ADRIEN, MÉDIUM VIDENTE II

Revista Espírita. Janeiro de 1859.

Desde a publicação de nosso artigo sobre o médium vidente Sr. Adrien, grande número de fatos nos são comunicados confirmando nossa opinião de que esta faculdade, bem como outras faculdades mediúnicas, é mais comum do que se pensa. Nós já a tínhamos observado numa porção de casos particulares e sobretudo no estado sonambúlico. O fenômeno das aparições é hoje um fato comprovado e, podemos dizer, freqüente, sem falar dos numerosos exemplos oferecidos pela História profana e pelas Sagradas Escrituras. Muitos dos que tem sido relatados ocorreram pessoalmente com os nossos informantes. São, porém, quase todos fortuitos e acidentais. Ainda não tínhamos visto ninguém em quem tal faculdade fosse, de algum modo, um estado normal. No Sr. Adrien ela é permanente: por toda parte onde ele se ache, a população oculta, que formiga em volta de nós, lhe é visível, sem que ele a chame; Ele representa para nós o papel de um vidente em meio a uma população de cegos; vê os seres que poderíamos chamar de duplicata do gênero humano, indo e vindo, misturando-se em nossas ações e ocupados em seus negócios, se assim podemos dizer.

Dirão os incrédulos que se trata de uma alucinação, vocábulo sacramental e com o qual se pretende explicar aquilo que não se compreende. Gostaríamos que nos explicassem o que é uma alucinação e, principalmente, qual a sua causa. Entretanto no Sr. Adrien ela tem um caráter absolutamente insólito: o da permanência. Até aqui aquilo que se tem convencionado chamar de alucinação é um fato anormal e quase sempre conseqüência de um estado patológico. Mas não é este o caso. E nós, que temos estudado esta faculdade, que a observamos diariamente em seus mínimos detalhes, chegamos mesmo a constatar-lhe a realidade. Para nós ela não é objeto de dúvida e, como veremos, prestou notável auxilio em nossos estudos espíritas: ela nos permitiu meter o escalpelo da investigação na vida extra-corporal. Ela é um facho na escuridão.

O Sr. Home, dotado de notável faculdade como médium de efeitos físicos, produziu resultados surpreendentes, O Sr. Adrien nos inicia na causa de tais efeitos, porque os vê produzir-se e vai muito além daquilo que fere os nossos sentidos.

A realidade da vidência do Sr. Adrien é provada pelo retrato que faz de pessoas que jamais viu e cuja descrição é reconhecida como exata. Seguramente quando Ele descreve, com rigorosa minúcia, os mínimos traços de um parente ou de um amigo, que evocamos por seu intermédio, temos a certeza de que ele vê, pois não pode ser coisa de sua imaginação. Mas há pessoas cuja, prevenção as leva a negar a própria evidência, E o que é mais esquisito é que, para refutar aquilo que não querem admitir, explicam-no por causas ainda mais difíceis que as que lhes apresentamos.

Os retratos do Sr. Adrlen, entretanto, nem sempre são infalíveis. Nisto, como em toda ciência, quando se apresenta uma anomalia, é necessário procurar-lhe a causa, pois a causa de uma exceção freqüentemente confirma a regra geral. Para compreender este fato não devemos perder de vista quanto já dissemos sobre a forma aparente dos Espíritos. Esta forma depende do perispírito, cuja natureza, essencialmente flexível, se presta a todas as modificações que lhe queira dar o Espírito. Deixando o envoltório material, o Espírito leva consigo o seu invólucro etéreo, que constitui uma outra espécie de corpo. Em seu estado normal, tem este corpo uma forma humana, mas não calcada traço a traço sobre aquele que ficou, principalmente quando foi deixado há algum tempo. Nos primeiros instantes que se seguem à morte e enquanto existe um laço entre as duas existências, maior é a similitude; esta, porém, apaga-se à medida que se opera o desprendimento e que o Espírito se torna mais estranho ao seu último envoltório. Contudo, ele pode sempre retomar essa primeira aparência, quer quanto às feições, quer quanto às roupas, quando julga útil para dar-se a conhecer; em geral, porém, isto requer um grande esforço da vontade. Não é, pois, de admirar que em certos casos a semelhança falhe em alguns detalhes: bastam-lhe os traços principais. Também para o médium essa investigação não é feita sem certo esforço, que se torna penoso, quando muito repetido. As visões comuns não lhe causam nenhuma fadiga, por isso que ele não se preocupa senão com as generalidades, E o que acontece quando vemos uma multidão: vemos tudo; todos os indivíduos se destacam aos nossos olhos com seus traços distintivos, sem que, entretanto, esses traços nos impressionem tanto que os possamos descrever; para os precisar é necessário concentrar nossa atenção sobre os menores detalhes que desejamos analisar, apenas com a diferença que, em circunstâncias ordinárias, o olhar desce sobre uma forma material e invariável, enquanto na visão ela repousa sobre uma forma essencialmente móvel e modificável pelo mais simples efeito da vontade.

Saibamos, pois, tomar as coisas como elas são; consideremo-las em si mesmas e em função de suas propriedades. Não esqueçamos que no Espiritismo não lidamos com a matéria inerte, mas com inteligências que possuem o livre arbítrio e que, conseqüentemente, não podemos submeter ao nosso capricho nem fazê-las agir à nossa vontade, como se movêssemos um pêndulo. Toda vez que quisermos tomar nossas ciências exatas como ponto de partida nas observações espíritas, extraviar-nos-emos. Por isso a ciência comum é incompetente em tal assunto; é exatamente como um músico que quisesse julgar a arquitetura do ponto de vista musical.

Revela-nos o Espiritismo uma nova ordem de idéias, de novas forças, de novos elementos, de fenômenos que absolutamente não se baseiam naquilo que conhecemos. Saibamos, pois, a fim de o julgar, despojar-nos de nossos preconceitos e de qualquer idéia preconcebida; sobretudo compenetremo-nos desta verdade: fora daquilo que conhecemos pode existir outra coisa, a menos que queiramos cair no absurdo, fruto de nosso orgulho, de que Deus não tenha mais segredos para nós.

De acordo com isto, compreende-se que delicadas influências podem agir sobre a produção dos fenômenos espíritas. Outras há, entretanto, que merecem uma atenção não menos séria.

Despojado de seu corpo, dizemos nós, o Espírito conserva toda a sua vontade e uma liberdade de pensar bem maior do que quando vivo; tem susceptibilidades que dificilmente compreenderíamos; aquilo que, muita vez, nos parece simples e natural, o melindra e lhe desagrada; uma pergunta imprópria o choca e magoa; eles nos mostram sua independência não fazendo aquilo que queremos, ao passo que por vezes fazem aquilo que nem Teríamos tido a lembrança de pedir. É por esta razão que os pedidos de provas e de curiosidade são essencialmente antipáticos aos Espíritos, os quais raramente respondem de modo satisfatório. Sobretudo os Espíritos sérios a isto não se prestam e de modo algum querem servir de divertimento. Compreende-se, Assim, que a intenção pode influir muito sobre a sua disposição de se apresentar aos olhos de um médium vidente sob esta ou aquela aparência; e como, em última análise, eles não revestem uma determinada aparência senão quando Assim lhes convém, só o fazem quando para isso existe um motivo sério e útil.

Há uma outra razão que, de certo modo, liga-se ao que poderíamos chamar a filosofia espírita. A visão do Espírito pelo médium se realiza por uma espécie de radiação fluídica, que parte do Espírito e se dirige ao médium; este, por Assim dizer, absorve os raios e os assimila. Se estiver só, ou cercado de pessoas simpáticas, unidas pela intenção e pelo pensamento, sobre Ele concentram-se aqueles raios; então a visão é clara e precisa e é em tais condições que as figuras são de notável exatidão. Se, ao contrário, tem em seu redor influências antipáticas e pensamentos divergentes e hostis, se não há recolhimento, os raios fluídicos se dispersam e são absorvidos, pelo ambiente; daí uma espécie de nuvem que se projeta sobre o Espírito e não permite que se lhes distingam as nuanças. Tal seria uma luz com ou sem refletor. Uma outra comparação menos material pode ainda nos dar conta do fenômeno. Todos sabemos que a verve de um orador é excitada pela simpatia e pela atenção do auditório; ao contrário, se for distraído pelos rumores, pela desatenção e pela má vontade, seus pensamentos já não serão livres: dispersam-se e os seus recursos se ressentem. Um Espírito influenciado por um meio absorvente encontra-se no mesmo caso: ao invés de sua radiação se dirigir para um ponto único, dissemina-se e perde a sua força.

