O ZUAVO DE MAGENTA








 

NOTICIAS DA GUERRA


 

O    governo permitiu que os jornais apolíticos dessem notícias da guerra. Como, porém, são abundantes os relatos sob todas as formas, seria pelo menos inútil aqui os repetir. A maior novidade para os nossos leitores é uma história do outro mundo.

Embora não seja extraída da fonte oficial do Moniteur, nem por isso oferece menos interesse do ponto de vista dos nossos estudos. Assim, pensamos em interrogar algumas das gloriosas vitimas da vitória, presumindo que nos pudessem ministrar algumas indicações úteis. Tais motivos de observação e, principalmente, de atualidade, não se apresentam a cada passo. Não conhecendo nenhum dos participantes da última batalha, rogamos aos Espíritos que nos assistem que nos enviassem alguém. Chegamos a pensar até que a presença de um estranho seria preferível à de inimigos ou de parentes, dominados pela emoção.

Dada uma resposta afirmativa, obtivemos as seguintes palestras.


 

O ZUAVO DE MAGENTA


 

PRIMEIRA PALESTRA, NA SOCIEDADE, A 10 DE JUNHO DE 1859.


 1.    — Rogamos a Deus Todo Poderoso permita ao Espírito de um militar, morto na batalha de Magenta, vir comunicar-se conosco.

— Que quereis saber?

2.    — Onde vos encontráveis quando vos chamamos?

—    Não saberei dizer.

3. — Quem vos preveniu que desejávamos conversar convosco?

—    Alguém mais sagaz do que eu. 

4. — Quando em vida duvidáveis que os mortos pudessem vir conversar com os vivos?

— Oh! isso não. 

5. — Que sensação experimentais por estardes aqui?

—    Isto me causa prazer. Segundo me dizem, tendes que fazer grandes coisas. 

6. — A que corpo do exército pertencíeis? [Alguém diz a meia-voz: Pela linguagem parece um zuzu (1).]

— Ah! bem o dizes!

7. — Qual era o vosso posto?

—    O de todo o mundo. 

8. — Como vos chamáveis?

—    Joseph Midard. 

9. — Como morrestes?

—    Quereis saber tudo sem pagar nada? 

10.    — Ainda bem! não perdestes a jovialidade. Dizei, dizei; nós pagaremos depois. Como morrestes?

—    De uma ameixa que recebi (2) 

11. — Ficastes contrariado com a morte?

—    Palavra que não! Estou bem aqui. 

12. — No momento da morte percebestes o que houve?

—    Não: eu estava tão atordoado que não poderia acreditar. 

NOTA:    Isto concorda com o que temos observado nos casos de morte violenta. Não se dando conta imediatamente da sua situação, o Espírito não se julga morto. Este fenômeno se explica muito facilmente: é análogo ao doe sonâmbulos que não acreditam que estejam dormindo. Realmente, para o sonâmbulo a idéia de sono é sinônima de suspensão das faculdades intelectuais. Ora, como ele pensa, não acredita que dorme: só mais tarde se convence, quando familiarizado com o sentido ligado a este vocábulo. Dá-se o mesmo com um Espírito surpreendido por morte súbita. quando nada havia preparado para a separação do corpo. Para ele a morte é sinônimo de destruição, de aniquilamento. Ora, desde que vive. dizer que o Espiritismo é a luz que esclarecerá diversos mistérios, a chave de numerosos problemas.

13.    — No momento de vossa morte a batalha não tinha terminado. Seguistes as suas peripécias?

— Sim; pois, como vos disse, não me julgava morto: eu sempre queria martelar os outros cães (3)

14. — Que sensação experimentastes então? 

— Eu estava encantado, pois me sentia muito leve. 

15. — Víeis os Espíritos dos vossos camaradas deixando os corpos?

— Eu nem pensava nisso, pois não me acreditava morto. 

16. — Em que se tornavam esses Espíritos que deixavam a vida em multidão, no tumulto da batalha? 

— Creio que faziam o mesmo que eu. 

17. — Encontrando-se reunidos nesse mundo dos Espíritos, que pensavam Aqueles que se batiam mais encarniçadamente? Ainda se atiravam uns contra os outros?

— Sim. Durante algum tempo e conforme o seu caráter.

18.    — Reconhecei-vos melhor agora?

—    Sem isto não me teriam mandado aqui. 

19.    — Poderíeis dizer-nos se entre os Espíritos de mortos há muito tempo se encontram alguns interessados no resultado da batalha? (Rogamos a São Luís que o ajudasse nas respostas, a fim de que, para bem de nossa instrução, elas fossem tão explícitas quanto possível).

—    Em grande quantidade. E bom saber que esses combates e suas conseqüências são preparados com muita antecedência e que os nossos adversários não se manchariam nos crimes, como se mancharam, se a isto não fossem empurrados, em vista das conseqüências futuras, que não tardareis a conhecer.

20.    — Deveria haver quem se interessasse pelos sucessos dos Austríacos. Haveria, então, dois campos entre eles?

—    Evidente. 

OBSERVAÇÃO:    Não parece que estamos vendo aqui os deuses de Homero tomando partido, uns pelos Gregos, outros pelos Troianos? Na verdade, quem eram esses deuses do paganismo, senão os Espíritos que os Antigos haviam transformado em divindade? Não temos razão para dizer que o Espiritismo é a luz que esclarecerá diversos mistérios, a chave de numerosos problemas? 

21.    — Eles exerciam alguma influência sobre os combatentes?

—    Muito considerável.

22.    — Pode descrever-nos a maneira por que tal influência era exercida?

— Da mesma maneira por que todas as influências dos Espíritos se exercem sobre os homens. 

23.    — Que esperais fazer agora?

— Estudar mais do que o fiz em minha última etapa.

24.    — Ides voltar como espectador aos combates que ainda se travam?

—    Ainda não sei. Tenho afeições que me prendem no momento. Contudo, espero de vez em quando dar uma fugida, para me divertir com as surras subseqüentes.

25. — Que gênero de afeição vos retém ainda?

—    Uma velha mãe doente e sofredora, que chora por mim.

26.    — Peço que me desculpe o mau pensamento que me atravessou o Espírito, relativamente à afeição que o retém.

—    Não tem importância. Digo bobagens para vos fazer rir um pouco. E natural que me tomeis por um tolo, em relação ao honrado corpo a que pertenço. Ficai quietos, eu só me engajei por causa dessa minha pobre mãe. Mereço um pouco que me tenham mandado a vós.

27.    — Quando vos encontrastes entre os Espíritos ouvíeis o rumor da batalha? Víeis as coisas tão claramente como em vida?

—    A princípio eu a perdi de vista; mas depois de algum tempo via muito melhor, porque via todos os cordéis.

28.    — Pergunto se escutáveis o troar do canhão.

—    Sim.

29. — No momento da ação pensáveis na morte e naquilo em que vos tomaríeis, caso fosseis morto?

—Eu pensava no que seria de minha mãe.

30.    — Era a primeira vez que entráveis em fogo?

—Não, não. E a África?

31. — Vistes a entrada dos franceses em Milão?

—    Não. 

32.    — Aqui sois o único dos que morreram na Itália? 

—    Sim. 

33.    — Pensais que a guerra durará muito tempo?

—    Não. E fácil e, aliás, de pouco valor essa predição. 

34.    — Quando entre os Espíritos vedes um de vossos chefes, ainda o reconheceis como superior?

—    Se ele o for, sim; se não, não. 

OBSERVAÇÃO:    Na sua simplicidade e no seu laconismo, esta resposta é eminentemente profunda e filosófica. No mundo espírita a superioridade moral é a única reconhecível. Quem não a teve na Terra, fosse qual fosse a posição, não terá nenhuma superioridade. Que lição para o nosso orgulho! 

35.    — Pensais na justiça de Deus e vos inquietais por isso?

—    Quem não pensará? Felizmente não tenho muito que temer. Eu resgatei, por algumas ações que Deus considerou boas, algumas escapadas que cometi como zuzu, conforme dizia.

36. — Assistindo a um combate, poderíeis proteger um de nossos companheiros e desviar-lhe um golpe fatal?

— Não. Não está em nossas forças; a hora da morte é marcada por Deus. Se a gente deve passar, nada o impedirá; do mesmo modo ninguém poderia atingi-la, se sua hora não tivesse soado.

37.    — Vedes o General Espinasse? 

—    Não o vi ainda. Mas espero vê-lo em breve.

 (1)    Termo familiar significando zuavo, soldado das colônias francesas na África do Norte e que ostentava uniforme pitoresco de várias cores, especialmente culote vermelho bastante largo no alto.

(2)    linguagem vulgar dando a entender que havia levado um tiro.

(3) Aqui o Espírito faz um trocadilho: les Autrichiens, os Austríacos, e les autres chiens, os outros cães, têm mais ou menos a mesma pronúncia. (N. do T.) 



 SEGUNDA PALESTRA


(17 DE JUNHO DE 1859)

 

38.    — (Evocação).

— Presente! Firme! em frente!

39.    — Lembrai-vos de ter vindo aqui há oito dias?

—    Ora! 

40.    — Dissestes-nos que ainda não tínheis visto o General Espinasse. Como o poderíeis reconhecer. se ele não tivesse envergado o seu uniforme de general?

—    Não; mas eu o conheço de vista; ademais. temos uma porção de amigos junto a nós, prontos a nos dar a senha. Aqui não é como no quartel: a gente não tem medo de dar uma ajuda e eu vos digo que só os maus ficam sozinhos. 

41.    — Sob que aparência aqui vos encontrais?

—    Zuavo. 

42.    — Se vos pudéssemos ver, como veríamos?

—    De turbante e culote. 

43.    — Então! supunha que nos aparecêsseis de turbante e culote. Mas onde arranjastes estas roupas, se as vossas ficaram no campo de batalha?

— Ora, ora! Não sei como é isto mas lenho um alfaiate que mas arranja. 

44. — De que são feitos o turbante e o culote que usais? Não tendes idéia?

—    Não; isto é lá com o trapeiro. 

OBSERVAÇÃO:    Esta questão da vestimenta dos Espíritos, como várias outras não menos interessantes, ligadas ao mesmo princípio, silo completamente elucidadas por novas observações feitas no seio da Sociedade. Daremos conta disso no próximo número. Nosso bom zuavo não estava suficientemente adiantado para resolver: foi-nos preciso o concurso de circunstâncias apresentadas fortuitamente e que nos puseram no caminho certo.

 45.    — Sabeis a razão por que nos vedes, aô passo que não vos vemos?

—    Penso que compreendo: vossas lunetas são muito fracas. 

46.    — Não seria por essa mesma razão que não vedes o general em seu uniforme?

—    Sim: mas ele não o veste todos os dias. 

