de reprovação, nem viveu. Os homens e os Espíritos se uniram para repelir uma doutrina que era, ao mesmo tempo, uma ingratidão e uma revolta contra a Providência. Isto não era difícil porque, chocando o sentimento íntimo da maioria imensa, leva em si o seu princípio destruidor. (Revista de janeiro de 1866).

Eis agora uma outra que se ensaia num novo terreno. Tem por divisa: Nada de comunicações dos Espíritos. E muito singular que esta opinião seja preconizada por alguns daqueles que outrora exaltavam a importância e a sublimidade dos ensinamentos espíritas e que se gloriavam do que eles próprios recebiam como médiuns. Terá ela mais chance que a precedente? E o que vamos examinar em poucas palavras.

Esta doutrina, se se pode dar tal nome a uma opinião restrita a algumas pessoas, se funda nos dados seguintes:

"Os Espíritos que se comunicam não são senão Espíritos ordinários, que, até hoje, não nos ensinaram nenhuma verdade nova, e que provam a sua incapacidade não saindo das banalidades da moral. O critério que se pretende estabelecer sobre a concordância de seu ensino é ilusório, por força de sua insuficiência. E ao homem que cabe sondar os grandes mistérios da natureza e submeter o que eles dizem ao controle de sua própria razão. Nada nos ensinando as suas comunicações, nós as proscrevemos de nossas reuniões. Discutiremos entre nós; buscaremos e decidiremos, em nossa sabedoria, os princípios que devem ser aceitos ou rejeitados, sem recorrer ao assentimento dos Espíritos."

Notemos que não se trata de negar o fato das manifestações, mas de estabelecer a superioridade do julgamento do homem, ou de alguns homens, sobre o dos Espíritos; numa palavra, de separar o Espiritismo do ensino dos Espíritos. As instruções destes últimos estariam abaixo do que pode a inteligência dos homens.

Esta doutrina conduz a uma singular conseqüência, que não daria uma alta idéia da superioridade da lógica do homem sobre a dos Espíritos. Graças a estes últimos, sabemos que os da ordem mais elevada pertenceram à humanidade corporal que ultrapassaram há muito tempo, como o general ultrapassou a classe do soldado de onde saiu. Sem os Espíritos, ainda estaríamos na crença que os anjos são criaturas privilegiadas e os demônios criaturas predestinadas ao mal para a eternidade. "Não, dirão, porque houve homens que combateram essa idéia." Seja. Mas quem eram esses homens senão Espíritos encarnados? Que influência teve a sua opinião isolada sobre a crença das massas? Perguntai ao primeiro que chegar se conhece ao menos de nome a maioria desses grandes filósofos? Ao passo que os Espíritos, vindo a toda parte da Terra, manifestar-se ao mais humilde como ao mais poderoso, a verdade propagou-se com a rapidez do raio.

Os Espíritos podem dividir-se em duas grandes categorias: os que, chegados ao mais alto ponto da escala, deixaram definitivamente os mundos materiais, e os que, pela lei da reencarnação, ainda pertencem ao turbilhão da humanidade terrena. Admitamos que só estes últimos tenham o direito de comunicar-se com os homens o que é uma questão: no número há os que, em vida, foram homens esclarecidos, cuja opinião tem autoridade, e que a gente sentir-se-ia feliz de consultar, se ainda fossem vivos. Ora, da doutrina acima resultaria que esses mesmos homens superiores tornaram-se nulidades ou mediocridades, ao passar para o mundo dos Espíritos, incapazes de nos dar instrução de qualquer valor, ao passo que a gente se inclinaria respeitosamente ante os que se apresentassem em carne e osso nas mesmas assembléias onde se recusam escutá-los como Espíritos. Disso resulta ainda que Pascal, por exemplo, não é mais uma luz desde que é Espírito; mas que, se reencarnasse em Pedro ou Paulo, necessariamente com o mesmo gênio, desde que nada teria perdido, seria um oráculo. Esta conseqüência é tão rigorosa que os partidários deste sistema admitem a reencarnação como uma das maiores verdades. Enfim é preciso induzir que os que colocam de muito boa-fé, como supomos, sua própria inteligência muito acima da dos Espíritos, serão eles próprios nulidades ou mediocridades, cuja opinião não terá valor. De tal sorte que seria preciso crer no que dizem enquanto estão vivos, e não crer amanhã, quando estiverem mortos, ainda quando viessem dizer a mesma coisa e, ainda menos, se disserem que se enganaram.