Às considerações precedentes devemos acrescentar uma, cuja importância será fàcilmente compreendida por todos os que conhecem a marcha dos fenômenos espíritas. Sabe-se que várias causas podem impedir que um Espírito atenda ao nosso apelo no momento em que o evocamos: pode estar reencarnado ou ocupado alhures. Ora, entre os Espíritos que se apresentam quase sempre simultaneamente, deve o médium distinguir aquele que desejamos e, caso aí não esteja, pode confundi-lo com um outro Espírito, igualmente simpático à pessoa que evoca. Descreve o Espírito que vê, sem entretanto poder afirmar que seja este ou aquele, Se o Espírito que se apresenta for sério, não enganará quanto à sua identidade; interrogado a respeito, poderá explicar a causa do equivoco e dizer quem Ele é.

Um meio pouco propicio será também prejudicial por outra razão. Cada um tem como companheiros Espíritos que simpatizam com os seus defeitos e com as suas qualidades. Tais Espíritos são bons ou maus, conforme os indivíduos. Quanto maior for o número de pessoas reunidas, maior será a variedade de Espíritas e maiores as possibilidades de encontrar antipatias. Se, pois, na reunião houver pessoas hostis, quer por pensamentos difamantes, quer pelo caráter leviano ou por sua incredulidade sistemática, por isso mesmo atrairão Espíritos pouco benevolentes, que por vezes entravam as manifestações de toda natureza, tanto escritas quanto visuais. Dai a necessidade de nos colocarmos nas mais favoráveis condições, se quisermos manifestações sérias: quem quer o fim quer os meios. As manifestações espíritas não são coisas com as quais possamos brincar impune-mente. Se quiserdes coisas sérias, sede sérios na mais rigorosa acepção do vocábulo: do contrário sereis joguetes de Espíritos levianos, que se divertirão à vossa custa.

ADRIEN, MÉDIUM VIDENTE

Revista Espírita. Dezembro de 1858.

Todo aquele que pode ver os Espíritos sem auxilio de terceiros é, por isto mesmo, médium vidente. Mas, em geral, as aparições são fortuitas e acidentais. Nós ainda não conhecíamos ninguém apto a ver os Espíritos de maneira permanente e à vontade, É de tão notável faculdade que é dotado o Sr. Adrien, um dos membros da Sociedade de Estudos Espíritas. Ele é, simultaneamente, médium vidente, escrevente, auditivo e sensitivo. Como psicógrafo, escreve o ditado dos Espíritos, mas, raramente, de modo mecânico, como os médiuns inteiramente passivos; Isto é, escreve coisas estranhas ao seu pensamento e tem consciência do que escreve. Como médium auditivo escuta as vozes ocultas que lhe falam. Temos na sociedade dois outros médiuns que gozam desta faculdade no mais alto grau e que, ao mesmo tempo, são ótimos psicógrafos. Enfim, como médium sensitivo, sente o contato dos Espíritos e a pressão que sobre si estes exercem; sente até comoções elétricas muito violentas, que se comunicam às pessoas presentes. Quando magnetiza alguém pode, à vontade e se necessário à saúde, produzir-lhe a descarga de uma pilha de Volta.

Uma nova faculdade nele acaba de revelar-se: é a dupla vista. Sem ser sonâmbulo e conquanto inteiramente desperto, vê à vontade, a uma distância ilimitada, mesmo além dos mares, aquilo que se passa numa localidade; vê as pessoas e aquilo que estão fazendo; descreve os lugares e os fatos com precisão, que tem sido verificado. Digamos logo que o Sr. Adrien não é um desses homens fracos que se deixam arrastar pela imaginação; ao contrário, é um homem de caráter frio, muito calmo e que vê tudo isto com o mais absoluto sangue frio; não diremos que com indiferença; longe disto, pois que ele leva a sério as suas faculdades e as considera como um dom da Providência, o qual lhe foi concedido para o bem e, assim, dele se serve apenas para coisas úteis e jamais para vos satisfazer curiosidades. É um moço de família distinta, multo honesto, de um caráter suave e benevolente e cuja educação cuidada se revela na linguagem e em todas as suas maneiras. Como marinheiro e como militar ia percorreu uma parte da África, da índia e dê nossas colônias.

A nosso ver, de todas as suas faculdades como médium, a mais notável é a vidência. Os Espíritos lhe aparecem sob a forma descrita em nosso artigo anterior sobre as aparições. Ele os vê com uma precisão, da qual podemos fazer uma idéia pelos retratos que damos a seguir, da Viúva do Malabar e da Bela Cordoeira de Lião. Perguntarão, entretanto, o que prova que ele vê e que não é vítima de uma ilusão? O que o prova é que, quando alguém que ele não conhece, por seu intermédio evoca um parente ou um amigo que ele jamais viu, faz deste um retrato de notável semelhança, como tivemos oportunidade de verificar. Assim, não temos a menor dúvida quanto à sua faculdade no estado de vigília e não como sonâmbulo.

O que há talvez ainda de mais notável é que não vê apenas os Espíritos evocados: vê ao mesmo tempo todos os que se acham presentes, evocados ou não; ele os vê entrar, sair, ir e vir, escutar o que dizemos, rindo ou tomando-nos a sério, conforme o seu caráter. Uns são graves, outros têm o ar trocista e sardônico; por vezes um deles se adianta para os assistentes e lhe põe a mão sobre o ombro ou se coloca às suas costas, enquanto outros se mantêm à distância. Numa palavra, em toda reunião há sempre uma assembléia oculta, composta de espíritos atraídos pela simpatia que votam às pessoas ou pelos assuntos ali tratados. Nas ruas ele vê multidões, pois, além dos Espíritos familiares, que acompanham os seus protegidos, há, como entre nós, a massa dos indiferentes e dos desocupados. Diz-nos ele que em casa jamais se acha só e nunca se aborrece: há sempre uma sociedade, com a qual se distrai.

Suas faculdades não alcançam apenas os Espíritos dos mortos, mas também os dos vivos. Quando vê uma pessoa, pode fazer abstração de seu corpo; então o Espírito desta lhe aparece como se estivesse separado e pode com ele conversar. Assim, por exemplo, numa criança, pode ver o Espírito nela encarnado, apreciar a sua natureza e saber o que era antes de encarnar. Esta faculdade, levada a um tal grau, nos inicia melhor que todas as comunicações escritas na natureza do mundo dos Espíritos; ela no-lo mostra qual ele é; e se não o vemos por nossos próprios olhos, a descrição que nos faz leva-nos a vê-lo por pensamento. Os Espíritos deixam de ser seres abstratos e se tornam seres reais, que estão ao nosso lado, que nos acotovelam a cada passo; e como sabemos agora que seu contato pode ser material, compreendemos a causa de uma porção de impressões que sentimos, sem que nos demos conta. Por isso colocamos o Sr. Adrien entre os mais notáveis médiuns e na primeira fila daqueles que nos forneceram os mais preciosos elementos para o conhecimento do mundo espírita. Nós o colocamos na primeira linha, sobretudo por suas qualidades pessoais, que são as de um homem de bem por excelência, e que o tornam eminentemente simpático aos Espíritos de uma ordem mais elevada, o que nem sempre se dá com os médiuns de influência puramente física. Sem dúvida, entre os últimos há os que fazem sensação, que mais cativam a curiosidade pública; mas para o observador, para quem queira sondar os mistérios desse mundo maravilhoso, o Sr. Adrien é o mais poderoso auxiliar que já temos visto.

Assim, a sua faculdade e a sua complacência foram postas a serviço de nossa instrução pessoal, quer na intimidade, quer nas sessões da sociedade, quer, enfim, em visitas a diversos locais de reuniões. Estivemos juntos em teatros, em bailes, em passeios, em hospitais, nos cemitérios e nas igrejas; assistimos a enterros, a casamentos, a batizados e a sermões. Em toda parte observamos Espíritos que ali se vinham reunir; com alguns desses estabelecemos conversação, interrogamo-los e aprendemos muitas coisas, que tornaremos proveitosas aos nossos leitores, porque nosso objetivo é de os fazer penetrar, como nós, num mundo tão novo para nós. Revelou-nos o microscópio o mundo dos infinitamente pequenos, de que nem suspeitávamos, embora junto de nós; revelou-nos o telescópio mundos celestes de que nem suspeitávamos também; o Espiritismo descobre-nos o mundo dos Espíritos, que está por toda parte, ao nosso lado, como nos espaços, mundo real que reage sobre nós incessantemente.