47.    — Em que dias o veste? 

—    Ora essa! quando o chamam ao palácio.

48. — Por que estais aqui vestido de zuavo quando não vos podemos ver?

— Muito naturalmente porque ainda sou zuavo, isso há cerca de oito anos e porque entre os Espíritos conservamos a forma durante muito tempo. Mas isso entre nós. Compreendeis que quando vamos a um mundo diferente, como a Lua ou Júpiter, não nos damos ao trabalho de fazer toalete.

40. — Falais da Lua e de Júpiter. Porventura já lá estivestes depois de morto?

— Não. Não me compreendeis. Depois da morte nos informamos de muitas coisas. Não nos explicaram uma porção de problemas da nossa Terra? Não conhecemos Deus e os outros seres muito melhor do que há quinze dias? Com a morte, o Espírito sofre uma metamorfose que não podeis compreender. 

—    Sim: ele não está bonito. 

51.    — Que impressão vos deixou essa vista?

—    De tristeza. 

52.    — Tendes conhecimento de vossa existência anterior?

—    Sim: mas não é bastante gloriosa para que possa me pavonear. 

53.    — Dizei-nos apenas o gênero de vida que tínheis.

—    Simples mercador de peles selvagens. 

54.—    Nós vos agradecemos a bondade de ter vindo pela segunda vez.

—    Até breve. Isto me diverte e me instrui; desde que me toleram bem aqui, voltarei de boa vontade.

BENVENUTO CELLINI

Benvenuto Cellini


 

SESSÃO DA SOCIEDADE PARISIENSE DE ESTUDOS ESPÍRITA


 

EM 11 DE MARCO DE 1859.


 

1. — (Evocação).

—    Interrogai: estou pronto. Podeis vos demorar como quiserdes, pois tenho tempo para vos dar.

2.    — Lembrai-vos da existência que passastes na Terra, no século XVI, entre 1500 e 1570?

—    Sim, sim.

3.    — Atualmente, qual a vossa situação como Espírito?

—    Vivi em vários outros mundos e estou muito satisfeito com a posição que hoje ocupo: não é um cimo, mas estou progredindo.

4.    — Tivestes outras existências corporais na Terra, depois daquela que conhecemos?

—    Corporais, sim; na Terra, não.

5.    — Quanto tempo ficastes errante?

—    Não posso calcular: alguns anos.

6. — Quais as vossas ocupações nesse estado errante?

—    Trabalhava pelo meu aperfeiçoamento.

7.    — Voltastes algumas vezes à Terra?

—    Poucas.

8. — Assististes ao drama em que figurais? Que pensais dele?

—    Fui vê-lo várias vezes. Fiquei satisfeito como Cellini; mas pouco como Espírito que havia progredido.

9.    — Antes da existência que conhecemos, tivestes outras na Terra?

— Não, nenhuma.

10.    — Poderíeis dizer o que éreis em vossa precedente existência?

—    Minhas ocupações eram muito diferentes da que tive na Terra.

11.    — Que mundo habitais?

—    Não o conheceis e não o vedes.

12.    — Poderíeis dar-nos a sua descrição do ponto de vista físico e do moral?

—    Sim, facilmente.

— Meus caros amigos, do ponto de vista físico satisfez-me a sua beleza plástica: ali nada choca a vista; todas as linhas se harmonizam perfeitamente; a mímica é o meio de expressão permanente; os perfumes nos rodeiam e não temos nada a desejar para o nosso bem-estar físico, porque as necessidades pouco numerosas a que estamos sujeitos logo são satisfeitas.

Do ponto de vista moral, a perfeição é menor, pois ali ainda podem ver-se consciências perturbadas e Espíritos dedicados ao mal. Não será a perfeição, longe disso; mas, como já disse, é o seu caminho. E todos esperamos um dia alcançá-la.

13.    — Quais as vossas ocupações no mundo que habitais?

—    Trabalhamos as artes. Sou artista.

14.    — Em vossas memórias contais uma cena de feitiçaria e de endemoninhamento, que se teria passado no Coliseu, em Roma, e na qual teríeis tomado parte, recordai-vos?

—    Sem muita clareza.

15.    — Se a lêssemos, a leitura avivaria a vossa lembrança?

—    Sim: dar-me-ia noção.

Fez-se então a leitura do seguinte trecho:

"Em meio a essa vida estranha, eu me liguei a um sacerdote siliciano, de espírito muito fino e profundamente versado nas letras gregas e latinas. Um dia nossa conversa caiu sobre necromancia e eu lhe disse que durante toda a minha vida tinha desejado ardentemente ver e aprender algo dessa arte. Para abordar semelhante empresa é necessário ter una alma firme e intrépida, respondeu o sacerdote.

"Uma noite, entretanto, o padre fez os seus preparativos e me disse que procurasse um ou dois companheiros. Convidou um homem de Pistola, que também se ocupava de necromancia e dirigimo-nos ao Coliseu. Aí o padre vestiu-se à maneira dos necromantes, depois começou a riscar círculos no chão, acompanhando isto com as mais belas cerimônias que se possam imaginar.

Havia trazido perfumes preciosos, drogas fétidas e fogo. Quando tudo estava em ordem Ele fez urna abertura no circulo e ali nos introduziu, um a um, levando-nos pela mão. Depois distribuiu os papéis. Pôs o talismã nas mãos de seu amigo necromante, encarregou os outros da vigilância do fogo e dos perfumes, depois do que começou as conjurações. Esta cerimônia durou mais de hora e meia. O Coliseu encheu-se de legiões de Espíritos infernais, Quando o padre viu que eram bastante numerosos, voltou-se para mim, que cuidava dos perfumes, e disse:

—    "Benvenuto, pede-lhes alguma coisa.

"Respondi desejar que Eles me reunissem à minha siciliana Angélica.

"Não obstante nenhuma resposta tivéssemos naquela noite, fiquei encantado com o que tinha visto."

"O necromante me disse que era necessário voltar uma segunda vez e que eu obteria tudo quanto quisesse, desde que trouxesse um rapazinho a inda virgem.

"Escolhi um dos meus aprendizes e trouxe ainda dois dos meus amigos.

"Ele pôs-me nas mãos o talismã, mandando que o voltasse para a direção que me fosse indicada. Meu aprendiz ficou colocado debaixo do talismã. O necromante começou suas terríveis evocações, chamou pelo nome uma porção de chefes de legiões infernais e lhes deu ordens em hebraico, em grego e em latim, em nome do Deus incriado, vivo e eterno. Em breve o Coliseu encheu-se de uma quantidade de demônios cem vezes maior que da primeira vez. A conselho do necromante pedi novamente para me encontrar com Angélica. Ele voltou-se para mim e me disse:

"Não os ouviste anunciar que em um mês estarias com ela?" E pediu-me que tivesse firmeza, porque havia ainda mil legiões que não tinham sido chamadas, acrescentando que estas eram mais perigosas e que, de vez que haviam respondido ao meu pedido, era necessário tratá-las com brandura e despedi-las tranqüilamente. Por outro lado o menino exclamava com espanto que percebia milhares de homens terríveis que nos ameaçavam, e quatro enormes gigantes, armados dos pés à cabeça, que pareciam querer penetrar em nosso círculo. Entrementes, a tremer de medo, o necromante tentava conjurá-los, ensaiando a mais doce entonação de voz. O menino mergulhava a cabeça entre os joelhos e gritava:

—    "Eu quero morrer Assim! Estamos mortos!

"Então eu lhe disse:

"Estas criaturas estão todas abaixo de nós: aquilo que vês não passa de fumo e sombra. Levanta, pois, os teus olhos."

"Apenas me havia obedecido, exclamou:

"Todo o Coliseu está em chamas e o fogo vem sobre nós."

"O necromante mandou que fosse queimada assa-fétida. Agnolo, encarregado dos perfumes, estava semi-morto de pavor.

"O ruído e o mau cheiro fizeram o menino levantar a cabeça. Ouvindo o meu riso, animou-se um pouco e disse que os demônios começavam a retirada. Ficamos Assim até o momento em que soaram as matinas. Disse-nos o menino que apenas avistava alguns demônios e a grande distância. Por fim. quando o necromante concluiu o cerimonial e tirou os paramentos, saímos do círculo.

"Enquanto marchávamos para casa, pela Via dei Banchi, Ele garantia que dois demônios faziam piruetas à nossa frente, ora correndo sobre os telhados, ora pelo chão.

"O necromante jurava que desde que havia posto o pé num círculo mágico jamais lhe havia acontecido algo tão extraordinário. Depois tentou convencer-me a me dedicar com ele a um livro que nos deveria produzir riquezas incalculáveis e nos dar os meios de obrigar os demônios a indicar-nos os lugares onde estão ocultos os tesouros que a terra guarda em seu selo...

Depois de diferentes relatos mais ou menos ligados ao que precede, conta Benvenuto como, ao cabo de trinta dias, ou seja no prazo fixado pelos demônios, Ele encontrou sua Angélica.

16.    — Poderíeis dizer o que existe de verídico nesta cena?

—    O necromante era um charlatão; eu era um romancista e Angélica era a minha amante.

17.    — Revistes o vosso protetor Francisco 1?

—    Certamente; Ele reviu muitos outros que não foram seus protegidos.

18.    — Como o julgáveis em vida e como o julgais agora?

— Direi como o julgava: como um príncipe e, como tal, enceguecido por sua educação e pelos que o cercavam.

19.    — E agora, que dizeis?

—    Ele progrediu.

20.    — Ele protegia os artistas por um sincero amor às artes?

—    Sim; mas também por prazer e por vaidade.

21.    — Onde se acha Ele atualmente?

—    Vive.

22. — Na Terra?

—    Não.

23.    — Se o evocássemos agora Ele poderia vir e conversar conosco?

—    Sim. Mas não forceis os Espíritos dessa maneira. Vossas evocações devem ser preparadas com muita antecedência. Então, pouco tereis que perguntar aos Espíritos. Deste modo vos arriscais muito menos a serdes enganados, porque às vezes isto se dá. (São Luís).

24.    — (A São Luís): Poderíeis fazer com que dois Espíritos viessem conversar?

—    Sim.

—    Neste caso seria útil ter dois médiuns?

- Sim; é necessário.

NOTA:    o diálogo em questão foi mantido em outra sessão. Publicá-lo-emos no próximo número.

25.    — (A Cellinb: Qual a origem da vossa vocação para a arte; seria devido a um especial desenvolvimento anterior?

—    Sim: durante muito tempo fui atraído pela poesia e pela beleza da linguagem. Na Terra prendi-me à beleza como reprodução; hoje me ocupo da beleza como invenção.