Sei que objetam a grande dificuldade da constatação da identidade. Essa questão já foi amplamente tratada, de modo que é supérfluo a ela voltar. Certamente não podemos saber, por uma prova material, se o Espírito que se apresenta sob o nome de Pascal é realmente o do grande Pascal. Que nos importa, se diz boas coisas? Cabe-nos pesar o valor de suas instruções, não pela forma da linguagem, que se sabe por vezes marcada pelo cunho da inferioridade do instrumento, mas pela grandeza e pela sabedoria dos pensamentos. Um grande Espírito que se comunica por um médium pouco letrado é como um hábil calígrafo que se serve de uma pena ruim: o conjunto da escrita terá o cunho de seu talento, mas os detalhes da execução, que dele não dependem, serão imperfeitos.

Jamais o Espiritismo disse que era preciso fazer abnegação de seu amento e submeter-se cegamente ao dizer dos Espíritos; são os próprios Espíritos que nos dizem passar todas as suas palavras pelo cadinho da lógica, ao passo que certos encarnados dizem: "Não creiais senão no que dizemos e não creiais no que dizem os Espíritos." Ora, como a razão individual está sujeita ao erro, e o homem, muito geralmente, é levado a tomar sua própria razão e suas idéias como a única expressão da verdade, aquele que não tem a orgulhosa pretensão de se julgar infalível a refere à apreciação da maioria. Por isto é tido como abdicando a sua opinião? Absolutamente; está perfeitamente livre de crer que ele só tenha razão contra todos, mas não impedirá a opinião do maior número de prevalecer e de ter, em definitiva, mais autoridade que a opinião de um só ou de alguns.

Examinemos agora a questão sob um certo ponto de vista. Quem fez o Espiritismo? E uma concepção humana pessoal? Todo o mundo sabe o contrário, O Espiritismo é o resultado do ensinamento dos Espíritos; de tal sorte que, sem as comunicações dos Espíritos não haveria Espiritismo. Se a doutrina espírita fosse uma simples teoria filosófica nascida de um cérebro humano, não teria senão o valor de uma opinião pessoal; saída da universalidade do ensino dos Espíritos, tem o valor de uma obra coletiva, e é por isto mesmo que em tão pouco tempo se propagou por toda a Terra, cada um recebendo por si mesmo, ou por suas relações íntimas, instruções idênticas e a prova da realidade das manifestações.

Então! É em presença deste resultado patente, material, que se tenta erigir em sistema a inutilidade das comunicações dos Espíritos. Convenhamos que se elas não tivessem a popularidade que adquiriram, não as atacariam e que é a prodigiosa vulgarização dessas idéias que suscita tantos adversários ao Espiritismo. Os que hoje rejeitam as comunicações não parecem as crianças ingratas que negam e desprezam os seus pais? Não é ingratidão para com os Espíritos, a quem devem o que sabem? Não é servir-se do que eles ensinaram para os combater, voltar contra eles, contra seus próprios pais, as armas que nos deram? Entre os Espíritos que se manifestam não está o Espírito de um pai, de uma mãe, de seres que nos são os mais caros, dos quais se recebem essas tocantes instruções que vão diretas ao coração? Não é a eles que se deve o ter sido arrancado da incredulidade, às torturas da dúvida sobre o futuro? E é quando se goza do beneficio que se desconhece a mão benfeitora?

Que dizer dos que, tomando sua opinião pela de todo o mundo, afirmam seriamente que, agora, em parte alguma se querem comunicações? Estranha ilusão! Que um olhar lançado em torno deles baste para fazer desvanecer-se. Por seu lado, que devem pensar os Espíritos que assistem às reuniões onde se discute se se devem condescender em os escutar, se se deve ou não excepcionalmente, lhes permitir a palavra para agradar aos que têm a fraqueza de ligar às suas instruções? Lá se encontram sem dúvida Espíritos ante os quais cair-se-ia de joelhos se, nesse momento, eles se deixassem ver. Já pensavam no preço que podia ser pago por tal ingratidão?

Tendo os Espíritos a liberdade de comunicar-se, sem a tenção ao seu grau de saber, resulta que há uma grande diversidade de valor nas comunicações, como nos escritos, num povo em que têm a liberdade de escrever e onde, certamente, nem todas as produções literárias são obras primas. Segundo. as qualidades individuais dos Espíritos, há, pois, comunicações boas pelo fundo e pela forma, outras, enfim, que nada valem, nem pelo fundo, nem pela forma. Cabe-nos escolher. Não seria mais natural rejeitá-las todas porque algumas são más, do que seria prescrever todas as publicações porque há escritores que produzem vulgaridades. Os melhores escritores, os maiores gênios, não têm coisas fracas em suas obras? Não se fazem seleções do que produzem de melhor? Façamos o mesmo em relação à produção dos Espíritos; aproveitemos o que há de bom e rejeitemos o que é mau; mas para arrancar o joio, não arranquemos o bom grão.