 


 


 

CARACTERES DA REVELAÇÃO ESPÍRITA (1)

Revista Espírita. Setembro de 1867.

13. Por sua natureza, a revelação tem um duplo caráter: participa, ao mesmo tempo, da revelação divina e da revelação científica. Da primeira, porque o seu surgimento é providencial, e não o resultado da iniciativa e de um desígnio premeditado do homem; porque os pontos fundamentais da doutrina são o fato do ensino dado pelos Espíritos encarregados por Deus de esclarecer os homens sobre coisas que estes ignoravam, que não podiam aprender por si-mesmos e que hoje lhes importa conhecer, pois estão amadurecidos para as compreender. Da segunda, porque tal ensino não é privilégio de ninguém, mas é dado a todo o mundo pela mesma via; porque os que o transmitem e os que o recebem não são seres passivos, dispensados do trabalho de observação e de pesquisa; porque não prescindem de seu raciocínio e de seu livre arbítrio; porque o controle não lhes é interdito, mas, ao contrário, recomendado; enfim, porque a doutrina não foi ditada peça por peça, nem imposta à crença cega; porque é deduzida, pelo trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos põem sob os nossos olhos e das instruções que nos dão, instruções que ele estuda, comenta, compara e das quais ele próprio tira as conseqüências e as aplicações. Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é que a sua fonte é divina, que a iniciativa pertence aos Espíritos e que a elaboração é produto do trabalho do homem.

14. — Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma maneira que as ciências positivas, isto é, aplica o método experimental. Apresentam-se fatos de uma ordem nova, que não se podem explicar pelas leis conhecidas. Ele os observa, os compara, os analisa, e dos efeitos remontando às causas, chega à lei que os rege; depois deduz as suas conseqüências e busca as suas aplicações úteis. Não estabelece qualquer teoria preconcebida. Assim, não apresentou como hipótese nem a existência e a intervenção dos Espíritos, nem o perispírito, nem a reencarnação, nem nenhum dos princípios da doutrina. Concluiu pela existência dos Espíritos quando essa existência ressaltou com evidência da observação dos fatos, e assim com outros princípios. Não foram os fatos que vieram de súbito confirmar a teoria, mas a teoria que veio subseqüentemente explicar e resumir os fatos. E, pois, rigorosamente exato dizer que o Espiritismo é uma ciência de observação e não o produto da imaginação.

(1)    Este artigo é extraído de uma nova obra que neste momento se acha no prelo e que aparecerá antes do fim do ano, Uma razão de oportunidade nos levou a publicar este extrato por antecipação na Revista. Mau grado sua extensão, julgamos dever inseri-lo de uma vez, para não interromper o encadeamento das idéias. A obra inteira será do formato e do volume de Céu e Inferno.

NOVO VÍDEO ESPIRITISMO NA REDE (AINDA EM TESTE)

UM ESPÍRITO NOS FUNERAIS DE SEU CORPO

ESTADO DA ALMA NO MOMENTO DA MORTE

Revista Espírita. Dezembro de 1858.

Os Espíritos sempre nos disseram que a separação entre a alma e o corpo não se dá instantaneamente. Algumas vezes começa antes da morte real, durante a agonia; quando se faz notar a última pulsação, o desprendimento ainda não é completo: este se opera mais ou menos lentamente, conforme as circunstâncias e, até sua completa libertação, a alma experimenta uma perturbação, uma confusão que lhe não permitem dar-se conta de sua situação; encontra-se no estado de uma pessoa que desperta e cujas idéias são confusas. Tal estado nada tem de penoso para o homem cuja consciência é pura; sem se dar bem conta do que vê, está calmo e espera sem temor o completo despertar; ao contrário, é cheio de angústias e de terrores para aquele que teme o futuro. A duração dessa perturbação, dizemos nós, é variável. E muito menos longa naquele que, durante a vida, já elevou os pensamentos e purificou a alma; dois ou três dias lhe bastam, enquanto que a outros são precisos, por vezes, oito ou mais dias. Muitas vezes assistimos a esse momento solene e sempre vimos a mesma coisa. Não é, pois, uma teoria, mas o resultado da observação, desde que é o Espírito quem fala e pinta a sua própria situação.

Eis um exemplo tanto mais característico e interessante para o observador, quanto não se trata de um Espírito invisível, que escreve por um médium, mas de um Espírito que é visto e ouvido em presença de seu corpo, tanto na câmara ardente, quanto na igreja durante o serviço fúnebre.

O Sr. X. acabava de ser vitimado por um ataque de apoplexia. Algumas horas depois de sua morte, o Sr. Adrien, um de seus amigos, achava-se na câmara mortuária com a esposa do defunto; viu o Espírito deste, muito distintamente, andando a passos largos e compassados, depois olhar alternativamente para o seu corpo e para as pessoas presentes e, por fim, sentar-se numa poltrona. Tinha exatamente a mesma aparência que quando vivo: vestia a mesma sobrecasaca e as mesmas pantalonas pretas; com as mãos nos bolsos, tinha um ar desconfiado.

Durante esse tempo a esposa procurava um papel na secretária. O marido olhou-a e disse: "Procurarás em vão; nada encontrarás." Ela nada suspeitava, porque o Sr. X. só era visível para o Sr. Adrien.

No dia seguinte, durante o serviço fúnebre, o Sr. Adrien viu novamente o Espírito de seu amigo vagando ao lado do caixão; mas já não tinha o costume da véspera: estava envolto numa espécie de túnica. Entre ambos travou-se a seguinte conversa. Notemos, de passagem, que o Sr. Adrien não é sonâmbulo; que nesse momento, como no dia anterior, estava perfeitamente desperto e que o Espírito lhe aparecia como se fora um convidado para o enterro.

—    Diga-me uma coisa, meu caro Espírito: que sente agora?

—    Bem e sofrimento.

—    Não compreendo isto.

—    Sinto que estou vivendo a minha verdadeira vida; entretanto, vejo o meu corpo aqui neste caixão; apalpo-me e não me sinto; contudo sinto que vivo, que existo. Serei então dois seres? Ah! Deixe-me sair desta noite, deste pesadelo.

—    Deverá ficar muito tempo assim?

—    Oh! não; graças a Deus, meu amigo; sinto que despertarei em breve. Seria horrível se assim não fosse. Tenho as idéias confusas; tudo é obscuridade. Pense na grande divisão que acaba de ser feita... e da qual nada compreendo.

—    Que efeito lhe produziu a morte?

—    A morte? Eu não estou morto, meu filho! Você se engana. Eu me levantava e de repente fui ferido por uma escuridão que me desceu sobre os olhos; depois me levantei e veja o meu espanto ao me ver, ao me sentir vivo e ter ao meu lado, sobre o ladrilho, meu outro ego deitado. Minhas idéias estavam confusas; eu errava para me refazer, mas não podia; via minha mulher chegar e velar-me, lamentando-se, mas eu me perguntava o motivo. Eu a consolava, falava-lhe, mas nem ela respondia nem me compreendia; isto me torturava e deixava-me ainda mais perturbado. Só você me fez bem, porque me escutou e compreende o que eu quero; você me ajuda a destrinçar minhas idéias e me faz um grande bem. Mas por que os outros não fazem o mesmo? Eis o que me tortura... O cérebro está esmagado por esta dor... Irei vê-la; talvez que agora ela me entenda... Até logo, meu caro amigo; chame-me e eu irei vê-lo. Farei uma visita de amigo... Surpreendê-lo-ei.., até logo.

A seguir o Sr. Adrien o viu aproximar-se do filho que chorava. Curvou-se sobre ele, ficou uns momentos nessa posição, depois partiu rapidamente. Não havia sido entendido e pensava ter produzido um som. O Sr. Adrien, entretanto, estava persuadido de que o que ele dizia chegava ao coração do filho; e prometia prová-lo. Disse tê-lo visto depois e que estava mais calmo.

OBSERVAÇÃO: Este relato concorda com tudo quanto havíamos observado sobre o fenômeno da separação da alma; confirma, em circunstâncias de todo especiais, esta verdade que, após a morte, o Espírito ainda lá está presente. Não acredita que tenha à sua frente um corpo inerte, enquanto vê e entende tudo quanto se passa em torno, penetra o pensamento dos assistentes e entre si e estes a única diferença é a visibilidade e a invisibilidade. As lágrimas de crocodilo dos ávidos herdeiros não o abalam.

Quantas decepções devem os Espíritos experimentar nesse momento!

COMUNICAÇÃO COLETIVA

Revista Espírita. Março de 1867.