26.    — Tínheis também habilidade militar, pois o Papa Clemente VII vos confiou a defesa do Castelo de Santo Ângelo. Entretanto, o vosso talento de artista não vos devia dar muita aptidão para a guerra.

—    Tinha talento e sabia aplicá-lo. Em tudo é necessário discernimento; sobretudo na arte militar de então.

27.    — Poderíeis dar alguns conselhos aos artistas que buscam seguir as vossas pegadas?

—    Sim. Dir-lhes-ei apenas que, mais do que o fazem e mais do que fiz, busquem a pureza e a verdadeira beleza. Eles me compreenderão.

28.    — A beleza não é relativa e convencional? O europeu julga-se mais belo que o negro e este mais belo que o branco. Se há uma beleza absoluta, qual o tipo? Podeis dar a vossa opinião a respeito?

— Com prazer. Não quis aludir a uma beleza convencional; ao contrário, a beleza está em toda parte, como um reflexo do Espírito sobre o corpo e não apenas como a forma corpórea. Como dissestes, um negro pode ser belo, de uma beleza apreciada por seus semelhantes, é verdade. Do mesmo modo vossa beleza terrena é deformidade para o Céu, Assim como para vós, brancos, o belo negro quase que se vos afigura disforme. Para o artista o belo é a vida, o sentimento que sabe dar à obra. Com isto dará beleza às coisas mais vulgares.

29.    — Poderíeis guiar um médium na execução de modelagens, Assim como Bernard de Palissy em relação aos desenhos?

— Sim.

30.    — Poderíeis levar o médium de quem vos servis no momento a fazer alguma coisa?

—    Como os outros, mas preferiria um artista, que conhecesse os truques da arte.


 

OBSERVAÇÃO:     Prova a experiência que a aptidão de um médium para tal ou qual gênero de produção depende da flexibilidade que apresenta ao Espírito, abstração feita do seu talento. O conhecimento do ofício e os meios materiais de execução fio constituem o talento, mas é compreensível que, dirigindo o médium, neste encontre o Espírito menos dificuldade mecânica a vencer. Entretanto, voem-se médiuns que fazem coisas admiráveis, embora lhes faltem as primeiras noções, como no caso dos desenhos, da poesia, das gravuras, da música, etc.; mas então é que existe neles uma aptidão inata, sem dúvida devida a um desenvolvimento anterior, do qual apenas conservavam a intuição.


 

31.    — Poderíeis dirigir a senhora A. 5., aqui presente, e que é artista, mas que jamais conseguiu produzir algo como médium?

—    Se ela tiver vontade, experimentarei.

32.    — (A Sra. A. S.): Quando queres começar?

Quando o quiseres, a partir de amanhã.

33.    — Como, porém, saberei que a inspiração virá de ti?

— A convicção vem com as provas. Deixai-a vir lentamente.

34.    — Porque não tenho tido êxito até este momento?

—    Pouca persistência e falta de boa vontade por parte do Espírito a quem solicitas.

35.    — Agradeço-te pela assistência que me prometes.

—    Adeus. Até à vista, companheira de trabalho.

NOTA:    A sra. A. S. pôs-se à obra, mas ainda ignoramos quais os resultados.

PRIMEIRAS LIÇÕES DE MORAL DA INFÂNCIA

Revista Espírita. Fevereiro de 1864

    De todas as chagas morais da sociedade, parece que o egoísmo é a mais difícil de desarraigar. Com efeito, ela o é tanto mais quanto mais é alimentada pelos mesmos hábitos da educação. Parece que se toma a tarefa de, desde o berço, excitar certas paixões que, mais tarde tornam-se uma segunda natureza. E admiram-se dos vícios da sociedade, quando as crianças os sugam com o leite. Eis um exemplo que, como cada um pode julgar, pertence mais à regra do que à exceção.

    Numa família de nosso conhecimento, há uma menina de quatro a cinco anos, de uma inteligência rara, mas que tem os pequenos defeitos das crianças mimadas. Isto é, é um pouco caprichosa, chorona, teimosa, e nem sempre agradece quando lhe dão qualquer coisa, o que os pais cuidam bem de corrigir porque, fora destes defeitos, segundo eles, ela tem um coração de ouro, expressão consagrada. Vejamos como eles se conduzem para lhe tirar essas pequenas manchas e conservar o ouro em sua pureza.

    Um dia trouxeram um doce à criança e, como de costume, lhe disseram: "Tu o comerás se fores boazinha". Primeira lição de gulodice. Quantas vezes, à mesa, não dizem a uma criança que não comerá tal petisco se chorar. "Faze isto, ou faze aquilo", dizem, "e terás creme" ou qualquer outra coisa que lhe apeteça; e a criança é constrangida, não pela razão, mas em vista de satisfazer um desejo sensual que aguilhoa. E ainda muito pior, quando lhe dizem o que não é menos freqüente, que darão o seu pedaço a uma outra. Aqui já não é só a gulodice que está em jogo, é a inveja. A criança fará o que lhe dizem, não só para ter, mas para que a outra não tenha. Querem dar-lhe uma lição de generosidade? Dizem-lhe: "Dá esta fruta ou este brinquedo a fulaninho". Se ela recusa, não deixam de acrescentar, para nela estimular um bom sentimento: "Eu te darei um outro." De modo que a criança não se decide a ser generosa senão quando está certa de nada perder.

    Certo dia, testemunhamos um fato bem característico deste gênero. Era uma criança de cerca de dois anos e meio, a quem tinham feito semelhante ameaça, acrescentando: "Nós o daremos ao irmãozinho e tu não comerás. E para tornar a lição mais sensível, puseram o pedaço no prato deste; mas o irmãozinho, levando a coisa a sério, comeu a porção. A vista disto, o outro ficou um lacre e não era preciso ser o pai, nem a mãe, para não ver o relâmpago de cólera e de ódio que brilhou de seus olhos. A semente estava lançada: poderia produzir bom grão?

Voltemos à menina, da qual falamos. Como não se deu conta da ameaça, sabendo por experiência que raramente a executavam, desta vez foram mais firmes, pois compreenderam que era necessário dominar esse pequeno caráter, e não esperar que a idade lhe tivesse dado um mau hábito. Diziam que é preciso formar cedo as crianças, máxima muito sábia, e para pô-la em prática, eis o que fizeram: "Prometo-te," disse a mãe, " que se não obedeceres, amanhã cedo darei o teu bolo à primeira menina pobre que passar. " Dito e feito. Desta vez queriam o bem e dar-lhe uma boa lição. Assim, no dia seguinte de manhã, avistada uma pequena mendiga na rua, fizeram-na entrar, obrigaram a filha a tomá-la pela mão e ela mesma lhe dar o bolo. Então elogiaram a sua docilidade. Moralidade: a filha disse: "É mesmo, se eu soubesse teria tido pressa em comer o bolo ontem." E todos aplaudiram esta resposta espirituosa. Com efeito, a criança tinha recebido uma forte lição, mas de puro egoísmo, da qual não deixará de aproveitar-se uma outra vez, pois agora sabe o que custa a generosidade forçada. Resta saber que frutos darão mais tarde esta semente quando, com mais idade, a criança fizer aplicação dessa moral em coisas mais sérias que um bolo.

    Sabe-se de todos os pensamentos que este cínico fato pode ter feito germinar nessa cabecinha? Depois disto, como querem que uma criança não seja egoísta quando, em vez de nela despertar o prazer de dar e de lhe representar a felicidade de quem recebe, impõem-lhe um sacrifício como punição? Não é inspirar aversão ao de dar àqueles que necessitam? Um outro hábito, igualmente freqüente é o de castigar a criança mandando-a comer na cozinha com os criados. A punição está menos na exclusão da mesa, do que na humilhação de ir para a mesa da gente de serviço. Assim se acha inoculado, desde a mais tenra idade, o vírus da sensualidade, do egoísmo, do orgulho, do desprezo aos inferiores, das paixões, numa palavra, que com razão são consideradas como as chagas da humanidade. É preciso ser dotado de uma natureza excepcionalmente boa para resistir a tais influências, produzidas na idade mais impressionável, e onde não podem encontrar o contrapeso nem da vontade, nem da experiência. Assim, por pouco que aí se ache o germe das más paixões, o que é o caso mais ordinário, dada a natureza dos Espíritos que, em maioria, se encarnam na terra, não podem senão desenvolver-se sob tais influências, ao passo que seria preciso observar-lhe os menores traços para os apagar.

    Esta falta, sem dúvida, é dos pais; mas, é bom dizer, muitas vezes estes pecam mais por ignorância do que por má vontade. Em muitos, há incontestavelmente, uma culposa despreocupação, mas em muitos outros a intenção é boa, é o remédio que nada vale, ou que é mal aplicado. Sendo os primeiros médicos da alma dos filhos, deveriam ser instruídos, não só de seus deveres, mas dos meios de cumpri-los. Não basta ao médico saber que deve procurar curar: é preciso saber como agir. Ora, para os pais, onde estão os meios de instruir-se nesta parte tão importante de sua tarefa? Hoje dá-se muita instrução à mulher; fazem-na passar por exames rigorosos; mas algum dia foi exigido da mãe que soubesse como fazer para formar o moral de seu filho? Ensinam-lhe receitas caseiras; mas lhe foi iniciada aos mil e um segredos de governar os jovens corações? Assim, os pais são abandonados, sem guia, à sua iniciativa; eis porque tantas vezes seguem caminhos errados; também recolhem, nos erros dos filhos já crescidos, o fruto amargo de sua inexperiência ou de uma ternura mal entendida, e a sociedade inteira lhes recebe o contragolpe.

    Desde que é reconhecido que o egoísmo e o orgulho são a fonte da maioria das misérias humanas; que enquanto reinarem na terra não se pode esperar nem a paz, nem a caridade, nem a fraternidade, então é preciso atacá-los no estado de embrião, sem esperar que fiquem vivazes.

    Pode o Espiritismo remediar esse mal? Sem nenhuma dúvida; e não hesitamos em dizer que é o único suficientemente poderoso para fazê-lo cessar. Por um novo ponto de vista, do qual faz observar a missão e a responsabilidade dos pais; fazendo conhecer a fonte das qualidades inatas, boas ou más; mostrando a ação que se pode exercer sobre os Espíritos encarnados e desencarnados; dando a fé inquebrantável, que sanciona os deveres; enfim, moralizando os próprios pais. Ele já prova sua eficácia pela maneira mais racional pela qual são educadas as crianças nas famílias verdadeiramente Espíritas. Os novos horizontes que abre o Espiritismo fazem ver as coisas de outra maneira. Sendo o seu objetivo o progresso moral da humanidade, forçosamente deverá iluminar o grave problema da educação moral, primeira fonte da moralização das massas. Um dia compreender-se-á que este ramo da educação tem seus princípios, suas regras, como a educação intelectual, numa palavra, que é uma verdadeira ciência. Talvez um dia, também, será imposta a toda mãe de família a obrigação de possuir esses conhecimentos, como se impõe ao advogado a de conhecer o Direito.