Consideremos, pois, o mundo dos Espíritos como um duplo do mundo corporal, como uma fração da humanidade e digamos que não devemos desdenhar ouvi-los, agora que estão desencarnados, pois não o teríamos feito quando encarnados; estão sempre em nosso meio, como outrora; apenas estão atrás da cortina e não à frente: eis toda a diferença.

Mas, perguntarão, qual o alcance do ensino dos Espíritos, mesmo no que há de bom, se não ultrapassam o que os homens podem saber por si mesmos? E bem certo que não nos ensinam mais nada? No seu estado de Espírito não vêem o que não podemos ver? Sem eles conheceríamos o seu estado, sua maneira de ser, suas sensações? Conheceríamos, como hoje conhecemos, esse mundo onde talvez estejamos amanhã? Se esse mundo não tem para nós os m&smos terrores, se encaramos sem pavor a passagem que a ele conduz, não éa eles que o devemos? Esse mundo está completamente explorado? Diariamente não nos revela uma nova lua? E nada é saber onde se vai e o que pode ser ao sair daqui? Outrora lá estávamos tateando e tremendo como num abismo sem fundo; agora esse abismo é resplendente de luz e nele se entra alegre. E ousam dizer que o Espiritismo nada ensinou? (Revista, agosto de 1865: "O que ensina o Espiritismo").

Sem dúvida o ensino dos Espíritos tem limites, Não se lhe deve pedir senão o que pode dar, o que está na sua essência, no seu objetivo Providencial; e ele dá muito a quem sabe buscar. Mas tal como é, já fizemos todas as suas aplicações? Antes de lhe pedir mais, sondamos as profundezas do horizonte que nos descobre? Quanto ao seu alcance, ele se afirma por um fato material, patente, gigantesco, inaudito nos fatos da história: é que apenas em sua aurora, já revoluciona o mundo e abala as forças da Terra. Que homem teria tal poder?

O Espiritismo tende para a reforma da humanidade pela caridade. Não é, pois, de admirar que os Espíritas preguem a caridade sem cessar; eles a pregarão ainda tanto tempo enquanto ela não houver desarraigado o orgulho e o egoísmo do coração do homem. Se alguns acham as comunicações inúteis, porque repetem incessantemente as lições de moral, devem ser felicitados, pois são bastante perfeitos para não necessitarem delas; mas devem pensar que os que não têm tanta confiança em seu próprio mérito e que desejam se melhorar, não se cansam de receber bons conselhos. Não busqueis, pois, lhes tirar esse consolo.

Esta doutrina tem chance de prevalecer? Como dissemos, as comunicações dos Espíritos fundavam o Espiritismo. Repeli-las depois de as haver aclamado é querer sapar o Espiritismo pela base, tirar-lhe o alicerce. Tal não pode ser o pensamento dos Espíritas sérios e devotados, porque seria absolutamente como o que se dissesse cristão negando o valor dos ensinamentos do Cristo, sob o pretexto que sua moral é idêntica à de Platão. E nessas comunicações que os Espíritas encontraram alegria, consolação, esperança. E por elas que compreenderam a necessidade do bem, da resignação, da submissão à vontade de Deus; é por elas que suportam com coragem as vicissitudes da vida; por elas que não há mais separação real entre eles e os objetos de suas mais ternas afeições. Não é enganar-se com o coração humano crer que ele possa renunciar a uma crença que faz a felicidade!

Repetimos aqui o que dissemos a propósito da prece: Se o Espiritismo deve ganhar em influência, é aumentando a soma de satisfação morais que proporciona. Que os que o acham insuficiente tal qual é se esforcem por dar mais que ele; mas não será dando menos, tirando o que faz o seu encanto, a força e a popularidade que o suplantarão.