(SOCIEDADE DE PARIS, l DE NOVEMBRO DE 1866 — MÉDIUM, SR. BERTRAND)

A 1º de novembro último, reunida a Sociedade, como de hábito; para a comemoração dos mortos, foram recebidas muitas comunicações, entre as quais uma sobretudo se distinguia por sua feitura inteiramente nova, e que consiste numa série de pensamentos destacados, cada um assinado por um nome diferente, encadeando-se e completando-se uns pelos outros. Eis esta comunicação:

Meus amigos, quantos Espíritos em torno de vós, que queriam comunicar-se e dizer quanto vos amam! E como seríeis felizes se o nome de todos os que vos são caros fosse pronunciado à mesa dos médiuns! Que felicidade! que alegria para cada, um de vós, se vosso pai, vossa mãe, vosso irmão, vossa irmã, vossos filhos e vossos amigos vos viessem falar! Mas compreendeis que é impossível sejais todos satisfeitos: o número de médiuns não bastaria. Mas o que não é impossível é que um Espírito, em nome de todos os vossos parentes venha dizer-vos: Obrigado por vossa boa lembrança e vossas fervorosas preces. Coragem! tende esperança de que um dia, a seguir a vossa libertação, viremos todos estender-vos a mão. Ficai persuadidos de que o que vos ensina o Espiritismo é o eco das leis do Onipotente; pelo amor tomai-vos todos irmãos, e aliviareis o fardo pesado que carregais.

Agora, caros amigos, todos os vossos Espíritos protetores virão trazer-vos o seu pensamento. Tu, médium, escuta e deixa o lápis correr seguindo a sua idéia.


 

A medicina faz o que fazem os caranguejos espantados.

DR. DEMEURE.

Porque o magnetismo progride e, progredindo, esmaga a medicina atual, para a substituir proximamente.

MESMER.

A guerra é um duelo que só cessará quando os combatentes tiverem forças iguais.

NAPOLEÃO.

Forças iguais material e moralmente.

GENERAL BERTRAND.

A igualdade moral reinará quando o orgulho for destituído.

GENERAL BRUNE.

As revoluções são abusos que destroem outros abusos.

LUÍS XVI.

Mas esses abusos fazem nascer a liberdade.

(Sem nome).

Para serem iguais é preciso serem irmãos; sem fraternidade, nenhuma igualdade e nenhuma liberdade.

LAFAYETTE.

A ciência é o progresso da inteligência.

NEWTON.

Mas o que lhe é preferível é o progresso moral.

JEAN REYNAUD

A ciência ficará estacionária até que a moral a tenha atingido.

FRANÇOIS ARAGO.

Para desenvolver a moral é antes preciso desarraigar o vício.

BÉRANGER.

Para desarraigar o vício é preciso desmascará-lo.

EUGÈNE SUE.

É o que todos os Espíritos fortes e superiores procuram fazer.

JACQUES ARAGO.

Três coisas devem progredir: a música, a poesia e a pintura; A música transporta a alma ferindo o ouvido.

MEYERBEER.

A poesia transporta a alma abrindo o coração.

CASIMIR DELAVIGNE.

A pintura transporta a alma acariciando os olhos.

FLANDRIN.

Então a poesia, a música e a pintura são irmãs e se dão as mãos; uma para abrandar o coração, outra para suavizar os costumes e a última para abrir a alma; as três para vos elevar ao Criador.

ALFRED DE MUSSET.

Mas nada, nada deve progredir mais momentaneamente de que a filosofia; ela deve dar um passo imenso, deixando estacionar a ciência e as artes, mas para as elevar tão alto, quando for tempo, que essa elevação será muito súbita para vós hoje.

Em nome de todos,

SÃO LUÍS.

A 6 de dezembro o Sr. Bertrand recebeu, no grupo do Sr. Desliens, uma comunicação do mesmo gênero, que, de certo modo, é continuação da precedente.

O amor é uma lira cujas vibrações são acordes divinos.

HELOISA.

O amor tem três cordas em sua lira: a imanação divina, a poesia e o canto; se uma delas faltar, os acordes são imperfeitos.

ABELARDO.

O amor verdadeiro é harmonioso; suas harmonias embriagam o coração, elevando a alma. A paixão afoga os acordes, abaixando a alma.

BERNARDIN DE SAINT-PIERRE.

Era o amor que Diógenes procurava, procurando um homem... que veio séculos depois, e que o ódio, o orgulho e a hipocrisia crucificaram.

SÓCRATES.

Os sábios da Grécia por vezes o foram mais nos escritos e nas palavras que em sua pessoa.

PLATÃO.

Ser sábio é amar; procuremos então o amor pela via da sabedoria.

FÉNELON.

Não podeis ser sábios se não vos souberdes elevar acima da maldade dos homens.

VOLTAIRE.

Sábio é aquele que não crê sê-lo.

CORNEILLE.

Quem se julga pequeno é grande; quem se julga grande é pequeno.

LAFONTAINE.

O sábio julga-se ignorante e quem se julga sábio é ignorante.

ESOPO.

A humildade ainda se crê orgulhosa e quem se crê humilde não o é.

RACINE.

Não confundais com os humildes os que dizem, por falsa modéstia, ou por interesse, o contrário do que são: Erraríeis. No caso a verdade se cala.

BONNEFOND.

O gênero se possui por inspiração e não se adquire; Deus quer que as maiores coisas sejam descobertas ou inventadas por seres sem instrução, a fim de paralisar o orgulho, tornando o homem solidário do homem.

FRANÇOIS ARAGO.

Tratam de loucos aqueles cujas idéias não são timbradas pela autoridade da ciência; é assim que os que julgam tudo saber, rejeitam os pensamentos de gênio dos que nada sabem.

BÉRANGER.

A crítica é o estimulante do estudo, mas a paralisação do gênio.

MOLIÈRE.

A ciência aprendida é apenas esboço da ciência inata; não se torna inteligência senão na nova encarnação.

J.J. ROUSSEAU.

A encarnação é o sono da alma; as peripécias da vida são os seus sonhos.

BALZAC.

Às vezes a vida é horroroso pesadelo para o Espírito e muitas vezes custa a terminar.

LA ROCHEFOUCAULT.

Aí está a prova: se resiste, dá um passo para o progresso, se não, entrava a rota que deve conduzir ao porto.

MARTIN.

Ao despertar da alma que saiu vitoriosa das lutas terrenas, o Espírito está maior e mais elevado; se sucumbir, encontra-se tal qual estava.

PASCAL

É renegar o progresso querer que a língua seja emblema da imutabilidade de uma doutrina; além disso; é forçar o homem a orar mais com os lábios do que com o coração.

DESCARTES.

A imutabilidade não reside na forma das palavras, mas no verbo do pensamento.

LAMENNAIS.

Jesus dizia aos seus apóstolos que fossem pregar o Evangelho em sua língua, e que todos os povos os compreenderiam.

LACORDAIRE.

A fé desinteressada faz milagres.

BOILEAU.

A doutrina de Jesus não se sente nem se compreende senão pelo coração; então, seja qual for a maneira por que a falam, ela é sempre o amor e a caridade.

BOSSUET.

As preces ditas ou escritas e que não são compreendidas, deixam vagar o pensamento, permitindo que os olhos se distraiam pelo fausto das cerimônias.

MASSILON.

Tudo mudará, sem contudo voltar à simplicidade de outrora, o que seria a negação do progresso. As coisas serão feitas sem fausto e sem orgulho.

SIBOUR.

O amor triunfará, e virão com ele: a sabedoria, a caridade, a prudência, a força, a ciência, a humildade, a calma, a justiça, o gênio, a tolerância, o entusiasmo e a glória majestosa e divina esmagará, por seu esplendor: o orgulho, a inveja, a hipocrisia, a maldade e o ciúme, que arrastam no seu séquito a preguiça, a gula e a luxúria.

EUGÈNE SUE.

O amor reinará; e para que não tarde, é preciso que, como corajoso Diógenes, tomar com uma mão o facho do Espiritismo e mostrar aos humanos os vermes roedores que formam chaga em sua alma.

SÃO LUÍS

OBSERVAÇÃO: Este gênero de comunicação levanta uma questão importante. Como os fluidos de tão grande número de Espíritos podem assimilar-se quase que instantaneamente com o fluido do médium, para lhe transmitir seu pensamento, quando tal assimilação por vezes é difícil da parte de um só Espírito, e geralmente só se estabelece com vagar?

O guia espiritual do médium parece o ter previsto, porque dois dias depois lhe deu a seguinte explicação.