 


 


 

SÓCRATES E O ESPIRITISMO

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO.
INTRODUÇÃO
Sócrates, como o Cristo, nada escreveu, ou, pelo menos, nenhum escrito deixou. Como o Cristo, teve a morte dos criminosos, vítima do fanatismo, por haver atacado as crenças que encontrara e colocado a virtude real acima da hipocrisia e do simulacro das formas; por haver, numa palavra, combatido os preconceitos religiosos. Do mesmo modo que Jesus, a quem os fariseus acusavam de estar corrompendo o povo com os ensinamentos que lhe ministrava, também ele foi acusado, pelos fariseus do seu tempo, visto que sempre os houve em todas as épocas, por proclamar o dogma da unidade de Deus, da imortalidade da alma e da vida futura. Assim como a doutrina de Jesus só a conhecemos pelo que escreveram seus discípulos, da de Sócrates só temos conhecimento pelos escritos de seu discípulo Platão. Julgamos conveniente resumir aqui os pontos de maior relevo, para mostrar a concordância deles com os princípios do Cristianismo. Aos que considerarem esse paralelo uma profanação e pretendam que não pode haver paridade entre a doutrina de um pagão e a do Cristo, diremos que não era pagã a de Sócrates, pois que objetivava combater o paganismo; que a de Jesus, mais completa e mais depurada do que aquela, nada tem que perder com a comparação; que a grandeza da missão divina do Cristo não pode ser diminuída; que, ao demais, trata-se de um fato da História, que a ninguém será possível apagar. O homem há chegado a um ponto em que a luz emerge por si mesma de sob o alqueire. Ele se acha maduro bastante para encará-la de frente; tanto pior para os que não ousem abrir os olhos. Chegou o tempo de se considerarem as coisas de modo amplo e elevado, não mais do ponto de vista mesquinho e acanhado dos interesses de seitas e de castas.
Além disso, estas citações provarão que, se Sócrates e Platão pressentiram a idéia cristã, em seus escritos também se nos deparam os princípios fundamentais do Espiritismo.

RESUMO DA DOUTRINA DE SÓCRATES E DE PLATÃO

I. O homem é uma alma encarnada. Antes da sua encarnação, existia unida aos tipos primordiais das idéias do verdadeiro, do bem e do belo; separa-se deles, encarnando, e,
recordando o seu passado, é mais ou menos atormentada pelo desejo de voltar a ele.
Não se pode enunciar mais claramente a distinção e independência entre o princípio inteligente e o princípio material. É, além disso, a doutrina da preexistência da alma; da vaga intuição que ela guarda de um outro mundo, a que aspira; da sua sobrevivência ao corpo; da sua saída do mundo espiritual, para encarnar, e da sua volta a esse mesmo mundo, após a morte.


MÉDIUNS ORGULHOSOS

Livro dos Médiuns, item 228.

Todas as imperfeições morais são outras tantas portas abertas ao acesso dos maus Espíritos. A que, porém, eles exploram com mais habilidade é o orgulho, porque é a que a criatura menos confessa a si mesma. O orgulho tem perdido muitos médiuns dotados das mais belas faculdades e que, se não fora essa imperfeição, teriam podido tornar-se instrumentos notáveis e muito úteis, ao passo que, presas de Espíritos mentirosos, suas faculdades, depois de se haverem pervertido, aniquilaram-se e mais de um se viu humilhado por amaríssimas decepções.

O orgulho, nos médiuns, traduz-se por sinais inequívocos, a cujo respeito tanto mais necessário é se insista, quanto constitui uma das causas mais fortes de suspeição, no tocante à veracidade de suas comunicações. Começa por uma confiança cega nessas mesmas comunicações e na infalibilidade do Espírito que lhas dá. Daí um certo desdém por tudo o que não venha deles: é que julgam ter o privilégio da verdade. O prestígio dos grandes nomes, com que se adornam os Espíritos tidos por seus protetores, os deslumbra e, como neles o amor-próprio sofreria, se houvessem de confessar que são ludibriados, repelem todo e qualquer conselho; evitam-nos mesmo, afastando-se de seus amigos e de quem quer que lhes possa abrir os olhos. Se condescendem em escutá-los, nenhum apreço lhes dão às opiniões, porquanto duvidar do Espírito que os assiste fora quase uma profanação. Aborrecem-se com a menor contradita, com uma simples observação crítica e vão às vezes ao ponto de tomar ódio às próprias pessoas que lhes têm prestado serviço. Por favorecerem a esse insulamento a que os arrastam os Espíritos que não querem contraditores, esses mesmos Espíritos se comprazem em lhes conservar as ilusões, para o que os fazem considerar coisas sublimes as mais polpudas absurdidades. Assim, confiança absoluta na superioridade do que obtém, desprezo pelo que deles não venha, irrefletida importância dada aos grandes nomes, recusa de todo conselho, suspeição sobre qualquer crítica, afastamento dos que podem emitir opiniões desinteressadas, crédito em suas aptidões, apesar de inexperientes: tais as características dos médiuns orgulhosos. Devemos também convir em que, muitas vezes, o orgulho é despertado no médium pelos que o cercam. Se ele tem faculdades um pouco transcendentes, é procurado e gabado e entra a julgar-se indispensável. Logo toma ares de importância e desdém, quando presta a alguém o seu concurso. Mais de uma vez tivemos motivo de deplorar elogios que dispensamos a alguns médiuns, com o intuito de os animar.

A NECESSIDADE FEZ A SOCIEDADE E NÃO O CONTRÁRIO...

Revista Espírita. Julho, 1859.

Conheceis a sua origem. Ela se formou sem um desígnio premeditado, sem um projeto preconcebido. Alguns amigos se reuniam em minha casa num pequeno grupo; pouco a pouco esses amigos me pediram permissão para me apresentar seus amigos. Então não havia um presidente: eram saraus íntimos, de oito ou dez pessoas, como os há às centenas, em Paris e alhures. Era natural, entretanto, que em minha casa eu tivesse a direção do que ali se fazia, já como dono, já em conseqüência dos estudos especiais que havia feito e que me davam certa experiência na matéria.

O interesse despertado por essas reuniões foi crescendo, embora não nos ocupássemos senão de coisas muito sérias. Pouco a pouco, um a um foi crescendo o número dos assistentes e meu modesto salão, muito pouco adequado para uma assembléia, tornou-se insuficiente. Foi então que alguns de entre vós propuseram se procurasse outro mais cômodo e que nos cotizássemos a fim de cobrir as despesas, pois não achavam justo que tudo corresse por minha conta, como até então.

Mas para nos reunirmos regularmente, além de um certo número e num local diferente, era necessário nos conformássemos às exigências legais, ter um regulamento e, conseqüentemente, um presidente titulado. Enfim, era necessário constituir-se uma sociedade. Foi o que aconteceu, com o assentimento da autoridade, cuja benevolência não nos faltou. Era também necessário imprimir aos trabalhos uma direção metódica e uniforme, e houvestes por bem encarregar-me de continuar aquilo que fazia em casa, nas nossas reuniões particulares.

OS SERMÕES CONTINUAM MAS NÃO SE ASSEMELHAM

Em data de 7 de março de 1863, escrevem-nos de Chauny:


"Senhor,

"Vou tentar vos dar uma análise do sermão que nos foi pregado ontem pelo Padre X..., estranho à nossa paróquia. Esse sacerdote, aliás bom pregador, explicou, até onde podia fazê-lo, o que é Deus e o que são os Espíritos. Não deveria ignorar que havia grande número de Espíritas no auditório, de modo que 'tivemos viva satisfação de ouvir falar dos Espíritos e de suas relações com os vivos.

"Não compreendo de outra maneira, disse ele, todos os fatos miraculosos, todas as visões, todos os pressentimentos, senão pelo contato dos que nos são caros e nos precederam no túmulo. E, se eu não temesse levantar um véu muito misterioso, ou vos falar de coisas que não seriam compreendidas por todos, eu me alongaria muito mais sobre este assunto. Sinto-me inspirado e, obedecendo à voz da minha consciência, não seria demasiado a recomendação de que guardeis boa lembrança de minhas palavras: Crer nesse Deus do qual emanam todos os Espíritos e no qual todos deveremos reunir-nos um dia."

"Esse sermão, senhor, pronunciado num tom de doçura, de benevolência e de convicção, ia muito mais ao coração que os discursos furibundos, onde em vão procuramos a caridade pregada pelo Cristo: estava ao alcance de todas as inteligências. Assim, todos o compreenderam e saíram reconfortados, em vez de ficarem, tristes e desencorajados pelos quadros do inferno e das penas eternas e tantos outros assuntos em contradição com a sã razão.


"Aceitai etc.

v..."

Graças a Deus este sermão não é único no gênero: referem-nos vários outros no mesmo sentido, mais ou menos acentuados, que foram pregados em Paris e nos departamentos. E, coisa bizarra, num sentido diametralmente oposto, pregados no mesmo dia e na mesma cidade e quase à mesma hora. Isto nada tem de surpreendente, porque há muitos eclesiásticos esclarecidos, que compreendem que a religião só terá a perder em autoridade, tomando posição errada contra a irresistível marcha das coisas e que, como todas as instituições, deve seguir o progresso das idéias, sob pena de receber, mais tarde, o desmentido dos fatos realizados. Ora, quanto ao Espiritismo, é impossível que muitos desses senhores não se tenham convencido por si mesmos da realidade das coisas. Pessoalmente conhecemos mais de um neste caso. Um deles dizia-nos outro dia: "Podem proibir-me de falar em favor do Espiritismo; mas obrigar-me a falar contra minha convicção, a dizer que tudo isto é obra do demônio, quando tenho a prova material em contrário, é o que jamais farei".

Dessa divergência de opinião ressalta um fato capital: é que a doutrina exclusiva do diabo é uma opinião individual, que necessàriamente terá de curvar-se ante a experiência e a opinião geral. Alguns persistem em suas idéias até in extremis; é possível; mas passarão, e, com eles, suas palavras.

CHEFE DE UMA ESCOLA FILOSÓFICA

Viagem Espírita em 1862.

...reprovam-me por haver formulado princípios prematuros, de me colocar como chefe de uma escola filosófica. Mas acontece que, pondo-se a idéia espírita à parte, não poderia eu acaso arrogar-me, como tantos outros, a autoria de um sistema filosófico, fosse este o mais absurdo?