SUGESTÃO DE ORDEM DE LEITURA DE ALLAN KARDEC PARA SUAS OBRAS

O Livro dos Médiuns, ou guia dos médiuns e dos evocadores.
35. Aos que quiserem adquirir essas noções preliminares, pela leitura das nossas obras, aconselhamos que as leiam nesta ordem:
O que é o Espiritismo? Esta brochura, de uma centena de páginas somente, contém sumária exposição dos princípios da Doutrina Espírita, um apanhado geral desta, permitindo ao leitor apreender-lhe o conjunto dentro de um quadro restrito. Em poucas palavras ele lhe percebe o objetivo e pode julgar do seu alcance. Aí se encontram, além disso, respostas às principais questões ou objeções que os novatos se sentem naturalmente propensos a fazer. Esta primeira leitura, que muito pouco tempo consome, é uma introdução que facilita um estudo mais aprofundado.
O Livro dos Espíritos. Contém a doutrina completa, como a ditaram os próprios Espíritos, com toda a sua filosofia e todas as suas conseqüências morais. É a revelação do destino do homem, a iniciação no conhecimento da natureza dos Espíritos e nos mistérios da vida de além-túmulo. Quem o lê compreende que o Espiritismo objetiva um fim sério, que não constitui frívolo passatempo.
O Livro dos Médiuns. Destina-se a guiar os que queiram entregar-se à prática das manifestações, dando-lhes conhecimento dos meios próprios para se comunicarem com os Espíritos. É um guia, tanto para os médiuns, como para os evocadores, e o complemento de O Livro dos Espíritos.
A Revista Espírita. Variada coletânea de fatos, de explicações teóricas e de trechos isolados, que completam o que se encontra nas duas obras precedentes, formando-lhes, de certo modo, a aplicação. Sua leitura pode fazer-se simultaneamente com a daquelas obras, porém, mais proveitosa será, e, sobretudo, mais inteligível, se for feita depois de O Livro dos Espíritos.

Isto pelo que nos diz respeito. Os que desejem tudo conhecer de uma ciência devem necessariamente ler tudo o que se ache escrito sobre a matéria, ou, pelo menos, o que haja de principal, não se limitando a um único autor. Devem mesmo ler o pró e o contra, as críticas como as apologias, inteirar-se dos diferentes sistemas, a fim de poderem julgar por comparação. Por esse lado, não preconizamos, nem criticamos obra alguma, visto não querermos, de nenhum modo, influenciar a opinião que dela se possa formar. Trazendo nossa pedra ao edifício, colocamo-nos nas fileiras. Não nos cabe ser juiz e parte e não alimentamos a ridícula pretensão de ser o único distribuidor da luz. Toca ao leitor separar o bom do mau, o verdadeiro do falso.
Obs.: Quando foi publicado este texto ainda não haviam sido publicadas as demais obras de Allan Kardec.

DAS CONTRADIÇÕES DOS ESPÍRITOS

O Livro dos Médiuns (ou guia dos médiuns e dos evocadores) Capítulo XXVII.

301. Eis as respostas que os Espíritos deram a perguntas feitas acerca das contradições:

1ª Comunicando-se em dois centros diferentes, pode um Espírito dar-lhes, sobre o mesmo ponto, respostas contraditórias?

"Se nos dois centros as opiniões e as idéias diferirem, as respostas poderão chegar-lhes desfiguradas, por se acharem eles sob a influência de diferentes colunas de Espíritos. Então, não é a resposta que é contraditória, mas a maneira por que é dada."

2ª Concebe-se que uma resposta possa ser alterada; mas, quando as qualidades do médium excluem toda idéia de má influência, como se explica que Espíritos superiores usem de linguagens diferentes e contraditórias sobre o mesmo assunto, para com pessoas perfeitamente sérias?

"Os Espíritos realmente superiores jamais se contradizem e a linguagem de que usam é sempre a mesma, com as mesmas pessoas. Pode, entretanto, diferir, de acordo com as pessoas e os lugares. Cumpre, porém, se atenda a que a contradição, às vezes, é apenas aparente; está mais nas palavras do que nas idéias; porquanto, quem reflita verificará que a idéia fundamental é a mesma. Acresce que o mesmo Espírito pode responder diversamente sobre a mesma questão, segundo o grau de adiantamento dos que o evocam, pois nem sempre convém que todos recebam a mesma resposta, por não estarem todos igualmente adiantados.

É exatamente como se uma criança e um sábio te fizessem a mesma pergunta. De certo, responderíeis a uma e a outro de modo que te compreendessem e ficassem satisfeitos. As respostas, nesse caso, embora diferentes, seriam fundamentalmente idênticas."

3ª Com que fim Espíritos sérios, junto de certas pessoas, parecem aceitar idéias e preconceitos que combatem junto de outras?

"Cumpre nos façamos compreensíveis. Se alguém tem uma convicção bem firmada sobre uma doutrina, ainda que falsa, necessário é lhe tiremos essa convicção, mas pouco a pouco. Por isso é que muitas vezes nos servimos de seus termos e aparentamos abundar nas suas idéias: é para que não fique de súbito ofuscado e não deixe de se instruir conosco.