"A comunicação que obtiveste dia de Todos os Santos, como a última, que é o seu complemento, posto nesta haja nomes repetidos, foram obtidas da maneira seguinte: como sou teu Espírito protetor, meu fluído é similar ao teu. Coloquei-me acima de ti, transmitindo-te o mais exatamente possível os pensamentos e os nomes dos Espíritos que desejavam manifestar-se. Estes formaram em torno de mim uma assembléia cujos membros, cada um por sua vez, ditava os seus pensamentos, que eu te transmitia. Isto foi espontâneo e o que naquele dia tornava as comunicações mais fáceis é que os Espíritos presentes tinham saturado a sala com seus fluidos.

"Quando um Espírito se comunica com um médium, fá-lo com tanto mais facilidade quanto melhor estabelecidas entre si as relações fluídicas, sem o que o Espírito, para comunicar seu fluido ao médium, é obrigado a estabelecer uma espécie de corrente magnética, que atinge o cérebro deste. E se, em razão de sua inferioridade, ou por qualquer outra causa, o Espírito não pode estabelecer esta corrente, ele próprio, então recorre à assistência do guia do médium, e as relações se estabelecem como acabo de indicar.

SLENER.

Uma outra pergunta é esta: No número destes Espíritos não há alguns encarnados, neste ou noutro mundo e, neste caso, como se podem comunicar? Eis a resposta que foi dada:

"Os Espíritos de um certo grau de adiantamento têm uma radiação que lhes permite comunicar-se simultaneamente em vários pontos. Nuns, o estado de encarnação não amortece essa radiação de maneira completa para os impedir de se manifestarem, mesmo em vigília. Quanto mais avançado o Espírito, mais fracos os laços que o unem à matéria do corpo; está num estado de quase constante desprendimento e pode dizer-se que está onde está seu pensamento.

Um Espírito.

O LADO MORAL

Viagem Espírita em 1862.


 

O ponto capital do Espiritismo é o lado moral. Eis o que é preciso, - mesmo à custa de todo e qualquer esforço, - fazer compreensível, e, note-se, que é assim que ele é visto, mesmo nas classes menos esclarecidas. Por esse motivo o seu efeito moralizador já é manifesto.

Eis aqui um exemplo entre muitos:

Em um grupo do qual eu fazia parte, durante minha permanência em Lyon, um homem, envergando roupas de trabalhador, ergueu-se no fundo da sala e disse:

"Senhor, há seis meses eu não acreditava nem em Deus, nem no diabo, nem que eu possuísse uma alma. Estava persuadido de que quando morremos tudo se acaba. Não temia a Deus, pois o negava; não temia as penas futuras, uma vez que, ao meu parecer, tudo findava com a vida. Será bom dizer que não orava, pois, desde a minha primeira comunhão, não voltara a por os pés numa Igreja. Além disso, eu era violento e arrebatado. Para resumir, eu não acreditava em nada, nem mesmo na justiça humana. Há seis meses assim era eu! Foi então que me aproximei do Espiritismo. Durante dois meses eu lutei. Entretanto eu lia, compreendia e não me podia furtar à evidência. Uma verdadeira revolução se operou em mim. Hoje já não sou o mesmo homem. Oro todos os dias e freqüento a Igreja. Quanto ao meu caráter, perguntai aos meus amigos se eu mudei. Outrora irritava-me com tudo, um nada me exasperava! Hoje sou tranqüilo e feliz e bendigo a Deus por me haver enviado suas luzes".


 

Filiação - opinião de Allan KARDEC

Revista Espírita. Abril de 1860.

CONSIDERAÇÕES SOBRE O OBJETIVO DA SOCIEDADE

" Não impomos nossas idéias a ninguém. Os que as adotam é porque as consideram justas. Os que vêm a nós é porque pensam aqui encontrar oportunidade de aprender, mas isto não é como uma filiação, pois não formamos uma seita, nem um partido. Nós nos reunimos para o estudo do Espiritismo, como outros para o estudo da Frenologia, da História ou de outras ciências. E como nossas reuniões não se baseiam em qualquer interesse material, pouco nos importa se outras se formam ao nosso lado."

Revista Espírita. Dezembro de 1861.

ORGANIZAÇÃO DO
ESPIRITISMO

" Dissemos no começo que diversas reuniões espíritas pediram para se unir à Sociedade de Paris; usaram até a palavra filiar-se. A respeito faz-se necessária uma explicação.

A Sociedade de Paris foi a primeira a constituir-se regular e legalmente. Por sua posição e pela natureza de seus trabalhos, teve uma grande parte no desenvolvimento do Espiritismo e, em nossa opinião, justifica o titulo de Sociedade Iniciadora, que lhe deram certos Espíritos. Sua influência moral se fez sentir longe e, embora ela seja numericamente restrita, tem consciência de ter feito mais pela propaganda do que se tivesse aberto suas portas ao público. Formou-se com o único objetivo de estudar e aprofundar a ciência espírita. Para isto nem necessita de um auditório numeroso nem de muitos membros, desde que sabe que a verdadeira propaganda é feita pela influência dos princípios. Como não é movida por qualquer interesse material, um excesso numérico lhe seria mais prejudicial que útil. Assim, verão multiplicar-se ao seu redor as reuniões particulares formadas em boas condições, e com as quais poderia estabelecer relações de confraternidade. Ela não seria conseqüente com seus princípios, nem estaria à altura de sua missão, se pudesse conceber a sombra da inveja. Os que a julgassem capaz disto não a conhecem.

Estas observações bastam para mostrar que a Sociedade de Paris não poderia ter a pretensão de absorver as outras sociedades, que se pudessem formar, em Paris ou alhures, com os mesmos procedimentos habituais. A palavra filiação seria, pois, imprópria, porque suporia uma espécie de supremacia material, a que absolutamente não aspira e que, até, teria inconvenientes. Como Sociedade iniciadora e central, pode estabelecer com os outros grupos ou Sociedades relações puramente científicas; mas a isto se limita o seu papel; não exerce qualquer controle sobre essas Sociedades, que em nada dependem dela e ficam inteiramente livres de se constituir como bem o entenderem, sem ter que dar contas a ninguém, e sem que a Sociedade de Paris tenha que se imiscuir seja no que for em seus negócios. Assim, as Sociedades estrangeiras podem formar-se nas mesmas bases, declarar que adotam os mesmos princípios, sem depender dela senão pela concentração dos estudos, dos conselhos que lhe poder pedir e que ela terá prazer em dar."

Revista Espírita. Junho de 1862.

NA ABERTURA DO ANO SOCIAL, A 1º DE ABRIL DE 1862

"Cabe aqui, senhores, uma observação importante sobre a natureza das relações entre a Sociedade de Paris e as reuniões ou sociedades fundadas sob os seus auspícios, e que seria erro considerar como sucursais. A Sociedade de Paris não tem sobre aquelas outra autoridade senão a da experiência; mas, como disse de outra vez, não se imiscui em seus negócios; seu papel limita-se a conselhos oficiais, quando solicitados. O laço que as une é, pois, puramente moral, baseado na simpatia e na similitude das idéias; não há qualquer filiação, qualquer solidariedade material. A única palavra de ordem é a que deve ligar todos os homens: caridade e amor do próximo, palavra de ordem pacífica e que não levanta suspeitas."

Revista Espírita. Junho de 1863.

ORÇAMENTO
DO ESPIRITISMO

"...em vez de 3.000 sócios, jamais teve cem; que nem retribui nenhum de seus funcionários, nem presidentes, nem vice-presidentes ou secretários; que não emprega médium pago e sempre se levantou contra a exploração da mediunidade; que jamais percebeu um cêntimo dos visitantes que admite em pequeno número, e jamais abriu suas portas ao público; que fora dos membros recebidos, nenhum Espírita lhe é tributário; que os sócios honorários não pagam qualquer quota; que entre ela e as outras sociedades não existe qualquer filiação ou solidariedade material..."

Revista espírita. Maio de 1864.

SOCIEDADE ESPÍRITA
DE
PARIS

DISCURSO DE ABERTURA DO SÉTIMO ANO SOCIAL, A
1.º DE ABRIL DE 1864.