Se os meus principios são falsos, por que não apresentam outros que os substituam, fazendo-os prevalecer? Ao que parece, entretanto, de modo geral eles não são julgados irracionais, já que encontram aderentes em tão grande número. Mas, não será exatamente isso que excita o mau humor de certas pessoas? Se esses princípios não encontrassem partidários, se fossem ridículos a partir do primeiro enunciado, seguramente, deles não se falaria.

A FRANÇA LEVA O ESTANDARTE...

Revista Espírita. Abril, 1860.

A França leva o estandarte do progresso e deve guiar as outras nações: provam-no os acontecimentos passados e contemporâneos. Fostes escolhidos para serdes o espelho que deve receber e refletir a luz divina, que deve iluminar a Terra, até então mergulhada nas trevas da ignorância e da mentira. Mas se não estiverdes animados pelo amor do próximo e por um desinteresse sem limites; se o desejo de conhecer e propagar a verdade, cujas vias deveis abrir à posteridade não for o único móvel a guiar os vossos trabalhos; se a mais leve reserva mental de orgulho, de egoísmo e de interesse material achar lugar em vossos corações, não nos serviremos de vós, senão como o artista que provisoriamente emprega uma ferramenta defeituosa; viremos a vós até que tenhamos encontrado ou provocado um centro mais rico do que vós em virtudes, mais simpático à falange de Espíritos que Deus enviou para revelar a verdade aos homens de boa vontade. Pensai nisto seriamente. Descei aos vossos corações, sondai-lhes os mais íntimos refolhos e expulsai com energia as más paixões que nos afastam, senão retirai-vos, antes de comprometerdes os trabalhos de vossos irmãos pela vossa presença, ou a dos Espíritos que traríeis convosco.

O Espírito de Verdade

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Aos cuidados de Maria Carolina Gurgacz.

QUALQUER PESSOA PODE...

O Evangelho segundo o Espiritismo.

Autoridade da doutrina espírita

Qualquer que fosse a classe a que pertencesse, tal intérprete houvera sido objeto das prevenções de muita gente e nem todas as nações o teriam aceitado, ao passo que os Espíritos, comunicando-se em todos os pontos da Terra, a todos os povos, a todas as seitas, a todos os partidos, são aceitos por todos. O Espiritismo não tem nacionalidade e não faz parte de nenhum culto existente; nenhuma classe social o impõe, visto que qualquer pessoa pode receber instruções de seus parentes e amigos de além-túmulo.



O ESPIRITISMO APENAS PEDE SEJA CONHECIDO

Revista Espírita. Setembro, 1866.

É um fato constatado que desde que a crítica visou o Espiritismo, mostrou a mais completa ignorância de seus princípios, ainda os mais elementares. Ela o provou superabundantemente, fazendo-o dizer precisamente o contrário do que ele diz, atribuindo-lhe idéias diametralmente opostas às que ele professa. Para ela, sendo o Espiritismo uma fantasia, disse de si para si: "Ele deve dizer e pensar tal coisa." Numa palavra, julgou pelo que imaginou pudesse ele ser, e não pelo que é realmente. Sem dúvida, fácil lhe era esclarecer-se. Mas para isto era preciso ler, estudar, aprofundar uma doutrina puramente filosófica, analisar o pensamento, sondar o alcance das palavras. Ora, isto é um trabalho sério, não do gosto de todo o mundo e até fatigante para alguns. A maior parte dos escritores, encontrando nos escritos de alguns de seus confrades um julgamento acabado, de acordo com suas idéias cépticas, aceitara o fundo sem mais exame, limitando-se a lhes bordar algumas variantes na forma. Foi assim que as mais falsas idéias se propagaram, como ecos da Presse e daí numa parte do público.

Isto, entretanto, não poderia ter senão um tempo. A Doutrina Espírita, que nada tem de oculto, que é clara, precisa, sem alegoria, nem ambigüidades, sem fórmulas abstratas, deveria acabar sendo melhor conhecida. A mesma violência, com a qual era atacada, devia provocar o seu exame. Foi o que aconteceu e provoca a reação que hoje se nota. Não quer isto dizer que todos os que a estudam, mesmo seriamente, devam tornar-se seus apóstolos. Certo que não.
Mas é impossível que um estudo atento, feito sem idéia preconcebida, ao menos não atenue a prevenção que se tinha concebido, se não a dissipar completamente. Era evidente que a hostilidade de que era objeto o Espiritismo, deveria conduzir a este resultado. E por isto que jamais tivemos preocupações a respeito.

Porque o Espiritismo faz menos ruído neste momento, algumas pessoas imaginam que há uma estagnação em sua marcha progressiva. Mas então não vale nada a reviravolta que se opera na opinião? Será uma conquista insignificante ser visto com maus olhos? Desde o princípio o Espiritismo ligou a si todos aqueles em quem essas idéias estavam, por assim dizer, no estado de intuição. Bastou mostrar-se para ser aceito com entusiasmo. E o que explica seu rápido crescimento numérico. Hoje que colheu o que estava maduro, age sobre a massa refratária. O trabalho é mais demorado, os meios de ação são diferentes e apropriados à natureza das dificuldades. Mas, pelas flutuações da opinião sente-se que essa massa se abala ao machado dos Espíritos que a ferem incessantemente de mil maneiras. Por ser menos aparente, o progresso não é menos real: é como o de uma construção que sobe com rapidez e que parece parar quando se trabalha no interior.

Quanto aos Espíritas, o primeiro momento foi de entusiasmo. Mas um estado de superexcitação não pode ser permanente: ao movimento expansivo exterior, sucedeu um estado mais calmo; a fé também é viva, posto mais fria, mais racional e, por isto mesmo, mais sólida. A efervescência deu lugar a uma satisfação íntima mais suave, dia a dia melhor apreciada, pela serenidade que proporciona a inabalável confiança no futuro.

Hoje, pois, o Espiritismo começa a ser julgado de outro ponto de vista, Não o acham mais tão estranho e tão ridículo, porque o conhecem melhor; os Espíritas não mais são apontados a dedo, como animais curiosos; se muitas pessoas ainda repetem o fato das manifestações, que não podem conciliar com a idéia que fazem do mundo invisível, não mais contestam o alcance filosófico da doutrina. Quer seja a moral velha ou nova, nem por isso deixa de ser uma doutrina moral, que não pode senão excitar ao bem os que a professam. E o que reconhece quem quer que julgue com conhecimento de causa. Agora, tudo quanto censuram aos Espíritas é crer na comunicação dos Espíritos; mas lhes desculpam essa pequena fraqueza em favor do resto. Sobre este ponto os Espíritos encarregam-se de mostrar se existem.

OS MÁRTIRES DO ESPIRITISMO

Revista Espírita. Abril, 1862.

A propósito dos milagres do Espiritismo, que nos haviam proposto e de que tratamos no último número, também nos propuseram esta pergunta: os mártires selaram com sangue a verdade do cristianismo; o Espiritismo tem mártires?

Tendes mesmo muito interesse em ver os Espíritos sobre a fogueira ou lançados às feras! Isso leva a supor que não vos falta boa vontade, caso isso ainda fosse possível. Quereis à fina força pôr o Espiritismo no nível de uma religião! Notai, porém, que ele jamais pretendeu isso; jamais se arvorou em rival do Cristianismo, do qual se declara filho. Ele combate os seus mais cruéis inimigos: o ateísmo e o materialismo, Mais uma vez, é uma filosofia que repousa sobre as bases fundamentais de toda religião e sobre a moral do Cristo. Se renegasse o Cristianismo, ele se desmentiria, suicidar-se-ia. São os seus inimigos que o mostram como uma nova seita, que lhe deram sacerdotes e alto clero. Estes gritarão tantas e tantas vezes que é uma religião, que a gente acabaria acreditando. Será necessário ser uma religião para ter mártires? As ciências, as artes, o gênio, o trabalho em todos os tempos não têm tido os seus mártires, tanto quanto as idéias novas?

Não ajudam a fazer mártires os que apontam os espíritas como condenados, como párias a cujo contato se deve fugir; que açulam contra eles a população ignorante, e chegam, até, a lhes roubar os recursos do trabalho, esperando vencê-los pela fome, em falta de bons argumentos? Bela vitória, se triunfassem! Mas a semente está lançada e germina em toda a parte. Se é cortada num lugar, brota em cem outros. Tentai então ceifar toda a Terra!

RESULTADO DA LEITURA DAS OBRAS ESPÍRITAS

Revista Espírita. Abril, 1863.

Carta de Michel de Lyon

Eu fui, sucessivamente, católico fervoroso, fatalista, materialista, filósofo resignado. Mas dou graças a Deus por não ter sido ateu. Eu praguejava contra a Providência, sem contudo negar a Deus.

Para mim, de há muito, as chamas do inferno estavam extintas; mas, contudo, meu Espírito não estava tranqüilo quanto ao futuro. Os prazeres celestes preconizados pela Igreja não tinham atrativos suficientes para exortarem à virtude, entretanto, raramente a consciência aprovava a minha conduta. Estava em continua dúvida. Apropriando-me do pensamento de um filósofo de que "a consciência foi dada ao homem para o vexar", eu tinha chegado à conclusão de que o homem deve evitar tudo quanto o possa embrulhar com a consciência. Assim, teria evitado cometer uma grande falta porque minha consciência a isso se opunha; teria praticado algumas boas obras para experimentar a satisfação que elas provocavam. Mas nada via além. A natureza me havia tirado do nada; a morte devia levar-me ao nada. este pensamento por vezes me mergulhava numa profunda tristeza. Mas, por mais que consultasse, que buscasse, nada me dava a palavra do enigma. As disposições sociais me chocavam; muitas vezes indagava por que havia nascido no sopé da escada, onde me achava tão mal colocado. Não podendo dar a resposta, dizia: o acaso!

Uma consideração de outro gênero me fazia sentir horror do nada! De que valia instruir-se? Para brilhar num salão?... é preciso fortuna. Para se tornar um poeta, um grande escritor?... é preciso um talento natural. Mas para mim, simples artesão, talvez destinado a morrer sobre o banco de trabalho, ao qual me liguei por necessidade de ganhar o pão diário... para que instruir-me? Eu não sabia quase nada e isso já era muito, pois nada me servia em vida e devia apagar-se com a morte. Tal pensamento apresentava-se muitas vezes em meu Espírito. Eu tinha chegado a maldizer essa instrução dada gratuita ao filho do operário. Posto que muito exígua, muito incompleta, essa instrução me parecia supérflua e não só nociva à felicidade do pobre, mas incompatível com as exigências de sua condição. Em minha opinião era uma calamidade a mais para o pobre, pois lhe dava a compreender a importância do mal sem lhe indicar o remédio. É fácil explicar os sofrimentos morais de um homem, que, sentindo bater no peito um coração nobre, é obrigado a curvar. a sua inteligência à vontade de um Individuo do qual um punhado de escudos, por vezes mal adquiridos, constitui todo o mérito e todo o saber.