"Aliás, não é de bom aviso atacar bruscamente os preconceitos. Esse o melhor meio de não se ser ouvido. Por essa razão é que os Espíritos muitas vezes falam no sentido da opinião dos que os ouvem: é para os trazer pouco a pouco à verdade. Apropriam sua linguagem às pessoas, como tu mesmo farás, se fores um orador mais ou menos hábil. Daí o não falarem a um chinês, ou a um maometano, como falarão a um francês, ou a um cristão. É que têm a certeza de que seriam repelidos.

"Não se deve tomar como contradição o que muitas vezes não é senão parte da elaboração da verdade. Todos os Espíritos têm a sua tarefa designada por Deus. Desempenham-na dentro das condições que julgam convenientes ao bem dos que lhes recebem as comunicações."

ENCONTRAMOS O ESPIRITISMO POR TODA A PARTE

Conclusão de "O Livro dos Espíritos".

Item VI.


 

O Espiritismo não é obra de um homem. Ninguém pode inculcar-se como seu criador, pois tão antigo é ele quanto à criação. Encontramo-lo por toda parte, em todas as religiões, principalmente na religião Católica e aí com mais autoridade do que em todas as outras, porquanto nela se nos depara o princípio de tudo que há nele: os Espíritos em todos os graus de elevação, suas relações ocultas e ostensivas com os homens, os anjos guardiães, a reencarnação, a emancipação da alma durante a vida, a dupla vista, todos os gêneros de manifestações, as aparições e até as aparições tangíveis.

Quanto aos demônios, esses não são senão os maus Espíritos e, salvo a crença de que aqueles foram destinados a permanecer perpetuamente no mal, ao passo que a senda do progresso se conserva aberta aos segundos, não há entre uns e outros mais do que simples diferença de nomes.

Que faz a moderna ciência espírita? Reúne em corpo de doutrina o que estava esparso; explica, com os termos próprios, o que só era dito em linguagem alegórica; poda o que a superstição e a ignorância engendraram, para só deixar o que é real e positivo. Esse o seu papel. O de fundadora não lhe pertence. Mostra o que existe, coordena, porém não cria, por isso que suas bases são de todos os tempos e de todos os lugares. Quem, pois, ousaria considerar-se bastante forte para abafá-la com sarcasmos, ou, ainda, com perseguições? Se a proscreverem de um lado, renascerá noutras partes, no próprio terreno donde a tenham banido, porque ela está em a Natureza e ao homem não é dado aniquilar uma força da Natureza, nem opor veto aos decretos de Deus.

O ESPIRITISMO NÃO PROCURA NINGUÉM

Viagem Espírita em 1862.

A humanidade coletivamente, como os indivíduos, tem sua infância e sua idade madura. Quando se encontra na maturidade, atira à distância seu cueiro e quer fazer uso de suas próprias forças, isto é, de sua inteligência. Fazê-la retroceder é tão impossível quanto obrigar um rio a retomar às suas fontes. Atacar o mérito da fé cega, dir-se-á, é uma impiedade, pois que Deus quer que se aceite sua palavra sem exame. A fé cega teve sua razão de ser, direi mesmo, a sua necessidade, mas em um certo período da história da humanidade. Se hoje ela não basta mais para fortalecer a crença, é porque está na natureza da humanidade que assim deve ser. Ora, quem fez as leis da natureza? Deus ou Satã? Se foi Deus, não haverá impiedade em seguir-se suas leis. Se, na atualidade, compreender para crer se tornou uma necessidade para a inteligência, como beber e comer é uma necessidade para o estômago, é que Deus quer que o homem faça uso de sua inteligência: de outro modo não tê-la-ia dado. Há pessoas que não experimentam essa necessidade, que se contentam em crer sem exame. Não as recriminamos, e longe está de nós o pensamento de perturbá-las em sua tranqüilidade. O Espiritismo evidentemente, não se destina a elas: se têm tudo o de que necessitam, nada há a oferecer-lhes. Não se obriga a comer à força àqueles que declaram não ter fome. O Espiritismo está destinado àqueles para os quais o alimento intelectual, que lhes é dado, não basta, e o número destas pessoas é tão grande que o tempo não sobra para nos ocuparmos com as outras. Por que, então, se queixam quando não lhes corremos ao encalço? O Espiritismo não procura ninguém, não se impõe a ninguém, limita-se a dizer: Aqui me tendes, eis o que sou, eis o que trago. Os que julgam ter necessidade de mim, se aproximem, os demais permaneçam onde se encontram. Não é meu propósito perturbar-lhes a consciência nem injuriá-los. A única coisa que peço é a reciprocidade.