"Não é supérfluo repeti-lo. Que os Espíritas não formem entre si nem uma congregação, nem uma associação; se entre as diversas sociedades não há nem solidariedade material, nem filiação oculta ou ostensiva; se não obedecem a nenhuma palavra de ordem secreta; se os que delas fazem parte são sempre livres de as deixar quando lhes convém; se elas não abrem as portas ao público, não é porque aí se passe nada de misterioso ou de oculto, mas porque elas não querem ser perturbadas pelos curiosos e importunes; longe de agir na sombra, ao contrário estão sempre prontas a submeter-se às investigações da autoridade legal e às prescrições que lhes forem impostas. A de Paris tem sobre as outras apenas autoridade moral, devida a sua posição e aos seus estudos e porque lha conferem. Dá os conselhos que lhe pedem à sua experiência, mas não se impõe a nenhuma. A única palavra de ordem que dá como sinal de reconhecimento entre os verdadeiros Espíritas é: Caridade para com todos, mesmo os inimigos. Assim, ela declinaria de toda solidariedade moral a todas as que se afastassem deste princípio, que tivessem por móvel o interesse material, que, em vez de manter a união e a boa harmonia, tendessem a semear a divisão entre os adeptos, porque, por isso mesmo, colocar-se-iam fora da doutrina."

Revista Espírita. Julho de 1866.

DO PROJETO DE CAIXA GERAL DE SOCORRO E

OUTRAS INSTITUIÇÕES PARA
OS ESPÍRITAS

"Por sua natureza, o Espiritismo nem pode ser uma filiação, nem uma congregação. Deve, pois, no seu próprio interesse, evitar tudo quanto lhe desse aquela aparência."

Revista Espírita. Agosto de 1868.

PERSEGUIÇÕES

"Notai, entretanto, que em parte alguma os Espíritas formam um corpo constituído; não estão arregimentados em congregações obedientes, a uma palavra de ordem; não há entre eles qualquer filiação patente ou secreta; sofrem muito simplesmente e individualmente a influência de uma idéia filosófica, e esta idéia, livremente aceita pela razão, e não imposta, basta para modificar suas tendências, porque eles têm consciência de estar certos."

REMÉDIO DADO PELOS ESPÍRITOS

                                
 

 Revista Espírita. Novembro de 1862


 

 
 

O título vai provocar o sorriso dos incrédulos. Que importa! Eles riram de muitas outras coisas, o que não impediu fossem reconhecidas como verdades. Os bons Espíritos se interessam pelo sofrimento da humanidade. Não é, pois, de admirar que nos procurem aliviar e, em muitas ocasiões, provaram que o podem, quando bastante elevados para terem os necessários conhecimentos, pois vêem o que não vêem os olhos do corpo; prevêem o que o homem não pode prever.

O remédio de que se trata foi dado nas circunstâncias seguintes à senhorita Hermance Dufaux (1), a qual nos remeteu a fórmula, autorizando a sua publicação, em favor dos que a necessitassem. Um de seus parentes, falecido há muito tempo, tinha trazido da América a receita de um ungüento ou pomada, de maravilhosa eficácia para toda sorte de chagas ou feridas, Com sua morte, perdeu-se a receita, que não tinha sido dada a ninguém. A senhorita Dufaux estava afetada de um mal na perna, muito grave e muito antigo, e que havia resistido a todo tratamento. Cansada do emprego inútil de tantos remédios, um dia perguntou a seu Espírito protetor se para ela não haveria cura possível. "Sim — respondeu ele. —Serve-te da pomada de teu tio. — Mas vós sabeis que a receita se perdeu. — Eu vou ta dar — disse o Espírito. Depois ditou o seguinte:

    "Açafrão, 20 centigramas
    "Cominho, 4 gramas
    "Cera amarela, 31 a 32 gramas
    "Óleo de amêndoas doces, uma colher.

"Derreter a cera e depois juntar o óleo de amêndoas; juntar o açafrão e o cominho num saquinho de pano fino e ferver, durante dez minutos, em fogo brando. Emprega-se espalhando a pomada num pedaço de pano e cobrindo a parte doente, renovando diariamente o tratamento."

Tendo seguido a prescrição, em pouco tempo a perna da senhorita Dufaux estava cicatrizada, a pele restaurada e, desde então, não sobreveio qualquer acidente.

Também sua lavadeira foi, felizmente, curada de mal idêntico. Um operário se havia ferido com um fragmento de foice, que penetrou profundamente na ferida, produzindo inchação e supuração. Falavam em amputar-lhe a perna, Com o emprego daquela pomada a inchação desapareceu, parou a supuração e o pedaço de ferro saiu da ferida. Em oito dias aquele homem recuperou-se e pôde voltar ao trabalho.

Aplicada sobre furúnculos, abscessos, panarícios, ela faz rebentar em pouco tempo e cicatrizar. Atua tirando da chaga os princípios mórbidos, saneando-a e, conforme o caso, provocando a saída de corpos estranhos, como esquírolas de ossos, de madeira, etc.

Parece que é também eficaz para os dartros e, em geral, para as afecções da pele.

Sua composição, como se vê, é muito simples, fácil e, em todo caso, inofensiva. Pode, pois, experimentar-se sem receio.

(1)    Médium que escreveu a história de Jeanne D'Arc.

 
 


 

ERRATUM

       Revista Espírita. Dezembro de 1862


 

No artigo publicado no último número sobre Um remédio dado pelos Espíritos, foi omitido que antes da aplicação do ungüento é preciso lavar a ferida com água de malva ou outra loção refrescante.


 


 

ALLAN KARDEC



 

PRIMEIRO VÍDEO ESPIRITISMO NA REDE (TESTE)

DA FIRMEZA NOS TRABALHOS ESPÍRITAS

Revista Espírita. Novembro, 1860.


 

Vou falar-vos da firmeza que deveis ter nos vossos trabalhos espíritas. A propósito vos foi feita uma advertência. Eu vos aconselho a estudá-la de coração, a aplicar-lhe a vossa atenção. Porque, assim como São Paulo, sereis perseguidos, não em carne e osso, mas em espírito. Os incrédulos, fariseus da época, vos censurarão, vos ridicularizarão. Mas nada temais: será uma prova que vos fortificará, se souberdes ofertá-la a Deus; e, mais tarde, vereis vossos esforços coroados de sucesso. Será um grande triunfo para vós à luz da eternidade, sem esquecer que, neste mundo, já é uma consolação, para as pessoas que perderam parentes e amigos, saber que são felizes, que é possível comunicar-se com eles; é uma felicidade. Marchai à frente, pois, cumpri a missão que Deus vos dá, e ela será considerada no dia em que comparecerdes ante o Todo-Poderoso.


 

CHANNING


 


 

OS INIMIGOS DO PROGRESSO

Revista Espírita. Novembro, 1860.

(MÉDIUM, SR. R...)


 

Os inimigos do progresso, da luz e da verdade trabalham na sombra; reparam uma cruzada contra as nossas manifestações; não vos preocupeis com isto. Sois sustentados poderosamente; deixai que se agitem na sua impotência. Contudo, por todos os meios que estão em vossa força, dedicai-vos a combater, a aniquilar a idéia da eternidade das penas, pensamento blasfemo contra a justiça e a bondade de Deus, fonte a mais fecunda da incredulidade, do materialismo e da indiferença que invadiram as massas, desde que sua inteligência começou a se desenvolver. Prestes a se esclarecer, mesmo quando apenas desbastado, bem depressa o Espírito apreendeu a monstruosa injustiça; sua razão a repele e, então, raramente deixa de confundir, no mesmo ostracismo, a pena que revolta e o Deus ao qual ela é atribuída. Dai os males sem número que se precipitaram sabre vós, e para os quais trazemos o remédio. A tarefa que vos assinalamos vos será tanto mais fácil, quanto as autoridades sobre as quais se apóiam os defensores desta crença têm, todas, se furtado a um pronunciamento formal. Nem os Concílios, nem os Padres da Igreja fecharam essa grave questão. Se, conforme os próprios Evangelhos, e tomando ao pé da letra as palavras emblemáticas do Cristo, ele ameaçou os culpados com um fogo que não se extingue, um fogo eterno, absolutamente nada, em suas palavras, prova que haja condenado os culpados eternamente.Pobres ovelhas desgarradas, sabei ver o Bom Pastor que vem de longe e que em vez de querer, para sempre, vos banir a todos de sua presença, ele mesmo vem ao vosso encontro para vos reconduzir ao aprisco. Filhos pródigos, deixai o vosso exílio voluntário; dirigi vossos passos para a morada paterna. O pai vos abre os braços e está sempre pronto a festejar o vosso retorno à família.

LAMENNAIS

SOBRE OS TRABALHOS DA SOCIEDADE


 

Revista Espírita. Setembro, 1860.