E então que se precisa apelar à filosofia. E olhando o topo da escada, a gente diz: o dinheiro não faz a felicidade. Depois, olhando para baixo, vêem-se criaturas numa posição inferior à sua e se acrescenta: Tenhamos paciência; há outras a lamentar mais que nós. Mas se, por vezes, essa filosofia dá resignação, jamais produz a felicidade.

Eu estava nessa situação quando o Espiritismo veio tirar-me do atoleiro de provas e de incertezas, onde me afundava cada vez mais, a despeito dos esforços para sair.

Durante dois anos ouvi falar do Espiritismo sem lhe dar atenção séria. Julgava, como diziam seus adversários, tratar-se de mais uma palhaçada. Mas, enfim, fatigado de ouvir falar de uma coisa da qual apenas sabia o nome, resolvi instruir-me. Adquiri O livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns. Li, ou melhor, devorei essas duas obras com uma avidez e uma satisfação impossível de definir. Qual não foi minha surpresa, lançando os olhos sobre as primeiras páginas, ao ver que se tratava de filosofia moral e religiosa, quando eu esperava ler um tratado de magia acompanhado de histórias maravilhosas! Logo a surpresa deu lugar à convicção e ao reconhecimento. Quando terminei a leitura, percebi com felicidade que era Espírita há muito tempo. Agradeci a Deus que me concedia este insigne favor De agora em diante poderei orar sem temer que minhas preces se percam no espaço e suportarei com alegria as tribulações desta curta existência, sabendo que a minha miséria atual não passa de justa conseqüência de um passado culposo ou um período de prova para alcançar um futuro melhor. Não mais a dúvida. A justiça e a lógica nos desvendam a verdade. E nós aclamamos com felicidade esta benfeitora humanidade.

A INGRATIDÃO (Sócrates)

Revista Espírita. Março de 1861.

(ENVIADA PELO SR. PICHON, MÉDIUM DE SENS)

É preciso sempre ajudar aos fracos e aos que desejam fazer o bem, embora saibam de antemão que não se será recompensado por aqueles a quem o fazemos, porque aquele que se recusa a vos ser grato pela assistência que lhe destes, nem sempre é tão ingrato quanto o imaginais; muitas vezes age segundo o ponto de vista determinado por Deus; mas os seus pontos de vista não são, e muitas vezes não podem ser apreciados por vós. Baste-vos saber que é necessário fazer o bem por dever e por amor de Deus, pois disse Jesus: "Aquele que faz o bem por interesse já recebeu sua recompensa". Sabei que se aquele a quem prestais serviço esquece o benefício, Deus vo-lo terá mais em conta do que se já tivésseis sido recompensado pela gratidão do vosso favorecido.


 

SÓCRATES

EGOÍSMO E ORGULHO (Pascal)

Revista Espírita. Outubro de 1861.

(SOCIEDADE ESPÍRITA DE SENS)

Se os homens se amassem com amor comum, a caridade seria melhor praticada. Mas seria necessário que vos esforçásseis para vos desembaraçardes desta couraça que cobre os vossos corações a fim de serdes mais sensíveis aos corações que sofrem. A rijeza mata os bons sentimentos; o Cristo não desanimava; aquele que a ele se dirigisse, fosse quem fosse, não era repelido: a mulher adúltera e o criminoso eram por ele socorridos; jamais temia que sua própria reputação sofresse por isso. Quando, pois, o tomareis por modelo de todas as vossas ações? Se a caridade reinasse na Terra, o mau não teria domínio; fugiria envergonhado; ocultar-se-ia, porque em toda parte sentir-se-ia deslocado. Então o mal desapareceria da face da Terra: convencei-vos disto. Começai por dar exemplo, vós mesmos; sede caridosos para com todos, indistintamente; esforçai-vos por tomar o hábito de não mais notar os que vos olham com desdém; crede sempre que eles merecem vossa simpatia e deixai a Deus o cuidado de toda justiça, porque a cada dia, em seu reino, ele separa o joio do trigo. O egoísmo é a negação da caridade. Ora, sem caridade não há repouso na sociedade. Digo mais: nem segurança; com o egoísmo e o orgulho, que se dão as mãos, será sempre uma corrida ao mais ágil, uma luta de interesses, onde são calcadas aos pés as mais santas afeições, onde nem mesmo os laços sagrados da família são respeitados.


 

PASCAL


 


 

DO PROJETO DE CAIXA GERAL DE SOCORRO E OUTRAS INSTITUIÇÕES PARA OS ESPÍRITAS

Revista Espírita. Julho de 1866.

Num dos grupos espíritas de Paris um médium recebeu ultimamente a comunicação que segue, do Espírito de sua avó:

"Meu caro filho, vou falar-te um instante das questões de caridade, que te preocupavam esta manhã, a caminho do trabalho.

"As crianças que são entregues a amas mercenárias; as mulheres pobres que são forçadas, com desprezo do pudor que lhes é caro, a servir nos hospitais de material experimental aos médicos e aos estudantes de medicina, são duas grandes chagas que todos os bons corações devem aplicar-se em curar. e isto não é impossível. Que os Espíritas façam como os católicos: que se imponham um tanto por semana e capitalizem esses recursos: chegarão a fundações sérias, grandes e realmente eficazes. A caridade que alivia um mal presente é uma caridade santa, que encorajo com todas as minhas forças; mas a caridade que se perpetua em fundações imortais como as misérias que é destinada a aliviar, é a caridade inteligente e que me tornaria feliz ao vê-la posta em prática.

"Gostaria que um trabalho fosse elaborado com o fito de criar, de inicio um primeiro estabelecimento de proporções restritas, Quando se tivesse visto o bom resultado dessa primeira criação, passar-se-ia a outra, que seria aumentada pouco a pouco, como Deus quer que seja aumentada, porque o progresso se realiza por uma marcha lenta, sábia, calculada. Repito que o que proponho não é difícil; não haverá um único espírita verdadeiro que ousasse faltar ao apelo para o alívio de seus semelhantes, e os Espíritas são bastante numerosos para formar, pelo acúmulo de um tanto por semana, um capital suficiente para um primeiro estabelecimento ao serviço das mulheres doentes, que seriam cuidadas por mulheres e que cessariam então de ocultar seus sofrimentos para salvar o seu pudor.

"Entrego estas reflexões à meditação das pessoas benevolentes que assistem à sessão e estou convicta que elas darão bons frutos. Os grupos de província ligar-se-iam prontamente a uma idéia tão bela e, ao mesmo tempo, tão útil e paternal. Aliás seria um monumento do valor moral do espiritismo tão caluniado e que o será ainda por muito tempo encarniçadamente.

"Eu disse que a caridade local é boa: aproveita a um indivíduo, mais não eleva o espírito das massas como uma obra duradoura. Não seria dado que se pudesse repelir a calúnias dizendo aos caluniadores:

"Eis o que nós fizemos. A árvore se reconhece pelo fruto; a árvore má não dá bons frutos, e a boa árvore não os dá maus."

"Pensai também nas pobres crianças que saem dos hospitais e que vão morrer em mãos mercenárias, dois crimes simultâneos: o de entregar a criança desarmada e fraca e o crime do que a sacrificou sem piedade. Que todos os corações elevem seus pensamentos para as tristes vítimas da sociedade improvidente, e que procurem encontrar uma boa solução para as salvar de suas misérias. Deus quer que se tente, e dá os meios de o alcançar; é preciso agir. Triunfa-se quando se tem fé e a fé transporta montanhas. Que o Sr. Kardec trate a questão, em seu jornal e vereis, como será aclamada com dedicação e entusiasmo.

"Eu disse que em preciso um monumento material, que atestasse a fé dos Espíritas, como as pirâmides do Egito atestam a vaidade dos Faraós; mas, em vez de fazer loucuras, fazei obras que levam o cunho do próprio Deus. Todo o mundo deve compreender-me; não insisto.

"Retiro-me, meu caro filho, Tua boa avó, como o vês ama sempre os seus netos, como te amava quando eras criancinha. Que tu os ames como eu, e que penses em encontrar uma boa organização. Poderás se o quiseres e, se necessário, nos te ajudaremos. Eu te abençôo."

MARIEG

A idéia de uma caixa central e geral de socorro, formada entre os Espíritas já foi concebida e emitida por homens animados de excelentes intenções, mas não basta que uma idéia seja grande, bela e generosa antes de tudo seja praticável. Certamente demos mostras suficientes de nosso devotamento à causa do Espiritismo, para não ser suspeito de indiferença a respeito. Ora, é precisamente por força de nossa mesma solicitude, que buscamos por em guarda contra o entusiasmo que cega.

Antes de empreender uma coisa, é preciso friamente calcular-lhe o pró e o contra, a fim de evitar choques sempre desagradáveis, que não deixariam de ser explorados por nossos adversários, O Espiritismo só deve marchar com passo firme e quando põe o pé num lugar, deve estar seguro de pisar terreno firme. Nem sempre a vitória é do mais apressado, mas muito mais seguramente do que sabe aguardar o momento propício.
Há resultados que não podem ser senão obra do tempo e da infiltração da idéia no espírito das massas. Saibamos, pois, esperar que a árvore esteja formada, antes de lhe pedir uma colheita abundante.

Desde muito tempo nós vos propúnhamos tratar a fundo da questão em tela, para a colocar no seu verdadeiro terreno e premunir contra as ilusões de projetos mais generosos do que refletidos, e cujo abortamento teria conseqüências lamentáveis. A comunicação relatada acima, e sobre a qual tiveram a bondade de pedir nossa opinião, não oferece uma ocasião muito natural. Examinaremos, pois, tanto o projeto de centralização de recursos, quanto o de algumas outras instituições e estabelecimentos especiais para o Espiritismo.

Antes de tudo convém dar-se conta do estado real das coisas. Sem dúvida os Espíritas são muito numerosos e seu número cresce incessantemente. Sob esse ponto oferece um espetáculo único, o de uma propagação incrível na história das doutrinas filosofias porque não há uma só, sem excetuar o cristianismo, que tenha ligado tantos partidários em tão curto número de anos. isto é um fato notório, que confunde os próprios antagonistas. E o que não é menos característico, é que essa propagação, em vez de fazer-se num centro único, opera-se simultaneamente em toda a superfície do globo e em milhares de centros. Disso resulta que os adeptos, posto sejam muito numerosos ainda não formam, em parte alguma, uma aglomeração compacta.