PODEMOS EVOCAR OS MORTOS?

BAIXE AQUI ALGUMAS PÁGINAS



Podemos evocar os mortos?

É a pergunta respondida por Allan Kardec em diversas de suas obras.

O GEFE (Grupo de Estudos da Filosofia Espírita) organizou este livro que apresenta os resultados de uma pesquisa extensa. Alguns sacerdotes, contemporâneos ao codificador do Espiritismo, usaram vários argumentos contra as evocações. Rebatendo-os, um a um, Allan Kardec constrói a mais profunda e lógica tese sobre a forma de lidar com os Espíritos.

"Podemos evocar os mortos?" é uma obra historiográfica e doutrinária que serve de fonte de estudos a todo estudioso espírita, bem como àqueles que são curiosos em relação a tão empolgante assunto.


Deseja adquirir este livro?


Mande um email para nós, aos cuidados de Maria Carolina:

filosofiaespirita@gmail.com


O ESPIRITISMO É CHEIO DE SEDUÇÕES

Viagem Espírita em 1862.

Um adversário escreveu, de certa feita, em um jornal, que o Espiritismo é cheio de seduções. Ele não podia, involuntariamente, dirigir-lhe um elogio maior, ao mesmo tempo condenando-se de maneira mais peremptória. Dizer que uma coisa é sedutora, é dizer que ela satisfaz. Ora eis aqui o grande segredo da propagação do Espiritismo. Por que não lhe opõem algo de mais sedutor, para suplantá-Io? Se tal não se faz é porque não se tem nada de melhor a oferecer. Por que ele agrada? É muito fácil explicar.

Ele agrada:

1) porque satisfaz à aspiração instintiva do homem em relação ao futuro;

2) porque apresenta o futuro sob um aspecto que a razão pode admitir;

3) porque a certeza da vida futura faz com que o homem enfrente com paciência as misérias da vida presente;

4) porque, com a doutrina da pluralidade das existências, essas misérias revelam uma razão de ser, tornam-se explicáveis e, ao invés de ser atribuídas à Providência, em forma de acusação, passam a ser justificáveis, compreensíveis e aceitas sem revolta;

5) porque é um motivo de felicidade saber que os seres que amamos não estão perdidos para sempre, que os encontraremos e que estão constantemente junto de nós;

6) porque as orientações dadas pelos Espíritos são de molde a tornar os homens melhores em suas relações recíprocas; estes e, além destes, outros motivos que só os espíritas podem compreender.

Os três diferentes aspectos do Espiritismo

Conclusão de "O Livro dos Espíritos". Item VII.

O Espiritismo se apresenta sob três aspectos diferentes: o das manifestações, o dos princípios e da filosofia que delas decorrem e o da aplicação desses princípios. Daí, três classes, ou, antes, três graus de adeptos: 1º os que crêem nas manifestações e se limitam a comprová-las; para esses, o Espiritismo é uma ciência experimental; 2º os que lhe percebem as conseqüências morais; 3º os que praticam ou se esforçam por praticar essa moral. Qualquer que seja o ponto de vista, científico ou moral, sob que considerem esses estranhos fenômenos, todos compreendem constituírem eles uma ordem, inteiramente nova de idéias, que surge e da qual não pode deixar de resultar uma profunda modificação no estado da Humanidade e compreendem igualmente que essa modificação não pode deixar, de operar-se no sentido do bem.


 

CURA POR UM ESPÍRITO

Revista Espírita. Fevereiro de 1863.

Recebemos várias cartas constatando a boa aplicação do remédio indicado na Revista Espírita de novembro de 1862, cuja receita foi dada por um Espírito. Um oficial de cavalaria nos disse que o farmacêutico de seu regimento teve o cuidado de prepará-la para os casos mais freqüentes de coices dados pelos cavalos. Sabemos que outros farmacêuticos fizeram o mesmo em certas cidades.

À propósito da origem do remédio, um assinante de Eure-et-Loir comunica-nos o seguinte fato, de seu conhecimento pessoal.