Falarei da necessidade de ser observada maior regularidade nas vossas sessões; isto é, de evitar-se toda confusão, toda divergência de idéias. A divergência favorece a substituição dos bons Espíritos pelos maus, e, quase sempre, são estes que se apoderam das perguntas feitas. Por outro lado, numa reunião composta de elementos diversos e reciprocamente desconhecidos, como evitar as idéias contraditórias, as distrações ou, pior ainda, uma vaga e censurável indiferença? Eu queria encontrar o meio eficaz e certo para isso. Talvez esteja na concentração dos fluidos esparsos em redor dos médiuns. Só eles, sobretudo aqueles que são amados, retém os bons Espíritos na sessão. Mas sua influência é quanto basta para dissipar a turba dos Espíritos brincalhões. O trabalho de exame das comunicações é excelente. Não seria demais que se aprofundassem as perguntas e, sobretudo, as respostas. O erro é fácil, mesmo para os Espíritos animados das melhores intenções. A lentidão da escrita, durante a qual o Espírito se desvia do assunto, que esgota tão logo o concebe; a mobilidade e a indiferença por certas formas convencionais; todas essas razões e muitas outras vos tornam um dever confiar com cautela, e sempre atentos ao exame, mesmo quando se trata das mais autênticas comunicações.
Assim sendo, que Deus tome sob a sua Santa Guarda todos os verdadeiros espíritas.

GEORGES (Espírito familiar)


 

PRINCÍPIO VITAL DAS SOCIEDADES ESPÍRITAS


Revista Espírita. Junho de 1867.

(...) se aquele que tem uma diferente maneira de ver, a considera melhor que a dos outros; se o satisfaz, se nela se obstina, por que o contrariar? O Espiritismo não se impõe: deve ser aceito livremente e de boa vontade: não vê nenhuma conversão por constrangimento. Aliás, a experiência lá está para provar que não é insistindo que lhe farão mudar de opinião. Com aquele que de boa-fé procura a luz, é todo devotamento, nada se deve poupar: é de zelo bem empregado e frutuoso; com aquele que não a quer ou que pensa tê-la é perder tempo e semear sobre a rocha. A expressão nenhuma preocupação então pode ser entendida nesse sentido que nem se deve atormentá-lo nem violentar as suas convicções; agir assim, não é faltar à caridade.

Allan Kardec

UMA TELHA

Revista Espírita. Julho de 1862


(SOCIEDADE ESPÍRITA DE PARIS - MÉDIUM: SRA. C.)


Um homem passa pela rua. Uma telha lhe cai aos pés. Ele diz:

"Que sorte! Um passo mais e eu estaria morto". Em geral é o único agradecimento que envia a Deus. Entretanto esse homem, pouco tempo depois, adoece e morre na cama. Por que foi preservado da telha, para morrer alguns dias após, como toda gente? Foi o acaso, dirá o incrédulo, como ele próprio disse: "Que sorte!" Para que, então, lhe serviu escapar ao primeiro acidente, se sucumbiu ao segundo? Em todo o caso, se a sorte o favoreceu, o favor não durou muito.

A essa pergunta o espírita responde: a cada instante escapamos de acidentes que, como se costuma dizer, nos deixam a dois dedos da morte. Não vedes nisso um aviso do céu, para vos provar que a vida está por um fio, que jamais temos certeza de viver amanhã e que, assim, devemos sempre estar preparados para partir? Mas, que fazeis quando ides empreender uma longa viagem? Tomais disposições, arranjais os negócios, muni-vos de provisões e de coisas necessárias para o caminho; desembaraçai-vos de tudo quanto pudesse atrapalhar e retardar a marcha. Se conheceis a terra para onde ides, se lá tendes amigos e conhecidos, partis sem receio, certos de serdes bem recebidos. Caso contrário, estudais o mapa da região, e arranjais cartas de recomendação. Suponde que sejais obrigados a empreender essa viagem no dia seguinte, que não tendes tempo de fazer preparativos, ao passo que se estivésseis prevenidos com bastante antecedência, teríeis dispostos todas as coisas para vossa utilidade e vossa conveniência.

Então! Todos os dias estais expostos a empreender a maior, a mais importante das viagens, a que deveis fazer inevitavelmente: e, contudo não pensais nisso mais do que se tivésseis de viver perpetuamente na Terra! Em sua bondade, Deus cuida de vós, advertindo-vos por numerosos acidentes, aos quais escapais, e só Lhe tendes esta expressão: que sorte!

Espíritas! Sabeis quais os preparativos a fazer para essa grande viagem, que tem para vós conseqüências muito mais importantes que todas as que empreendeis aqui na Terra, porque da maneira por ela se realizar depende a vossa felicidade futura. O mapa que vos dará a conhecer o país onde ides entrar é a iniciação nos mistérios da vida futura. Por ela o país não será desconhecido para vós; vossas provisões são as boas ações que tiverdes realizado e que vos servirão de passaporte e de cartas de recomendação. Quanto aos amigos que lá encontrareis, vós os conheceis. E dos maus sentimentos que vos devereis desembaraçar, pois infeliz é aquele a quem a morte surpreende com ódio no coração como alguém que caísse na água com uma pedra atada ao pescoço e que o arrastaria para o fundo. Os negócios que deveis pôr em ordem é o perdão àqueles que vos ofenderam; são os erros cometidos para com o próximo e que urge reparar, a fim de conquistardes o perdão, pois os erros são dívidas, de que o perdão é a quitação. Apressai-vos, pois que a hora da partida pode soar de um momento para o outro e não vos dar tempo para reflexão.

Em verdade vos digo, a telha que cai aos vossos pés é o sinal a vos advertir para estardes sempre prontos a partir ao primeiro sinal a fim de não serdes tomados de surpresa.

O Espírito de Verdade

UM ESPÍRITO QUE JULGA SONHAR

Revista Espírita. Fevereiro 1869.

Várias vezes têm sido vistos Espíritos que ainda se julgam vivos, porque seu corpo fluídico lhes parece tangível como seu corpo material. Eis um deles, numa posição pouco comum: não se julgando morto, tem consciência de sua intangibilidade: mas como em vida era profundamente materialista, em crença e em gênero de vida, imagina que sonha, e tudo quanto lhe foi dito não pode arrancá-lo do erro, tão persuadido está que tudo acaba com o corpo. Era um homem de muito espírito, escritor distinto, que designaremos pelo nome de Luís. Fazia parte do grupo de notabilidades que partiram em dezembro último para o mundo dos Espíritos. Há alguns anos veio à nossa casa, onde testemunhou diversos casos de mediunidade. Viu principalmente um sonâmbulo, que lhe deu evidentes provas de lucidez, em coisas que lhe eram inteiramente pessoais, mas nem por isto se convenceu da existência de um princípio espiritual.

Numa sessão do grupo do Sr. Desliens, a 22 de dezembro, veio espontaneamente comunicar-se por um dos médiuns, Sr. Leymarie, sem que ninguém tivesse pensado nele. Tinha morrido há oito dias. Eis o que fez escrever:

"Que sonho singular! ... Sinto-me arrastado por um turbilhão, cuja direção não compreendo... Alguns amigos, que julgava mortos, convidaram-me para um passeio, e eis-nos arrastados. Para onde vamos?... Olha! brincadeira esquisita! A um grupo espírita!... Ah! que farsa engraçada, ver essa boa gente conscienciosamente reunida! ... Eu conhecia uma dessas figuras... Onde a vi? Não sei... (Era o Sr. Desliens, que se achava na sessão acima mencionada). Talvez em casa desse bravo Allan Kardec, que uma vez me quis provar que eu tinha uma alma, fazendo-me apalpar a imortalidade. Mas em vão apelaram aos Espíritos, às almas, tudo falhou: como nos jantares muito preparados, todos os pratos servidos foram errados e bem errados. Entretanto eu não desconfiava da boa-fé do grão-sacerdote. Julgo-o um homem honesto, mas uma orgulhosa vítima dos Espíritos da assim chamada erraticidade.

"Eu vos ouvi, senhores e senhoras e vos apresento meus profundos respeitos. Escreveis, ao que me parece, e vossas mãos ágeis sem dúvida vão transcrever o pensamento dos invisíveis!.., espetáculo inocente!.., sonho insensato este meu! Eis um que escreve o que digo a mim mesmo... Mas absolutamente não sois divertidos, nem também meus amigos, que têm rostos compassivos como os vossos. (Os Espíritos dos que haviam morrido antes dele, e que ele julga ver em sonho).

"Eh! certo é uma estranha mania deste valente povo francês! Tiraram-lhe de uma vez a instrução, a lei, o direito, a liberdade de pensar e escrever, e se atira esse bravo povo nas visões e nos sonhos. Dorme acordado esse país das Gálias e é maravilhoso vê-lo agir!