Esta dispersão, que à primeira vista parece uma causa de fraqueza, é, ao contrário, um elemento de força com mil Espíritas disseminados num país fazem mais pela propagação da idéia do que se estivessem amontoados numa cidade. Cada individualidade é um foco de ação, um germe que produz brotos; por sua vez, cada broto produz mais ou menos e os ramos se reúnem pouco a pouco e cobrem a região mais prontamente do que se a ação partisse de um ponto único: é absolutamente como se um punhado de grãos tivesse sido atirado ao vento, em vez de serem postas todas juntas no mesmo buraco. por esta quantidade de pequenos centros a doutrina ainda é menos vulnerável do que se tivesse um só, contra o qual os inimigos poderiam dirigir toda a sua força. Um exército primitivamente compacto, que se dispersou pela força ou por outra causa, é um exército perdido. Aqui o caso é diferente: a disseminação dos Espíritas não é um caso de dispersão; é o estado primitivo tendendo à concentração, para formar uma vasta unidade. A primeira está no fim; a segunda no seu nascimento.

Aqueles, pois, que se lamentam do seu isolamento numa localidade, respondemos: Agradecei ao céu, ao contrário, por vos haver escolhido para ai lançar as primeiras sementes. Talvez não germinem imediatamente; talvez não recolheis os frutos; talvez mesmo tenhais que sofrer em vosso trabalho, mas pensei que não se prepara uma terra sem trabalho e tende a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, o que tiverdes semeado frutificará. Quanto mais ingrata for a tarefa, mais méritos tereis, ainda quando apenas rasgásseis o caminho aos que vierem depois de vós.

Sem duvida se os Espíritas devessem ficar sempre no estado de isolamento, seria uma causa permanente de fraqueza; mas a experiência prova a que ponto a doutrina é vivaz; e sabe-se que para ramo abatido há dez que renascem. Sua generalização é, pois, uma questão de tempo. Ora, por mais rápida que seja a sua marcha, ainda é preciso tempo suficiente e, enquanto se trabalha a obra, é preciso saber esperar que o fruto esteja maduro antes de colher.

Em disseminação momentânea dos Espíritas, essencialmente favorável à propagação da doutrina, é um obstáculo à execução de obras coletivas de certa importância, pela dificuldade, se não mesmo pela impossibilidade, de reunir num mesmo ponto elementos bastante numerosos.

Dirão que é precisamente para obviar esse inconveniente, para apertar os laços de confraternidade entre os membros isolados da grande família espírita, que se propõe a criação de uma caixa central de socorro. Certo aqui está um pensamento grande e generoso, que seduz à primeira vista. Mas já se refletiu nas dificuldades de execução?

Uma primeira questão apresenta-se. Até onde estender-se-ia a ação dessa caixa? Limitar-se-ia à França, ou compreenderia os outros países? Há Espíritas em todo o globo. Os de todos os países de todas as castas, de todos os cultos não são nossos irmãos? Se, pois, a caixa recebesse contribuições de Espíritas estrangeiros, o que aconteceria infalivelmente, teria o direito de limitar sua assistência a uma única nacionalidade? Poderia conscienciosamente e caridosamente perguntar ao que sofre se é russo, polonês, alemão, espanhol, italiano ou francês? A menos que faltasse ao seu título, ao seu objetivo, ao seu dever, deveria estender a sua ação do Peru à China. Basta pensar na complicação das engrenagens de uma tal empresa para ver quanto ela é quimérica.

Suponhamo-la circunscrita à França e não seria menos uma administração colossal, um verdadeiro ministério. Quem quereria assumir a responsabilidade de um tal manejo de fundos? Para uma gestão dessa natureza não bastariam integridade e devotamento: seria necessária uma alta capacidade administrativa. Admitamos, entretanto, vencidas as primeiras dificuldades: como exercer um controle eficaz sobre a extensão e a realidade das necessidades, sobre a sinceridade da qualidade de Espírita? Uma semelhante instituição em breve veria surgirem adeptos ou que tais se dizem, aos milhões; mas não seriam estes que iriam alimentar a caixa. Do momento em que esta existisse, julgá-la-iam inesgotável e em breve ela se veria impossibilitada de satisfazer a todas as exigências de seu mandato. Fundada em tão vasta escala consideramo-la como impraticável e por nossa conta pessoal não lhe daríamos a mão.

Por outro lado, não teria ela que temer oposição à sua constituição? O Espiritismo apenas nasce e ainda não está, por toda a parte, em odor de santidade, para que se julgue ao abrigo de suposições malévolas. Não poderiam enganar-se quanto às suas intenções numa operação de tal gênero? Não podiam supor que, sob uma capa, oculte ele outro objetivo? Numa palavra, fazer assimilações, de que seus adversários alegariam exceção de justiça para excitar a desconfiança contra si? Por sua natureza, o Espiritismo nem pode ser uma filiação, nem uma congregação. Deve, pois, no seu próprio interesse, evitar tudo quanto lhe desse aquela aparência.

Então é preciso que, por medo, o Espiritismo fique estacionário? Não é agindo, perguntarão, que ele mostrará o que é, que dissipava as desconfianças e vencerá a calúnia? Sem nenhuma dúvida; mas não se deve pedir à criança o que exige as forças da idade viril. Longe de servir ao Espiritismo, seria comprometê-lo e expô-lo aos golpes e à chacota dos adversários, misturar o seu nome a coisas quiméricas. Certo que ele deve agir, mas no limite do possível. Deixemo-lo, pois, tempo de adquirir as forças necessárias e então dará mais do que se pensa. Nem mesmo está completamente constituído em teoria. Como querem que dê o que só pode ser resultado do complemento de doutrina?

Aliás há outras considerações que importa levar em conta.

O Espiritismo é uma crença filosófica e basta simpatizar com os princípios Fundamentais da doutrina para ser Espírita. Falamos dos Espíritas convictos e não dos que afivelam a máscara, por motivos de interesses ou outros também pouco confessáveis. Esses não fazem número; neles não há nenhuma convicção. Dizem-se Espíritas hoje na esperança de ai encontrar vantagens; serão adversários amanhã, se não encontrarem o que buscam; ou então far-se-ão vitimas de sua dedicação fictícia, e acusarão os Espíritas de ingratidão por não os sustentar. Não seriam os últimos a explorar a caixa geral, para se compensar de abortadas ou reparar desastres causados por sua incúria ou sua imprevidência e a lhe atirar a pedra, se ela não os satisfaz. Não é para admirar, pois todas as crenças contam com semelhantes auxiliares e vêem a representação de semelhantes comédias.

Há também a massa considerável dos Espíritas de intuição; os que não pela tendência e pela predisposição de idéias, sem estudo prévio; os indecisos, que ainda flutuam, a espera dos elementos de convicção, que lhes são necessários. Sem exagero, podem ser avaliados em um quarto da população. E a grande pepineira, onde se recrutam os adeptos, mas ainda não contam no número.

Entre os Espíritas reais, os que constituem o verdadeiro corpo dos aderentes, há certas distinções a fazer. Em primeira linha há que colocar os adeptos de coração, animados de fé sincera, que compreendem o objetivo e o alcance da doutrina e lhe aceitam todas as conseqüências para si mesmos; seu devotamento é a toda prova e sem segunda intenção; os interesses da causa que são os da humanidade, lhes não sagrados e jamais os sacrificarão a uma questão de amor-próprio ou de interesse pessoal. Para eles o lado moral não é simples teoria: esforçam-se por pregar pelo exemplo: não só têm a coragem de sua opinião; consideram-na uma glória e, conforme a necessidade, sabem pagar com sua pessoa.

Vêm a seguir os que aceitam a idéia como filosofia, porque lhes satisfaz a visão, mas cuja fibra moral não é suficientemente tocada. Para compreender as obrigações que a doutrina impõe aos que a assimilam. O homem velho está sempre lá e a reforma de si mesmo lhes parece tarefa muito pesada. Mas como não estão menos firmemente convencidos, entre eles encontram-se propagadores e zelosos defensores.

Depois há pessoas levianas, para quem o espiritismo está todo inteiro nas manifestações. Para estes é um fato e nada mais. O lado filosófico passa inapercebido, O atrativo de curiosidade é para eles o móvel principal. Extasiam-se ante o fenômeno e ficam frios ante uma conseqüência moral.

Enfim, há o número ainda muito grande dos Espíritas mais ou menos sérios, que não puderam colocar-se acima dos preconceitos e do que dirão, retidos pelo medo do ridículo; aqueles que consideramos pessoais ou de família, e interesses por vezes respeitáveis a defender, de certo modo forçam a manter-se afastadas. Todos esses, numa palavra, que por uma ou por outra causa, boa ou má, não se põem em evidencia. A maioria não desejava mais do que confessar-se; umas não ousam ou não o podem. Isto virá mais tarde, à medida que virem outros fazê-los e que não há perigo. Serão os Espíritas de amanha como outros são os da véspera. Contudo, não se pode querer muito deles, porque é preciso uma força de caráter, que não é dada a todos, para enfrentar a opinião em certos casos. E necessário, pois, dar lugar à fraqueza humana. O Espiritismo não tem o privilégio de transformar subitamente a humanidade e se a gente pode admirar-se de uma coisa é do número de reformas que ele já operou em tão pouco tempo. Ao passo que nuns, onde ele encontra o terreno preparado, entra, por assim dizer, de uma vez, noutros só penetra gota a gota, conforme a resistência que encontra no caráter e nos hábitos.

Todos esses adeptos se incluem no número, e por mais imperfeitos que sejam, são sempre úteis, posto que em limites restritos. Até nova ordem, se não servissem senão para diminuir as fileiras da oposição já seria alguma ciosa. E por isso que não se deve desdenhar nenhuma adesão sincera, mesmo parcial.

Mas quando se trata de uma obra coletiva importante, onde cada um deve trazer seu contingente de ação, como seria a de uma caixa geral, por exemplo, convém fazer entrarem essas considerações em linha de conta, porque a eficácia do concurso que se pode esperar está na razão da categoria a que pertencem os adeptos. E bem evidente que não se pode contar muito com os que não levam a sério o lado moral da doutrina e, ainda menos, com os que não ousam mostrar-se.

Restam, pois, os adeptos de primeira categoria. Certo, destes tudo se pode esperar; são soldados de vanguarda e que o mais das vezes só esperam a chamada, quando se trata de dar prova de abnegação e de devotamento, mas numa cooperativa financeira, cada um contribui conforme os seus recursos e o pobre não pode dar senão o seu óbolo. Aos olhos de Deus este tem um grande valor, mas para as necessidades materiais tem apenas o seu valor intrínseco. Desfalcando todos aqueles cujos meios de subsistência são limitados, aqueles próprios que vivem ao Deus dará, o número dos que poderiam contribuir um pouco largamente e de maneira eficaz é relativamente restrito.