Autheusel, 6 de novembro de 1862

"Um homem doente, chamado Paquine, que mora numa comuna próxima, veio ver-me, há um mês, andando de muletas. Admirado de vê-lo assim, indaguei do acidente. Respondeu-me que desde algum tempo as pernas estavam demasiadamente inchadas, cobertas de úlceras e que nenhum remédio fazia efeito. Esse homem é Espírita e com alguma mediunidade. Disse-lhe que era necessário dirigir-se a Espíritos bons e fazê-lo com fervor. No dia de Todos os Santos vi-o na missa, com uma simples bengala. No dia seguinte veio ver-me e contou o seguinte:

- Senhor, disse ele, desde que me recomendou empregar os bons Espíritos para obter a cura, não deixei uma noite e, algumas vezes de dia, de invocá-los e de lhes mostrar quanto o meu mal me prejudicava a vida. Havia apenas cinco ou seis dias que assim orava quando uma noite, estando adormecido, apareceu-me no meio do quarto um homem todo de branco. Avançou para o meu aparador, tomou um boião, no qual havia graxa de que me servia para aliviar as dores das pernas. Mostrou-me o boião e depois, tomando fumo que eu conservava num papel, mostrou-me também. Em seguida foi buscar um vidro com extrato de saturno, depois uma garrafa com essência de terebintina e, mostrando tudo, indicou-me que era preciso fazer uma mistura. Indicou-me a dose, despejando-a no boião. Depois de fazer sinais de amizade, desapareceu. No dia seguinte fiz o que o Espírito havia indicado e desde então as pernas entraram em excelente via de cura. Hoje só me resta uma inchação no pé, que desaparece aos poucos, pela eficácia do remédio. Espero em breve estar curado.

"Eis, senhores, um fato que quase poderia ser classificado como cura milagrosa, e creio que seria levar longe o espírito de partido para ver ai um fato demoníaco.

"Examinando a vulgaridade e, quase sempre a simplicidade dos remédios indicados pelos Espíritos em geral, eu me pergunto se dai não seria possível concluir que o remédio em si não passa de simples formula e que é a influência fluídica do Espírito que opera a cura. Penso que a questão poderia ser estudada.

L. DE TARRAGON

A última questão não nos parece duvidosa, sobretudo quando se conhecem as propriedades que a ação magnética pode dar às substâncias mais benignas, como a água. Ora, como os Espíritos magnetizam também, conforme as circunstâncias, podem dar propriedades curativas a certas substâncias. Se o Espiritismo revela todo um mundo de seres pensando e agindo, revela, também, forças materiais desconhecidas, que um dia serão aproveitadas pela ciência.

PROCESSOS PARA AFASTAR OS MAUS ESPÍRITOS

Revista Espírita. Setembro de 1859.

1.— Como já dissemos em várias ocasiões, os Espíritos superiores têm uma linguagem sempre digna, nobre, elevada, sem qualquer mistura de trivialidade. Dizem tudo com simplicidade e modéstia, jamais se gabam, não exibem saber nem posição entre os outros. A dos Espíritos inferiores ou vulgares tem sempre algum reflexo das paixões humanas. Toda expressão que demonstra baixeza, suficiência, arrogância, fanfarronada ou acrimônia é indício característico de inferioridade e de embuste, desde que o Espírito se apresente com um nome respeitável e venerado.

2.— Os bons Espíritos só dizem o que sabem. Calam-se ou confessam sua ignorância relativamente ao que não sabem. Os maus falam de tudo com segurança, sem se importarem com a verdade. Toda heresia científica notória, todo princípio que choca a razão e o bom senso revela fraude, desde que o Espírito se apresente como um esclarecido.

3.— A linguagem dos Espíritos elevados é sempre idêntica, senão na forma, pelo menos no conteúdo. Os pensamentos são os mesmos, em qualquer tempo e lugar. Podem ser mais ou menos desenvolvidos, conforme as circunstâncias, as necessidades e as facilidades de comunicação, mas não serão contraditórios. Se duas comunicações com a mesma assinatura se encontrarem em oposição, uma delas será evidentemente apócrifa, e a verdadeira será aquela onde coisa alguma desminta o caráter conhecido do personagem. Quando uma comunicação apresenta o caráter de sublimidade e de elevação, sem nenhuma falha, emana de um Espírito elevado, seja qual for o seu nome; se contiver uma mistura de bom e de mau, será de um Espírito comum, se ele se apresentar como é; será de um Espírito impostor, se ele se apresentar com um nome que não pode justificar.

4.— Os bons Espíritos jamais ordenam; não impõem: aconselham e, se não forem ouvidos, retiram-se. Os maus são imperiosos: dão ordens e querem ser obedecidos. Todo Espírito que impõe trai a sua origem.

5.— Os bons Espíritos não adulam. Aprovam quando se faz o bem, mas sempre com reservas. Os maus fazem elogios exagerados, estimulam o orgulho e a vaidade, mesmo pregando a humildade, e procuram exaltar a importância pessoal daqueles a quem querem apanhar.