"Entretanto ei-los em busca de um problema insolúvel, condenado pela Ciência, pelos pensadores, pelos trabalhadores!... falta-lhes instrução... A ignorância é a lei de Loiola largamente aplicada... Têm a sua frente todas as liberdades: podem atingir todos os abusos, destruí-los, enfim tomar-se seu senhor, senhor viril, econômico, sério, legal e, como crianças de maiô, falta-lhes a religião, um papa, um cura, a primeira comunhão, o batismo, as andadeiras em tudo e sempre. Faltam chupetas a essas crianças grandes, e os grupos espíritas e espiritualistas lhas dão.

"Ah! se na verdade houvesse um grão de verdade em vossas elucubrações! mas haveria para o materialista matéria para o suicídio! ... Olhai! eu vivi largamente: desprezei acame, revoltei-a: ri dos deveres de família, de amizade. Apaixonado, usei e abusei de todas as volúpias, e isto com a convicção que obedecia às atrações da matéria, única lei verdadeira em vossa Terra, e isto eu renovarei ao meu despertar, com a mesma fúria, o mesmo ardor, a mesma habilidade. Tomarei a um amigo, a um vizinho, sua mulher, sua filha ou sua pupila, pouco importa, desde que, estando mergulhado nas delícias da matéria, rendo homenagem a essa divindade, senhora de todas as ações humanas.

"Mas, se me tivesse enganado?... se tivesse deixado passar a verdade?... se, realmente, houvesse outras vidas anteriores e existências sucessivas após a morte?... se o Espírito fosse uma personalidade vivaz, eterna, progressiva, rindo da morte, retemperando-se no que chamamos provação?.., então haveria um Deus de justiça e de bondade?... eu seria um miserável... e a escola materialista, culpada do crime de lesa-nação, teria tentado decapitar a verdade, a razão!... eu seria, ou antes, nós seríamos profundos celerados, refinados supostos liberais!.., oh! então se estivésseis com a verdade, eu queimaria o cérebro ao despertar, tão certo quanto me chamo..."

Na sessão da Sociedade de Paris, de 8 de janeiro, o mesmo Espírito vem manifestar-se de novo, não pela escrita, mas pela palavra, servindo-se do corpo do Sr. Morin, em sonambulismo espontâneo. Falou durante uma hora, e foi uma cena das mais curiosas, porque o médium tomou a sua atitude, os gestos, a voz e a linguagem, a ponto de ser facilmente reconhecido pelos que o haviam visto. A conversa foi recolhida com cuidado e fielmente reproduzida, mas sua extensão não permite publicá-la. Aliás não foi senão o desenvolvimento de sua tese. A todas as objeções e perguntas que lhe foram feitas, pretendeu tudo explicar pelo estado de sonho e, naturalmente, perdeu-se num dédalo de sofismas. Ele próprio lembrou os principais episódios da sessão a que aludira na sua comunicação escrita, e disse: "Eu bem tinha razão de dizer que tudo havia falhado. Olha!, eis a prova. Eu tinha feito esta pergunta: há um Deus? Então! todos os vossos pretensos Espíritos responderam afirmativamente. Vedes que estavam ao lado da verdade e não a conhecem mais do que vós." Uma pergunta, entretanto, o embaraçou muito, assim procurou constantemente escapatórias para dela fugir. Foi esta: O corpo pelo qual nos falais não é o vosso, pois é magro e o vosso era gordo. Onde está o vosso verdadeiro corpo? Não está aqui, pois não estais em vossa casa. Quando se sonha, está-se em seu leito. Ide, pois, ver em vosso leito se o vosso corpo lá está e dizei-nos como podeis aqui estar sem o vosso corpo?"

Levado à parede por estas reiteradas perguntas, às quais apenas respondia pelas palavras: "Efeitos bizarros dos sonhos", acabou dizendo: "Bem vejo que me queríeis despertar. Deixai-me." Desde então crê sonhar sempre.

Numa outra reunião, um Espírito fez sobre este fenômeno a seguinte comunicação:

Eis aqui uma substituição de pessoa, um disfarce. O Espírito encarnado recebe a liberdade ou cai na inação. Digo inação, isto é, a contemplação do que se passa. Está na posição de um homem que momentaneamente empresta o seu cômodo e assiste às diversas cenas que aí são representadas com auxílio de seus móveis. Se preferir gozar da liberdade, ele o pode. a menos que tenha interesse em ficar como espectador.

Não é raro que um Espírito atue e fale pelo corpo de um outro: deveis compreender a possibilidade desse fenômeno, quando sabeis que o Espírito pode retirar-se com o seu perispírito para mais ou menos longe de seu envoltório corporal. Quando isto acontece sem que nenhum Espírito o aproveite para tomar o lugar, há catalepsia. Quando um Espírito deseja aí entrar para agir e tomar por um instante sua parte na encarnação, une o seu perispírito ao corpo adormecido, desperta-o por esse contato e dá movimento à máquina. Mas os movimentos, a voz, não são mais os mesmos, porque os fluidos perispirituais não mais afetam o sistema nervoso da mesma.

Essa ocupação jamais pode ser definitiva: para isto, seria necessária a desagregação absoluta do primeiro perispírito, o que determinaria a morte forçosamente. Ela não pode ser de longa duração, por isso que o novo perispírito, não tendo sido unido a esse corpo desde a formação deste, nele não tem raízes: não tendo sido modelado por esse corpo, não é adequado ao jogo dos órgãos: o Espírito intruso aí não está numa posição normal: é incomodado em seus movimentos, razão pela qual deixa a vestimenta de empréstimo, desde que dela não mais necessita.

Quanto à posição particular do Espírito em questão, não veio voluntariamente ao corpo de que se serviu para falar: foi atraído pelo próprio Espírito de Morin, que quis desfrutar o seu embaraço: o outro, porque cedeu ao secreto desejo de se exibir, ainda e sempre, como cético e trocista, e aproveitou a ocasião que se lhe apresentava. O papel um tanto ridículo que representou, por assim dizer malgrado seu, usando sofismas para explicar sua posição, é uma espécie de humilhação, cujo amargor sentirá ao despertar, e que lhe será proveitosa.


OBSERVAÇÃO: O despertar desse Espírito não poderá deixar de dar lugar a instrutivas observações. Como se viu, em vida era um tipo de materialista sensualista: jamais teria aceitado o Espiritismo. Os homens dessa categoria buscam as consolações da vida nos prazeres materiais: não são da escola de Büchner pelo estudo: mas porque esta doutrina liberta do constrangimento imposto pela espiritualidade, ela deve, em sua opinião, estar certa. Para eles o Espiritismo não é um beneficio, mas um estorvo: não há provas que possam triunfar de sua obstinação: repelem-nas, menos por convicção do que por medo de que seja uma verdade.


A PROPÓSITO DA COMUNICAÇÃO DE CRISTÓVÃO COLOMBO

O Sr. Th... observa, a propósito da comunicação de Cristóvão Colombo, obtida na sessão anterior, que suas respostas re­lativas à sua missão e à dos Espíritos em geral parecem consagrar a doutrina da fatalidade.
Vários membros contestam esta conseqüência das respostas de Cristóvão Colombo, de vez que a missão não tira a liberdade de fazer ou não fazer. o homem não é fatalmente impelido a fazer tal ou qual coisa. Pode acontecer que, como homem, se comporte mais ou menos cegamente; mas, como Espírito, tem sempre a consciência do que faz e fica sempre senhor de suas ações. Supondo que o principio da fatalidade decorresse das respostas de Colombo, isto não seria a consagração de um prin­cipio que, em todos os tempos, foi combatido pelos Espíritos. De qualquer maneira seria apenas uma opinião individual. Ora, a Sociedade está longe de aceitar como verdade irrefutável tudo quanto dizem os Espíritos, pois sabe que estes podem enganar-se. Poderia muito bem um Espírito dizer que é o Sol que gira em redor da Terra, o que não seria mais verdadeiro pelo simples fato de vir de um Espírito. Tomamos as respostas pelo que elas valem; nosso objetivo é estudar as individualidades, seja qual for o grau de superioridade ou de inferioridade; assim adquirimos o conhecimento do estado moral do mundo invisível, não dando nenhum crédito às doutrinas dos Espíritos, senão quando estas se acomodem à razão e ao bom senso, e quando nelas real­mente haja luz. Quando uma resposta é evidentemente ilógi­ca ou errônea, concluímos que o Espírito que a deu está ainda atrasado. Eis tudo. Quanto às respostas de Colombo, de modo algum implicam a fatalidade.

Revue, 8/1859