Uma observação ao mesmo tempo interessante e instrutiva é a da proporção dos adeptos segundo as categorias. Essa proporção variou sensivelmente e se modifica em razão de progresso da doutrina. Mas neste momento pode ser avaliada, aproximadamente, da maneira seguinte: 1ª
categoria, Espíritas completos, de coração e devotamento, 10%; 2ª
categoria, Espíritas incompletos, buscando mais o lado científico que o lado moral, 25%;3ª
categoria, Espíritas levianos, só interessados nos fatos materiais 30%, (esta proporção era inversa há dez anos); 4ª
categoria, Espíritas não confessos ou que se ocultam, 60%.

Relativamente à posição social, podem fazer-se duas classes gerais: de um lado, aqueles cuja fortuna é independente; do outro, os que vivem do trabalho. Em 100 Espíritas da 1ª
categoria, há em média 5 ricos para 95 trabalhadores; na 2ª,
70 ricos para 30 trabalhadores; na 3ª,
80 ricos para 20 trabalhadores; e na 4ª,
99 ricos para l trabalhador.

Seria ilusão pensar que em tais condições uma caixa geral pudesse satisfazer a todas as necessidades quando a do mais rico banqueiro não bastaria. Não seriam milhares de francos necessários anualmente, mas alguns milhões.

De onde essa diferença na proporção entre os que são ricos e os que não o são? A razão é muito simples: os aflitos acham no Espiritismo uma imensa consolação, que os ajuda a suportar o fardo das misérias da vida; dá-lhes a razão dessas misérias e a certeza de uma compensação. Assim, não é surpreendente que, gozando mais beneficio, o apreciem mais e o tomem mais a sério do que os felizes do mundo.

Admiraram-se de que, quando semelhantes projetos vieram a público, nós não tivéssemos apressado em os apoiar e os patrocinar. E que, antes de tudo pegamo-nos a idéias positivas e práticas; o Espiritismo é para nós uma coisa muito séria, para o empenhar prematuramente em vias onde pudesse encontrar decepções. De nossa parte, não há nisso nem despreocupação nem pusilanimidade, mas prudência e sempre que estiver maduro para ir à frente não ficaremos na retaguarda.

Não é que nos atribuamos mais perspicácia do que aos outros; mas a nossa posição, permitindo-nos a visão de conjunto, permite-nos julgar o forte e o fraco talvez melhor do que os que se acham num círculo mais restrito. Aliás damos a nossa opinião e não pretendemos impô-la a ninguém.

O    que acaba de ser dito a respeito da criação de uma caixa geral e central de socorro, aplica-se naturalmente aos projetos de fundações de estabelecimentos hospitalares e outros. Ora, aqui a utopia é ainda mais evidente, Se é fácil lançar um projeto sobre o papel, não é o mesmo quando se chega às vias e meios de execução. Construir um edifício ad hoc já é enorme; é quando estivesse pronto, seria preciso prove-lo de pessoal suficiente e capaz, depois assegurar a sua manutenção, porque tais estabelecimentos custam muito e nada rendem.
Não são apenas grandes capitais que se requerem, mas grandes rendimentos. Admitamos, entretanto, que à força de perseverança e de sacrifícios chegue-se a criar, como o dizem, um pequeno modelo; quão pequenas não seriam as necessidades a que poderia satisfazer em relação a massa e a disseminação dos necessitados em uma vasta região! Seria uma gota d'água num riacho; e, se há tantas dificuldades para um só, mesmo em pequena escala, muito pior seria se se tratasse de os multiplicar. O dinheiro assim empregado não aproveitaria, pois, na realidade, senão, a alguns indivíduos, ao passo que, judiciosamente repartidos, ajudaria a viver um grande número de infelizes.

Seria um modelo, um exemplo. Seja. Mas porque aplicar-se em criar quimeras, quando as coisas existem prontas, montadas, organizadas, com meios poderosos que jamais disporão os particulares?
Esses estabelecimentos deixam desejar; há abusos; não correspondem a todas as necessidades, isto é evidente e, contudo, e se os compara ao que eram há menos de um século, constata-se uma imensa diferença e com progresso constante; cada dia vê-se a introdução de um melhoramento. Não se poderia pois duvidar que com o tempo novos progressos fossem realizados pela força das coisas. As idéias espíritas devem, infalivelmente, apressar a reforma de todos os abusos, porque, melhor que outras, penetram os homens com o sentimento de seus deveres, por toda a parte onde penetram, os abusos caem e o progresso se realiza. E necessário empenhar-se, pois, em as espalhar: ai está a coisa possível e pratica, a verdadeira alavanca, alavanca irresistível quando se tiver adquirido a força suficiente pelo desenvolvimento completo dos princípios e pelo número dos aderentes sérios. A julgar do futuro pelo presente, pode se afirmar que o Espiritismo terá levado à reforma de muitas coisas muito antes que os Espíritas tenham podido acabar o primeiro estabelecimento do gênero desse de que falamos, se algum dia o empreenderem, mesmo que tivessem de dar um cêntimo por semana. Porque, então, gastar energias em esforços supérfluos, em vez de as concentrar num ponto acessível e que seguramente deve conduzir ao objetivo? Mil adeptos ganhos para causa e espalhados em mil lugares diversos apressarão mais a marcha do progresso do que um edifício.

Diz o Espírito que ditou a comunicação acima que o Espiritismo deve se afirmar e mostrar o que é por um monumento durável, elevado a caridade, Mas de que serviria um monumento à caridade, se esta não estiver no coração?
Ele eleva um mais durável que um monumento de pedra: é a doutrina e suas conseqüências para o bem da humanidade. E nisto que cada um deve trabalhar com todas as suas forças porque este durará mais que as pirâmides do Egito.

Pelo fato de que esse Espírito se engana, segundo nós sobre tal ponto, isto nada lhe tira de suas qualidades: incontestavelmente está animado de excelentes sentimentos, Mas um Espírito pode ser muito bom, sem ser um apreciador infalível de todas as coisas; nem todo bom soldado é necessariamente um bom general.

Um projeto de realização menos quimérica é o da formação de sociedades de socorros mútuos entre os Espíritas de uma mesma localidade. Mas, ainda aqui, não se pode escapar a algumas das dificuldades que assinalamos: a falta de aglomeração e a cifra ainda pequena daqueles com os quais se pode contar para um concurso efetivo. Uma outra dificuldade vem da que assinalamos: que fazem dos Espíritas e de certas classes de indivíduos. Cada profissão apresenta uma delimitação claramente marcada. Pode facilmente estabelecer-se uma sociedade de socorros mútuos entre gente de uma mesma profissão, entre os de um culto, porque se distinguem por algo de característico, e por uma posição de certo modo oficial e reconhecida. Assim não se dá com os Espíritas, que não são registrados como tais em parte alguma e cuja crença é constatada por nenhuma caderneta. Há-os de todas as classes sociais, em todas as profissões, em todos os cultos, e em parte alguma se constituem em classe distinta. Sendo o Espiritismo uma crença fundada numa convicção íntima, da qual se devem contas a ninguém, quase que só se conhecem os que se põem em evidência ou freqüentem os grupos e não o número considerável dos que, sem se ocultar, não fazem parte de nenhuma reunião regular.

Eis por que, a despeito da certeza em que se esta de que os adeptos são numerosos, é difícil chegar a uma, cifra bastante, quando se trata de uma operação coletiva.

A respeito das sociedades de socorros mútuos, apresenta-se uma outra consideração. O espiritismo não forma, nem deve formar classe distinta pois se dirige a todos; por seu princípio mesmo deve estender sua caridade indistintamente, sem inquirir da crença, porque todos os homens são irmãos. Se fundar instituições de caridade exclusivas para os seus adeptos, é forçado a perguntar ao que reclama assistência: "Sois dos nossos? Que prova nos dais? Assim, nada podemos fazer por vos."Assim mereceria uma censura de intolerância, que dirige dos outro. Não, para fazer o bem, o Espiritismo não deve sondar a consciência e a opinião e, mesmo que tivesse diante de si um inimigo de sua fé, mas infeliz, deve vir em seu auxílio nos limites de suas faculdades. E agindo assim que o Espiritismo mostrará o que é e provará que vale mais que o que lhe opõem.

As sociedades de socorros mútuos se multiplicam por todos os lados e em todas as classes de trabalhadores. E uma excelente instituição, prelúdio do reino da fraternidade e da "solidariedade, de que se sente necessidade. Aproveitam aos Espíritas que delas participam, como a todo o mundo. Porque as fundar só para eles, com exclusão dos outros? Que ajudem a propagá-las, porque são úteis; que, para as tornar melhores nelas façam penetrar o elemento espírita, nelas penetrando eles próprios o que lhes seria mais proveitoso e para a doutrina. Em nome da caridade evangélica, inscrita em sua bandeira, em nome, dos interesse do Espiritismo, nós os concitamos a evitar tudo quanto pudesse estabelecer uma barreira entre eles e a sociedade. Agora que o progresso moral tende a destruir as que dividem os povos, o Espiritismo não as deve erguer; sua essência é de penetrar em toda a parte; sua missão, melhor tudo o que existe; ele falharia se se isolasse.

Deve a beneficência ficar individual e, neste caso sua ação não será mais limitada do que se for coletiva? A beneficência coletiva tem vantagens incontestáveis e, muito longe de a censurar, nós a, encorajamos. Nada mais fácil do que a praticar em grupos, recolhendo por meio de cotizações regulares ou de donativos facultativos os elementos de um fundo de socorro. Mas então, agindo num círculo restrito, o controle das verdadeiras necessidades é fácil; o conhecimento que delas se pode ter permite uma distribuição mais justa e mais proveitosa. Com uma módica quantia, bem distribuída e dada de propósito, podem ser prestados mais serviços reais que com uma grande soma dada sem conhecimento de causa e, por assim dizer ao acaso. E, pois, necessário se dar conta de certos detalhes, se não quiser gastar seus recursos sem proveito. Ora, compreende-se que tais cuidados seriam impossíveis se se operasse em vasta escala. Aqui nada de dédalo administrativo nada de pessoal burocrático. Algumas pessoas de boa-vontade, e eis tudo.

Não podemos senão encorajar com todas as forças a beneficência coletiva nos grupos espíritas. Nós a conhecemos em Paris, nas Províncias e no Estrangeiro, que são fundadas, senão exclusivamente, ao menos principalmente com esse objetivo, e cuja organização nada deixa a desejar. Lá, membros dedicados vão a domicílio inquirir dos sofrimentos e levar o que às vezes vale mais do que os socorros materiais: as consolações e o encorajamento. Honra a eles, porque bem merecem do Espiritismo! Que cada grupo assim haja em sua esfera de atividade e todos juntos realizarão maior soma de bens do que uma caixa central quatro vezes mais rica.