6.— Os Espíritos superiores se sobrepõem às puerilidades formais em todas as coisas. Para eles, o pensamento é tudo, a forma nada vale. Só os Espíritos vulgares podem ligar importância a certos detalhes incompatíveis com as idéias realmente elevadas. Toda prescrição meticulosa é sinal certo de inferioridade e de embuste da parte do Espírito que toma um nome importante.

7.— É preciso desconfiar dos nomes bizarros e ridículos que tomam certos Espíritos, desejosos de impor-se à credulidade. Seria supremo absurdo levar a sério esses nomes.

8.— Deve-se igualmente desconfiar daqueles que se apresentam com muita facilidade com nomes extremamente venerados, e não aceitar suas palavras senão com as maiores reservas. Nesses casos, principalmente, é indispensável um severo controle, porque em geral é uma máscara que adotam para nos fazer crer em supostas relações íntimas com Espíritos de grande elevação. Por este meio lisonjeiam a vaidade, que exploram, a fim de induzir com freqüência a atitudes lamentáveis ou ridículas.

9.— Os bons Espíritos são muito escrupulosos no tocante às providências que podem aconselhar. Em todos os casos estas têm sempre um objetivo sério e eminentemente útil. Devemos, pois, considerar como suspeitas todas aquelas que não tiverem esse caráter, e refletir maduramente antes de as adotar.

10.— Os bons Espíritos só prescrevem o bem. Toda máxima, todo conselho que não estiver estritamente conforme a pura caridade evangélica não pode ser obra de bons Espíritos. O mesmo acontece com toda insinuação malévola, tendente a excitar ou alimentar sentimentos de ódio, de ciúme e de egoísmo.

11.— Os bons Espíritos só aconselham coisas perfeitamente razoáveis. Toda recomendação que se afaste da linha reta do bom senso ou das leis imutáveis da Natureza denota um Espírito limitado e ainda sob a influência dos preconceitos terrenos. Conseqüentemente, pouco digno de confiança.

12.— Os Espíritos maus ou simplesmente imperfeitos ainda se traem por sinais materiais, com os quais não nos poderíamos enganar. Sua ação sobre o médium é por vezes violenta, e provoca na sua escrita movimentos bruscos e sacudidos, uma agitação febril e convulsiva, que contrasta com a calma e a suavidade dos bons Espíritos.

13.— Outro sinal de sua presença é a obsessão. Os bons Espíritos jamais obsidiam. Os maus se impõem em todos os momentos. É por isso que todo médium deve desconfiar da irresistível necessidade de escrever que dele se apodera nos mais inoportunos momentos. Jamais se trata de um bom Espírito, e ele não deve jamais ceder.

14.— Entre os Espíritos Imperfeitos, que se imiscuem nas comunicações há os que, por assim dizer, se insinuam furtivamente, como para fazer uma brincadeira, mas que se retiram tão facilmente como vieram, e isto na primeira intimação; outros, ao contrário, são tenazes, agarram-se ao indivíduo e só cedem contra a vontade e com persistência. Apoderam-se dele, subjugam-no e o fascinam a ponto de induzi-lo a aceitar os mais grosseiros absurdos, como se fossem coisas admiráveis. Feliz dele quando criaturas de sangue frio conseguem abrir-lhe os olhos, o que nem sempre é fácil, porque esses Espíritos têm a arte de inspirar a desconfiança e o afastamento de quem quer que os possa desmascarar. Dai se segue que devemos ter por suspeito de inferioridade e de más intenções todo Espírito que prescreve o afastamento das pessoas que podem dar bons conselhos. O amor próprio vem em seu auxilio, porque nos é difícil confessar que fomos vitimas de uma mistificação e reconhecer um velhaco naquele sob cujo patrocínio sentíamos a honra de nos colocarmos. Essa ação do Espírito é independente da faculdade de escrever. Em falta da escrita, o Espírito malévolo tem mil e um modos de agir e enganar. Para ele a escrita é um meio de persuasão, mas não é uma causa; para o médium, é um meio de esclarecer-se.

Passando todas as comunicações espíritas pelo controle das considerações precedentes, reconheceremos facilmente a sua origem e poderemos destruir a malícia dos Espíritos enganadores, que só se dirigem àqueles que se deixam enganar comodamente. Se nos vissem ajoelhar ante as suas palavras, disso tirariam partido como o fazem os simples mortais. A nós, pois, cabe provar-lhes que perdem o tempo. Acrescentemos que para isso a prece é poderoso auxilio; por ela atraímos a assistência de Deus e dos bons Espíritos, aumentando nossa própria força. É conhecido o    preceito: Ajuda-te e o céu te ajudará. Deus quer assistir-nos, mas com a condição de que, por nosso lado, façamos aquilo que é necessário.